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(2005, Interscope Records, importado ou MP3.) |
No passado, os caras chegaram a fazer certa fama pela trilha de guitarras, baixos, baterias, cabos e microfones que mataram sem piedade, todos deixados aos frangalhos nos palcos deste nosso mundo que tiveram a honra de presenciar alguns dos pandemônios deadianos LIVE. Até mesmo remotos municípios caipiras desse nosso Brasil tiveram a honra de receberem shows do TOD (e, segundo relato de um certo são-carlense, foram fodidamente bons). A imprensa mundial concordou em dizer que as performances ao vivo dos garotos estavam entre as mais explosivas já vistas e não faltaram várias comparações feitas entre o Trail of Dead ao vivo com os shows da fase mais enérgica do The Who, aqueles que sempre acabavam com o esmigalhamento dos instrumentos de Pete Townshend, Keith Moon e John Entwhistle num delírio destrutivo que depois muita gente se pôs a imitar... Em estúdio, a banda parece nunca quer conseguido capturar toda a energia dionisíaca que (dizem...) emanava dos palcos, mas cravaram pelo menos um clássico álbum na história da década 00 com o disco anterior, Source Tags and Codes. Enfim, o Trail of Dead, no pós-Nirvana, foi uma das poucas bandas raivosas, malditas, explosivas e catárticas (as outras sendo, talvez, o At The Drive-In e Queens of the Stone Age), que conseguiu preencher a sede de violência da juventude com GUITARRISMOS CATACLÍSMICOS e vocais de rasgar as cordas vocais. E mais: pra delícia dos indies, ficava claro que uma banda com um nome desse tamanho não estava lá muito fim de ser extremamente popular.
A principal novidade é que em nenhum outro álbum do Trail Of Dead o vocal de Conrad Keely está tão destacado, tão límpido, tão audível, tão no primeiro plano, quanto neste Worlds Apart. Este disco mostra que aquela banda que costumava soterrar o vocal debaixo de uma avalanche de barulho e microfonia mudou um pouco. O que, por um lado, serve para destacar um lado mais humano, frágil e falível do vocalista principal, por outro demonstra que sua voz, quando não afundada na barulheira do background, não tem toda aquela potência que se imaginava. Temos por aqui, por exemplo, a primeira verdadeira incursão do Trail of Dead no MODO-BALADA (que, digamos a verdade, já tinha sido flertado pela banda em "How Near How Far" ou "Claire de Lune"), na nostálgica, melancólica e bela "Summer of 91". Keely cantando acompanhado por uma mera pianola nos minutos iniciais é uma experiência surpreendentemente agradável. "Will You Smile Again", por sua vez, traz Keely tentando berrar sobre um fundo minimalista de bateria e baixo, com resultado não tão aprazível, principalmente pois o que precedeu foi um esporro empolgante de guitarronas riffosas e batera galopante, um dos inícios de música mais poderosos de toda a carreira do TOD. Outra surpresa é que o Trail Of Dead, que nunca foi uma banda exatamente engajada politicamente, faz sua primeira verdadeira tentativa no ramo da CANÇÃO DE PROTESTO com a música título, canção das mais facéis de ser digeridas da carreira da banda. "Worlds Apart", a música, é o Trail of Dead em modo MAINSTREAM, fazendo um retrato cruel da América bushiana. É porrada pra todo lado: as "vagabundas na MTV com seus carros e anéis e essas merdas", os "corpos, estupros e amputados" da BBC ("o que você acha agora do Sonho Americano?"), as mães e pais que educam os filhos na cultura da publicidade e que dormem com a "consciência intacta" etc. O único ponto a objetar é que esse ataque de adolescência rebelde me pareceu soar um tanto artifical e forçado saído da boca de caras que já passaram bem dos 25 de idade. Como adultos se fingindo se sentir tão raivosos quanto eram aos 16 anos de idade. Mas melhor uma rebeldia forçada do que um conformismo espontâneo... Alguns dos momentos mais poderosos e inspirados da carreira do Trail of Dead se encontram aqui. "Caterwaul", única música que conta com os vocais principais do baterista Jason Reece, reúne tudo o que a banda tem de mais adorável: uma massa sonora vigorosa e violenta, um refrão berrado e tesudo, a união harmoniosa de uma wall of sound violenta com a ternura de um piano melancólico, uma mudança de andamento muito bem feita. Se bem que nunca atingindo o grau de FODICE de "Caterwaul", outras músicas estão entre as melhores coisas que se produz hoje em termos de GUITAR ROCK SANGRENTO E COM PEGADA: "Rest Will Follow" e "Classic Art Showcase" são as melhores dentre elas.
E
outra coisa a objetar: acho que não há disco do Trail
of Dead que seja mais HETEROGÊNEO que este. Pode-se até
dizer que a homogeneidade de um Madonna acabava por vezes por
parecer falta de ousadia e excesso de apego ao estilo-Sonic-Youth
de fazer rock. Worlds Apart ao menos ousa explorar novas sonoridades
e novos caminhos, merecendo até o título de disco mais
AVENTUREIRO da banda. Mas acaba, em última análise,
soando um tanto incoerente. O Trail of Dead parece não se decidir:
querem se tornar heróis cult, uma banda maldita, amaldiçoada
pelo mercado, interpretada pelos semioticistas da crítica musical,
ídolos dos Ouvidos de Elite? Ou querem ser uma banda de massa,
uma organização de rock and roll apocalíptico
e vulcânico que mira nos ouvidos de multidões? É
essa constante oscilação entre, de um lado, a pretensão
mais prog e mais baudelairesca, e, de outro, a barulheira mais orangotangamente
punk que faz Worlds Apart parecer como um disco de um grupo
de jovens um tanto indecisos quantos aos caminhos que querem seguir.
O dilema se reduz ao seguinte: a ambição ou a visceralidade?
O futuro é incerto. Worlds Apart pode ter sido tanto
o primeiro passo do Trail of Dead em direção ao abismo
e a desintegração, ou um pit-stop que aponta para um
novo Trail of Dead, mais variado, mais exploratório, a vir
num futuro que prossegue promissor.
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