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TELEVISION 25 de Outubro de 2005
"Não muita gente
conhece o Television, mas eles estão em todo lugar. Estão nas guitarras
desconstruídas do Sonic Youth, nas notas sincopadas e garageiras dos
Strokes, nos solos improvisados do Queens of the Stone Age, na crueza de
PJ Harvey...", escreveu bem o Tiago Ney na Folha de São Paulo. Pois é: eis aí mais um caso
de banda que marcou mais por influência em outras bandas do que por
sucesso popular. Hoje é um tanto difícil enxergar porque diabos o
Television foi tacado no meio do balaio punk: parece fazer mais sentido
dizer que aquilo que fazem é rock progressivo ou new wave ambiciosa. Nem
chamá-los de precursores dá: já era 1977 quando foi lançado o "Marquee Moon" (leia resenha da Pitchfork), clássico primeiro disco de
Verlaine e companhia, e o som ali registrado não tinha muito a ver com o
dos Ramones, dos Pistols e do Clash (bandas que já estavam na ativa).
Apostando num virtuosimo instrumental centrado em duelos guitarrísticos
(que por vezes se estendiam em improvisos quilométricos) e nas letras
poéticas e um tanto surreais de Tom Verlaine (que tem um sobrenome
imponente para um pretendente a poeta...), o Television nunca teve a
visceralidade e a barulheira que fizeram a fama do punk.
Sem dúvida que valeu a pena ter visto de perto essa entidade histórica do rock americano dos anos 70, mas, infelizmente, o Television deu amostras de cansaço e falta de vitalidade. Em cima do palco, todos os quatro músicos, todos já sessentões, parecem um tanto apáticos, soturnos e excessivamente sérios. Não se comunicam com o público nem entre si, e também não parecem estar se divertindo muito com a música que produzem. Tom Verlaine, magricela e altão, parece o pai de Thurston Moore ou Mark Arm, um tiozão do guitar rock que já nota a calvície tomando parte de seu crânio. Com voz débil e uma timidez imensa, Verlaine cantou baixinho e não teve coragem de berrar quando era a hora certa para isso (no "eeeeeevvvvvviillll!" de "See no Evil", por exemplo) e acabou fazendo uma performance vocal medíocre. Já o guitarrista Richard Lloyd, disparado o melhor músico da banda, permaneceu o show inteiro com aquele cara de diarréia dele, como se estivesse ansioso pra que o show acabasse logo pra poder ir no banheiro. Parece que aquela é a fisionomia natural dele, nada a ver com desarranjos intestinais. Mas bem que parecia careta de retenção anal... A cara de poucos amigos de Lloyd e a aparente falta total
de qualquer conexão afetiva entre os membros da banda me deu uma má
impressão: parecia que ali em cima do palco estavam caras que, se
concordaram em voltar aos palcos e lançar disco novo ano que vem, não foi
certamente por amizade ou por gosto pela convivência. Não, aquilo estava
longe de ser uma BANDA DE AMIGOS. O que não impediu que a música, muito
bem ensaiada e tocada com imensa competência, agradasse aos ouvidos,
especialmente as guitarrinhas interpenetrantes de Verlaine e Lloyd.
Destaque para o "hit" "See No Evil" (cantado junto por grande parte do
povo presente), o imenso guitarrismo viajante de "Marquee Moon" (que
musiquinha foda!) e a versão para "Knocking On Heavens Door" de Bob Dylan.
Mas, sério: a perícia técnica dos caras é incrível, mas o tesão de tocar e a empatia com o público eram praticamente inexistentes, o que estragou um pouco o gosto do show. O Television inteiro me pareceu um tanto antipático, humanamente falando. Quem viu o MC5 no Campari sabe: Wayne Kramer, naquela ocasião, conseguiu fascinar o público e fazer daquela noite algo de extremamente especial para quase todo mundo ali dentro pois estava extremamente empolgado e radiante em cima do palco... O Television, por sua vez, voltou um tanto triste e apático, uma pálida sombra perto do vulcão que foi o Motor City Five irradiando energia e juventude...
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