SUSAN TEDESCHI

"Just Won't Burn"

(1998, ToneCool, importado - ou MP3)


       
NOVO GÁS PARA O BLUES

- Cantora, guitarrista, compositora e potencial sex symbol, Susan Tedeschi é um dos nomes mais impressionantes na nova geração de blues -

(por Eduardo C. de Moraes)

      
      A aparência dócil e infantil da mocinha na capa pode ser enganadora: quem já ouviu o tipo de furacão que Susan consegue criar com sua abençoada garganta sabe que a garota esconde uma fera dentro de si. Surgida na segunda metade dos anos 90 como um dos novos talentos que procuravam revitalizar o blues, estilo jurássico muitas vezes considerado como obsoleto em relação a seu mais famoso filhinho, Susan Tedeschi vem se transformando num das forças mais explosivas do estilo na atualidade. Transpirando uma paixão inegável pelas formas mais básicas e consagradas de bluezera, a moça juntou uma boa dose de rockão clássico e de sensibilidade baladeira na receita, empunhou sua guitarra com uma competência poucas vezes antes vista numa mulher, tacou por cima sua bela voz capaz de estourar vidraças e saiu-se com um resultado que - apesar de pouco original e pouco pretensioso - enche os ouvidos de prazer e a vida de excitação.

      Principalmente por ser mulher e branquela, ela chega derrubando alguns dos estereótipos sempre vinculados ao blues. Grande parte dos maiores nomes da história do estilo - B.B. King, John Lee Hooker, Muddy Waters, Albert King, Howlin Wolf, Buddy Guy, Robert Johnson, Skip James, Junior Wells etc. - tinham em comum a pele negra. As mitologias (sempre abundantes no reino do blues) diziam que era preciso, para ser um verdadeiro bluesman, ter sentido nos ossos o sofrimento e a humilhação, que seriam depois expiados e transfigurados através da expressão musical. Não é à toa que em inglês a palavra "blues" é gíria pra designar estados melancólicos e depressivos. A "alma africana", vítima da tortura de séculos, seria então lugar privilegiado para que vicejasse a semente dessa música básica e dolorida que transforma o sofrimento em ascensão.

      Uma nova geração de artistas surgidos na década de 90 tentou questionar esse axioma que dizia que bom blues só sai da garganta de um negão. Clapton, Stevie Ray Vaughan e Janis já haviam inserido seus nomes na história do estilo e eram branquelos de exceção que demonstravam qualidades comparáveis àquelas dos grandes mestres. A nova geração tinha como principais nomes Johnny Lang, Kenny Wayne Sheperd e a própria Susan, figuras importantes do revival de blues-rock na última década. Muito inspirada por Janis Joplin e Bonnie Raitt (mas também por Bob Dylan, Muddy Waters, velharias gospel e R&B, entre outras coisas), Tedeschi chegou pra mostrar que pra mandar bem não era necessário exatamente ser um bluesMAN (por que não uma bluesWOMAN?) e nem tampouco ser negão.

      Susan (nascida em 1970, na região de Boston), começou a fazer-se notar após o lançamento de seu segundo álbum de estúdio, esse Just Won't Burn, de 1998. O álbum, lançado por uma pequena gravadora local de Boston (Tone Cool), transformou-se num surpreendente sucesso comercial à base de publicidade boca-a-boca e vendas nas saídas dos shows. Com pouco respaldo da mídia e da MTV, o álbum teve uma vendagem estimada em 600.000 cópias, quantia bastante considerável para uma nova artista de blues. Em 2000, Susan foi indicada pela primeira vez ao Grammy ("o Oscar da Música") como artista revelação, tendo como competidores Britney Spears, Macy Gray, Kid Rock e Christina Aguilera. Por uma daquelas injustiças grotescas que somente o Grammy é capaz de cometer, Susan conseguiu perder o prêmio mesmo estando em meio à tão má companhia. Mas a indicação foi o bastante para chamar a atenção da imprensa especializada. A Rolling Stone, por exemplo, declarou que sua música representava "uma vitória para qualquer um procurando por um oásis rock and roll em meio ao árido território perdido do pop-teen". Mais duas indicações ao prêmio se seguiriam nos anos subsequentes: o de Melhor Performance Vocal Feminina em 2003 e Melhor Álbum Contemporâneo de Blues, por "Wait For Me", em 2004. Não é nenhum absurdo supor que ela tem grandes possibilidades de tomar o mainstream de assalto logo logo: não só pelas qualidades intrínsecas de sua música, mas também por ser uma baita loiraça - ou seja, tem aquela bela aparência que é quase condição sine qua non pra ser um pop star hoje em dia. Susan não é só uma delícia para os ouvidos, mas agrada sobremaneira ao olhar. Altas voluptuosidades, por assim dizer. A indústria, que não é boba nem nada, não deve ficar parada por muito mais tempo vendo uma ótima chance escapulir. Abrindo shows pra gente de peso (como Rolling Stones, Bob Dylan, B.B. King e Allman Brothers), a moça já vai lentamente se consolidando como uma diva do blues.

      Just Won't Burn, segundo álbum dela (o primeiro se chama Better Days e saiu em 95), traz uma série de releituras de clássicos do blues ("Little By Little" de Junior Wells, "Angel Of Montgomery" de John Prine, e o "standard" "Mama, He Treats Your Daughter Mean") lado a lado com composições originais (algumas da própria Susan, outras de seu colega de banda Tom Hambridge). Entre estas últimas, destacam-se "Rock Me Right" (blues-rock contagiante, que se tornou um improvável semi-hit nas rádios paulistanas anos atrás [principalmente na Brasil 2000]), "It Hurt So Bad" (um exercício jopliano de catarse, numa performance vocal lotada de berros e gemidos impressionantes) e a balada "Looking For Answers" (uma espécie de diálogo metafísico de Susan com o Todo-Poderoso, onde ela diz: "Lord, I love you in so many ways / Lord, I love you each and every day / But now's the time I must ask you why / Why must we live and why must we die? / I'm looking for answers / Looking for answers and nobody knows / Looking for answers from above, not from below...").

      Complementada por uma banda competente (com os tradicionais baixo-batera-e-harmônica), Susan dá um show na guitarra, sem precisar da ajuda de pedaleiras ou grandes efeitos de produção, e surpreende principalmente pela potência de sua voz. Ela berra de excitação, geme de dor e urra "com suficiente estrondo sensual para quebrar garrafas de uísque e despregar as folhas das árvores", como disse Timothy White. O tipo de cantoria que condena todos que se aventurarem a um singalong a perder o gás e abandonar a empreitada. Susan não é apenas uma cantora: sua vocalização é uma PERFORMANCE apaixonada, cheia de groove, sensualidade e oscilações entre leveza e explosões. É como se dissesse que não basta um bom pulmão e uma garganta sadia para bem cantar: é preciso que o pulsar do coração faça correr no sangue o combustível essencial para a manufatura do blues: o tesão. Já pediram pr'ela definir sua música e ela se saiu com essa bonita pérola de simplicidade, recusando rótulos e classificações: "It's all music that comes from the soul"... É só isso mesmo.

      "Só"?


Eduardo Carli de Moraes

05/Março/2004

educmoraes@hotmail.com


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