NOVO GÁS PARA O BLUES - Cantora, guitarrista, compositora e potencial sex symbol, Susan Tedeschi é um dos nomes mais impressionantes na nova geração de blues - (por Eduardo C. de Moraes)
Principalmente por ser mulher e branquela, ela chega derrubando alguns dos estereótipos sempre vinculados ao blues. Grande parte dos maiores nomes da história do estilo - B.B. King, John Lee Hooker, Muddy Waters, Albert King, Howlin Wolf, Buddy Guy, Robert Johnson, Skip James, Junior Wells etc. - tinham em comum a pele negra. As mitologias (sempre abundantes no reino do blues) diziam que era preciso, para ser um verdadeiro bluesman, ter sentido nos ossos o sofrimento e a humilhação, que seriam depois expiados e transfigurados através da expressão musical. Não é à toa que em inglês a palavra "blues" é gíria pra designar estados melancólicos e depressivos. A "alma africana", vítima da tortura de séculos, seria então lugar privilegiado para que vicejasse a semente dessa música básica e dolorida que transforma o sofrimento em ascensão. Uma nova geração de artistas surgidos na década de 90 tentou questionar esse axioma que dizia que bom blues só sai da garganta de um negão. Clapton, Stevie Ray Vaughan e Janis já haviam inserido seus nomes na história do estilo e eram branquelos de exceção que demonstravam qualidades comparáveis àquelas dos grandes mestres. A nova geração tinha como principais nomes Johnny Lang, Kenny Wayne Sheperd e a própria Susan, figuras importantes do revival de blues-rock na última década. Muito inspirada por Janis Joplin e Bonnie Raitt (mas também por Bob Dylan, Muddy Waters, velharias gospel e R&B, entre outras coisas), Tedeschi chegou pra mostrar que pra mandar bem não era necessário exatamente ser um bluesMAN (por que não uma bluesWOMAN?) e nem tampouco ser negão.
Just Won't Burn, segundo álbum dela (o primeiro se chama Better Days e saiu em 95), traz uma série de releituras de clássicos do blues ("Little By Little" de Junior Wells, "Angel Of Montgomery" de John Prine, e o "standard" "Mama, He Treats Your Daughter Mean") lado a lado com composições originais (algumas da própria Susan, outras de seu colega de banda Tom Hambridge). Entre estas últimas, destacam-se "Rock Me Right" (blues-rock contagiante, que se tornou um improvável semi-hit nas rádios paulistanas anos atrás [principalmente na Brasil 2000]), "It Hurt So Bad" (um exercício jopliano de catarse, numa performance vocal lotada de berros e gemidos impressionantes) e a balada "Looking For Answers" (uma espécie de diálogo metafísico de Susan com o Todo-Poderoso, onde ela diz: "Lord, I love you in so many ways / Lord, I love you each and every day / But now's the time I must ask you why / Why must we live and why must we die? / I'm looking for answers / Looking for answers and nobody knows / Looking for answers from above, not from below..."). Complementada por uma banda competente (com os tradicionais baixo-batera-e-harmônica), Susan dá um show na guitarra, sem precisar da ajuda de pedaleiras ou grandes efeitos de produção, e surpreende principalmente pela potência de sua voz. Ela berra de excitação, geme de dor e urra "com suficiente estrondo sensual para quebrar garrafas de uísque e despregar as folhas das árvores", como disse Timothy White. O tipo de cantoria que condena todos que se aventurarem a um singalong a perder o gás e abandonar a empreitada. Susan não é apenas uma cantora: sua vocalização é uma PERFORMANCE apaixonada, cheia de groove, sensualidade e oscilações entre leveza e explosões. É como se dissesse que não basta um bom pulmão e uma garganta sadia para bem cantar: é preciso que o pulsar do coração faça correr no sangue o combustível essencial para a manufatura do blues: o tesão. Já pediram pr'ela definir sua música e ela se saiu com essa bonita pérola de simplicidade, recusando rótulos e classificações: "It's all music that comes from the soul"... É só isso mesmo. "Só"?
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