
QUEENS OF THE STONE AGE,
"Rated R"
(Interscope Records lá fora, Universal
por aqui, 2000, produzido por Josh Homme e Chris Goss).
|
nick
oliveri e josh homme
2000
foi um dos anos-chave para a popularização do Queens
Of The Stone Age e para a transformação dos caras
numa das instituições sagradas do Rock and Roll
na primeira década do século 21. Alguns podem resmungar
que isso se deu após uma série de golpes baixos,
sensacionalismos e espetáculos cuidadosamente confeccionados
para a mídia, incluindo os strip-teases de Nick Oliveri
frente à platéias de dezenas de milhares de pessoas
(e eventuais passagens pela delegacia de polícia por atentado
ao pudor [mó puritanismo issaê, hein?]) e músicas
que só possuíam nomes de drogas vomitados um após
outro em sequência brutal. A sorte do QOTSA é que,
desconsiderando o comportamento exibicionista e a ostentação
da Atitude "sou um junkie cool pra caralho", a música
que fazem justifica tudo e dá o desconto necessário
pr'esse excesso de fabricação de imagens.
Após
quase uma década de batalha no underground, Josh Homme
finalmente conseguiu o reconhecimento de crítica e público
com esse "Rated R" e tomou o mainstream de assalto.
O álbum despencou nas lojas em 2000 causando alvoroço
na imprensa especializada, sendo comparado aqui e acolá
com "Nevermind" (meio nadavê issaê) e ganhando
reconhecimento de várias publicações musicais,
da mais conservadora à mais pesada (nota 10 na Bizz, KKKKK
na Kerrang!, 9 na NME, coroado como melhor álbum do ano
na Bizz e na NME). Don't Believe The Hype?
Durante
a primeira metade dos anos 90, Josh era guitarrista do cultuado
Kyuss, que primava pela mistura de um peso Black Sabbath-iano
com doses de psicodelia e jams de guitarra fenomenais. Quando
começou a banda, Josh tinha apenas 16 anos de idade e não
deixou de surpreender aos poucos que o ouviram pelos espantosos
dons que tinha no comando de sua guitarra, normalmente plugada
num cubo de baixo com a distorção no talo. O Kyuss
lançou 4 discos - entre eles os clássicos cult Blues
For The Red Sun (1992) e Sky Valley´ (1994)
- e encerrou suas atividades em 1996. Os destroços se mostraram
bastante férteis. O vocalista John Garcia montou o ótimo
combo de stoner metal Unida, o baixista Nick Oliveri já
tocava com os Dwarves de Seattle e depois montou o Mondo Generator,
o batera Brant Bjork (membro também do Fu Manchu) fez um
disco solo e Josh Homme teve uma rápida passagem pelos
Screaming Trees (nenhum registro em disco), gravou uma série
de encontros jammísticos (o projeto Desert Sessions, que
vem produzindo uma catarata de discos nos últimos anos)
e formou, em 1997, o QOTSA.

Assumindo
os vocais de sua nova banda, Josh lançou com o Queens o
tosco e clássico disco homônimo de 1998 (lançado
em terras brasileiras pela Roadrunner). A inspiradíssima
guitarra do mestre continuava construindo riffs maravilhosos,
as composições ganharam em simplicidade e as letras
passaram a ser mais relevantes do que as do tempo adolescente
no Kyuss. Josh, ainda um pouco tímido e inseguro em seu
papel de vocalista, viria a se desenvolver consideravelmente como
vocalista daí em diante.
Dois
anos depois e um bom contrato assinado, o Queens Of The Stone
Age voltou mudado. O ex-baixista do Kyuss, Nick Oliveri, foi incorporado
à banda e trouxe de brinde o excelente agente de marketing
que é seu emblemático cavanhaque acoplado à
sua carequinha stipeana. Rated R, estréia da
banda por uma gravadora major, chegou muito bem produzido e certamente
com maior poderio comercial do que o debut. Enquanto o primeiro
disco dos caras soava como uma demo-tape gravada em um único
take numa garajona, o segundo disco traz intrincados e complexos
detalhes e efeitos de produção, a cargo do grande
Chris Goss, produtor de grande parte dos discos do Kyuss.
"Feel
Good Hit Of The Summer" poderia ter sido a "Smeels Like
Teen Spirit" da banda, mas acabou não causando a esperada
explosão no mundo pop. Sobre uma guitarra nirvalesca e
um esporro gigantesco, Josh cospe nomes de drogas na música
de um verso só: "Nicotine, valium, vycodin, marijuana,
ecstasy and alcohol". Logo depois o lindo refrão -
"C-c-c-c-cocaineeeeeee!" - vem pra coroar um hino do
rock n roll junkie. A falha da música em estourar
nas paradas acabou por fazer com que o principal single do disco
acabasse sendo "The Lost Art Of Keeping A Secret", onde
peso e melodia convivem pacificamente numa das músicas
mais pop da carreira da banda, com Josh conquistando uma inaudita
segurança em seus vocais.
O
disco segue com várias experimentações, alguma
psicodelia, guitarras chapadas por todo lado, muita criatividade.
Seja repetindo riffs à exaustão que colam na cabeça
("Monsters In The Parassol", "Leg Of Lamb"),
seja com longas trips de guitarra ("Better Living Through
Chemistry"), em música instrumental acústica
no violão de 12 cordas ("Lightning Song") ou
fazendo punk rock modernoso ("Quick And To The Pointless"
e "Tension Head"), o QOTSA sempre se dá bem.
Consegue ser eclético sem soar heterogêneo e se constitui
como um dos raros casos de banda capaz de agradar igualmente à
fãs de pop-rock, punk e alternativo - e até metaleiros
mais cabeça aberta.
Em
um disco rápido e enxuto - 11 sons em 40 e poucos minutos
- o QOTSA gravou um belo testamento do rock n roll século
21, diversificado tanto em termos de sons quanto no número
de pessoas trabalhando. São 3 vocalistas principais diferentes
(Josh, Nick Oliveri e Mark Lanegan), 2 bateristas, uma série
de backing vocals, caras tocando horns e pianos, violões
de 12 cordas e outras coisinhas mais. As faixas se ligam umas
nas outras, no famoso efeito Sgt. Peppers, que sem dúvida
dá um outro brilho ao álbum e confere uma certa
unidade ao todo. Algumas esquisitices sem graça atrapalham
um pouco o desenvolvimento do álbum, como os metais que
esticam "I Think I Lost My Headache" para desnecessários
8:40 min, mas nada muito comprometedor.
O
show guitarrístico de Josh Homme é uma das coisas
mais suculentas do QOTSA. Considero Josh como um dos melhores
guitarristas do mundo em atividade, fugindo do clichê que
assola esses posers de merda tipo Yngwie Malmsteen, Steve Vai
e Satriani, com suas escalas e escalas decoradas e repetidas à
velocidade da luz lá nas casas mais agudinhas, numa chatice
punhetória sem fim. Tomando como modelo um outro estilo
de operar o instrumento, mais minimalista, mais rock and roll,
meio à maneira de Ron Asheton no "Funhouse" dos
Stooges (disco que Josh admira profundamente), o cara passa de
solos graves a "barulinhos" com maestria e cria paredes
de som chapantes através da sobreposição
de guitarras, como um Kevin Shields do stoner rock. Fuderoso.
Com
esse disco lançado e os elogios arrancados da crítica,
a banda conquistou a útil simpatia de um fã famoso,
Dave Grohl, que se auto-convidou para ingressar na banda segurando
as baquetas para gravar Songs For The Deaf (2003). O QOTSA é
hoje um cometa em franca ascensão, recolocando o rock and
roll barulhento e de mensagem hedonista no meio do mainstream
britneyrizado. Só nos resta agradecer. E pedir mais.
Eduardo
Carli de Moraes
jan/2004
educmoraes@hotmail.com
|