[1]
É difícil pra mim, quase impossível, falar sobre
Nevermind, Nirvana e Kurt Cobain com a tal da imparcialidade
jornalística, com uma racionalidade toda fria, me atendo somente aos
fatos: esse é daqueles discos com os quais muitos de nós, eu inclusive,
tem uma ligação totalmente passional e fanática, um elo
afetivo muito forte, que impede de saída qualquer “frieza” e que
exige um texto exaltado, com o termômetro da subjetividade batendo no
topo... Porque, vocês sabem, esse é daqueles discos que, para muitos e
muitos, se torna muito mais do que um disco: é uma parte de nossas vidas,
um xerox de nossas almas, um espelho de nossos sentimentos. Mas isso é um
lance que só entende quem também é fã...
Num levo na esportiva
quem se meta a falar mal do Nirvana – é o mesmo que xingar minha mãe,
mexer no meu vespeiro, me cutucar com vara curta; perco a
compostura, tá!? (UI!) Sou daqueles que tem vontade de tirar
todos os crucifixos da parede (quem precisa de Jesus quando tem Cobain?!)
e colocar no lugar um pôster enorme com aquela capa clássica, o menininho
pelado, debaixo d’água, sendo fisgado por uma nota de dólar. E eu adoraria
ver o hino nacional americado substituído por “Smells Like Teen Spirit”.
Em setembro de 1991, quando Nevermind saía do forno, eu
estava com sete aninhos de idade recém-completados e não tinha a mínima
idéia de quem era Kurt Cobain, Nirvana e Seattle. Meu “conhecimento”
musical provavelmente se restringia somente àquelas trilhas sonoras toscas
da infância – do Balão Mágico, do Carrossel e dos Cavaleiros do Zodíaco,
provavelmente - só coisa fina. Quando comecei a ouvir Nirvana,
Kurt já era pó e metade dos críticos de rock do mundo esperavam
ansiosamente pela chegada de um disco ou banda de impacto semelhante. Que
nunca veio. Até hoje.
15 anos atrás esse terremoto chamado
Nevermind despencou nas lojas de discos fazendo um estrago
extremo. Era pra ser o somente 1o álbum lançado por uma grande gravadora
(a Geffen) de uma obscura banda da região de Seattle, que antes havia
gravado apenas um disco (o tosco Bleach, de 1989, gravado por uma
merreca e lançado pela Sub Pop sem muita repercussão). Previsão de vendas:
50 mil cópias...
Hoje já sabemos bem o tamanho do impacto que esse
disco causou: o que a bomba de Hiroshima foi para o Japão e o tsunami foi
para a Indonésia, Nevermind foi para a história do rock nos anos
90 e o clipe de “Smells Like Teen Spirit” foi para a MTV de 1991. Esse foi
o disco que mudou tudo, que redefiniu todo o cenário, que varreu do mapa
muito lixo (e nos salvou de pestes tenebrosas como Michael Jackson, Bon
Jovi, Axl Rose e toda a “cena hair metal” [aquilo dava M E D O !]) e que
deixou a maior das cicatrizes na carne do rock durante a década de 90...
Nevermind foi uma porra dum fenômeno sociológico!
Claro, Nevermind, antes de mais nada, foi, é e sempre
será um baita dum disco de punk rock, empolgante, energético, catártico,
daqueles que você curte de cabo a rabo, música a música, verso a verso,
cantando junto cada refrão, sentindo calafrios a cada berro... Não é à toa
que o lado A inteirinho seja composto por hits que tocaram até cansar:
“Smells Like Teen Spirit”, “In Bloom”, “Come As You Are”, “Lithium” e
“Polly”. O “lado B”, onde se concentram as músicas que não estouraram, tem
pelo menos a virtude fenomenal de manter o disco no mesmo nível de
excitação e empolgação – e não são poucas as pessoas que, hoje em dia,
ouvem Nevermind só a partir da faixa 7, acompanhando mais uma
sequência matadora de grandes hinos grunge-punk: “Territorial Pissings”,
“Drain You”, “Lounge Act”, “Stay Away”, “On A Plain e “Something In The
Way”.
Desde Rocket To Russia, Nevermind The
Bollocks ou Back in Black não surgia um álbum de rock tão
explosivo, coeso, revolucionário e bom do começo ao fim. Era ao mesmo
tempo headbangável e pogável, capaz de agradar igualmente a fãs de punk
rock, heavy metal e rock alternativo, e que foi também um dos raros casos
em que a crítica e o público cantaram elogios juntos. Difícil ver uma
banda que, mesmo tendo vendido umas 15 milhões de cópias de seu disco mais
famoso, conseguiu ainda tê-lo elegido como álbum da década
(qualitativamente falando) por uma série de renomadas publicações,
incluindo a Bizz brasileira e a SPIN inglesa, só pra ficar com dois
pesos-pesados.
Acho exagero dizer que o grunge nunca teria
existido sem Nevermind – o Pearl Jam, o Soundgarden, o Alice in
Chains, o Mudhoney e o Screaming Trees eram bandas boas demais
para que não tivessem conseguido se destacar e se sobressair mesmo sem a
mão-na-roda que foi a explosão fenomenal do Nirvana. É quase certo que
Seattle, com ou sem a fama imensa conquistada pelo segundo álbum de Kurt,
Krist e Dave, teria se tornado o epicentro do mundo pop no começo dos anos
90. Com uma concentração tão densa de boas bandas, lugares bacana pra
tocar e revolucionários projetos de gravadoras independentes (viva Sub
Pop!), Seattle estava condenada, para o bem ou para o mal, a se tornar o
foco de atenção supremo no começo dos anos 90.
Com uma série de
discos clássicos saindo um depois do outro (Badmotorfinger,
Facelift, Ten, Sweet Oblivion, Temple Of
The Dog, Superfuzz Bigmuff...), Nevermind foi só o
catalizador do processo, o grito de alerta que atravessou oceanos e puxou
todos os olhares do mundo para aquela região do Noroeste americano que, de
uma hora pra outra, tornou-se o canto mais cool e vigiado do planeta,
enquanto o clipe de “Smells Like Teen Spirit” bombava na MTV e se tornava
um dos maiores fenômenos da história da emissora. Jimi Hendrix também era
um cidadão nato de Seattle, mas nunca antes na história a cidade tinha
conhecido tamanha efervescência musical e tanta atenção dada a ela pela
imprensa mundial – o que foi muito bem detalhado no documentário
Hype!, de Doug Pray, lançado no Brasil pela Bizz.
O
Nirvana certamente não era uma banda de excelentes músicos... Dave Grohl
com certeza era um baterista fenomenalmente poderoso, mas Kurt e Krist
Novoselic, os dois vindos da escola do punk rock e do indie tosco, tinham
aprendido só o basicão do basicão e estavam cagando e andando pra papos de
conservatório musical. E é claro que sempre vão existir aqueles caras
chatérrimos, defensores de um rock mais progressivo e sofisticado, que
descerão lenha em cima do Nirvana só porque todas as músicas são socação
de power chords mergulhados em distorção máxima e porque Kurt “não sabia
cantar”. Não vou ficar aqui respondendo aos críticos do Nirvana e tentando
argumentar racionalmente que Nevermind, In Utero,
Unplugged In New York e todo o resto prestam sim. Eu realmente
preciso explicar com palavras por que esse diabo de disco é tão
fudidamente bom? Não sei, mas acho que as minhas palavras seriam baboseira
frente à música... Quem entende, entende. Quem sente, sente.
* * *
* * * *
[2] - MEU KURT É ASSIM... 
Mas quem era Kurt Cobain? Poucas coisas me
deixam mais puto (e olha que eu sou um cara sussa...) do que os desafetos
do Nirvana colocando qualquer rótulo fácil numa pessoa tão complexa, tão
ambígua e tão difícil de entender, dizendo que o cara era só um
“deprimido”, só um “junkie”, ou qualquer outra etiqueta parecida. Como se
fosse possível esgotar o que foi uma vida através de uma palavra, um
conceito, um estereótipo... Vale mais o esforço pra tentar conhecer o
homem por trás da arte, o que não é nada fácil quando se trata de Cobain.
“Mesmo aqueles que o conheciam melhor achavam que quase não o
conheciam”, diz Charles Cross no Mais Pesado Que o Céu, e
Kurt realmente não se esforçava muito em elucidar o mistério que muitos de
nós, fãs, tentamos desvendar: mas quem é esse tal de Kurt Cobain, de
verdade?
Eu tenho um Kurt Cobain pessoal, o Kurt Cobain como eu
imagino que ele foi, construído depois de todas as biografias, resenhas,
matérias e entrevistas que vi - e vou tentar pintar um “retrato” aqui...
Alguns podem achar que é delírio de fã ou que tô forçando a barra, mas eu
confesso: me acho muito parecido com Kurt, em personalidade, em visão de
mundo, em sentimentos sentidos – o que é também normal: porque a gente só
se torna fã daqueles que consegue entender e se identificar.
Lembro de ter lido certas frases de Kurt, reunidas no livro
Odeio-me e Quero Morrer (que foi publicado só em Portugal), e
achar que eram coisas que eu gostaria de ter dito e que descreviam
perfeitamente a minha própria vida. Por exemplo essa: "nas minhas
composições, há sempre um profundo dualismo: na minha vida, como nas
minhas canções, metade das vezes sou um incurável niilista e na outra
metade reconheço-me sincero e vulnerável." E o meu Kurt é assim, meu
soulbrother, oscilando entre o niilismo mais brutal (esse mundo é
uma merda! Deus está morto! Viver não vale a pena! Ninguém nos ama!) e a
vulnerabilidade e a honestidade mais doce e mais desarmada (como se pode
ver em certos momentos do Acústico MTV, aquela paz, aquela
serenidade...)
Kurt, o meu Kurt, é aquele garotinho que ficou
traumatizado e ferido desde a infância porque teve que enfrentar o
divórcio dos pais ainda cedo e ficou sendo passado de parente pra parente,
feito batata quente, sem ser verdadeiramente querido por ninguém. O
divórcio dos pais de Kurt, segundo o Mais Pesado Que o Céu,
“era uma guerra, cheia do ódio, despeito e vingança”, algo muito
parecido com “uma rixa sangrenta”. Esse processo, segundo Cross,
equivaleu a um “holocausto emocional” para o pequeno Kurt e
“nenhum outro evento isolado em sua vida teve mais efeito na
conformação de sua personalidade” .
Kurt nasceu e cresceu
numa cidade pequena, Aberdeen, perto de Seattle, um lugarzinho
aparentemente trash, tosco e ultra-tedioso. Segundo a descrição de Cross,
a população estava em declínio por causa da emigração causada pelo
desemprego; as taxas de alcoolismo, violência doméstica e suicídios
aumentavam vertiginosamente; pipocavam prostíbulos baratos e botecos
proletários. Aberdeen, segundo uma das revistas Look de 1952, era “um
dos pontos quentes na batalha americana contra o pecado” (haha!). Não
exatamente o habitat mais adequado pra que florescesse uma criança sadia e
feliz...
Kurt, o meu Kurt, era aquele tipo de moleque que, na
escola, ficava de cabeça baixa durante todas as aulas, entediado até num
poder mais, se entretendo com fantasias sangrentas onde o professor era
enforcado no poste ou explodia como uma bomba relógio... Ficava só
rabiscando porcaria na carteira, perfurando a borracha com a lapiseira ou
fazendo desenhos macabros e bizarros nas folhas do caderno. Estudar pra
quê, aliás? Pra entrar na faculdade, arranjar emprego, constituir família,
ficar velho e depois morrer, todo enrugado e ressecado e de cabelos
brancos? Kurt era o cara que não via sentido nisso tudo.
Era também
o garotinho retraído, introspectivo, que falava pouco, que nunca ia ser a
estrelinha da turma, o quarterback pra quem as
cheerleaders pagavam pau, o CDF que os professores adulavam...
Acostumado às sombras, não era nem admirado nem zoado, nem bonito nem
feio, o tipo de pessoa que não fede nem cheira. Não era o ódio do mundo o
que ele tinha que suportar: era só a indiferença. Não era de falar muito,
e provavelmente olhava com raiva para todas as pessoas que tagarelavam
tanto sem ter nada a dizer. Gostava de ficar sozinho no quarto, soltando
sua raiva reprimida nas páginas de seu diário (“um dispositivo
terapêutico obsessivo-compulsivo pelo qual ele conseguia soltar seus mais
íntimos pensamentos”, segundo Cross), expressando todos os seus
sentimentos vagos com seus desenhos, desabafando através da arte,
destilando seus demônios....
Kurt era o cara que, sensível demais
aos horrores do mundo, não podia evitar colocar em dúvida a existência de
um Deus bondoso e toda a ladainha religiosa que nos enfiam cabeça a
dentro. “A maioria das discussões religiosas entre os dois [Kurt e sua
amiga Tracy] era sobre se Deus poderia existir num mundo cheio de tanto
horror”, conta o Mais Pesado Que o Céu, “com Kurt
assumindo a posição de que Satã era mais forte.”
E, claro,
Kurt era o tipo de jovem que odiava tudo, principalmente a si mesmo,
claro, mas toda sua vida, sua escola, sua família (ou a falta dela), o
mundo em geral, e que queria enfiar em seu organismo qualquer substância
química que fizesse esse ódio, essa dor e essa angústia sumirem, ao menos
por um tempo. Certamente não era coisa agradável ter um relacionamento com
Kurt Cobain: “manter uma relação íntima com ele significava viver em
um mundo de escapismo saturado de opiatos”, sugere Charles R. Cross,
referendado por seus companheiros de banda. “Ele estava realmente afim
de ficar chapado: drogas, ácido, todo tipo de droga. Ele ficava chapadão
na metade do dia. Era um pirado.”, disse o baixista Krist Novoselic.
E Kurt, claro, não conseguia suportar nada que se parecesse com o
mundo da alta sociedade, da alta cultura, do entretenimento de massas...
Vejam o que diz o biógrafo: “...nunca tinha havido um astro do rock
como Kurt Cobain. Ele era mais um antiastro do que uma celebridade,
recusando-se a entrar numa limusine para ir à NBC e conferindo uma
sensibilidade frugal a tudo o que fazia. Apresentou-se no Saturday Night
Live com as mesmas roupas que vestia nos dois dias anteriores... Nunca
antes na história da televisão ao vivo um artista havia dedicado tão pouco
cuidado à sua aparência ou higiene, ou assim parecia.” Ele era tipo
um vira-latas pulguento que se negava a seguir à risca a postura kitsch
que é exigida pela máquina da mídia – vestir-se com roupas de marca,
passar duas horas no cabeleireiro, submeter-se à maquiagem, esconder todos
os seus podres. Queria inserir-se no meio da assepsia reinante como um
detrito sujo que não aceitava ser limpo ou empurrado pra baixo do tapete.
Kurt era também o infinitamente sarcástico, aquele que não
conseguia levar a sério nada do que as pessoas sérias levam a sério,
aquele que sempre acharia ridículo e absurdo vestir um terno, trabalhar
num escritório e ir pro shopping center nos fins-de-semana. Queria
libertar a criança idiota e perversa que tinha dentro de si – e não são
poucas as idiotices, maluquices, diabruras e gracinhas de mau-gosto
registradas sobre ele, sempre louco para ofender, chocar e demolir os
clichês...
E Kurt, o meu Kurt, como eu o imagino, foi o garoto que
viveu até o fundo o Sonho do Rock and Roll, que imaginou-se
maravilhosamente vingado de todos os que o desprezaram e ignoraram, que
teve inúmeras fantasias sobre a imensa felicidade que sentiria quando
estivesse lá, na frente de uma platéia imensa, no topo das paradas,
finalmente amado e querido pelas multidões... E que descobriu,
amargamente, que nada disso curou sua angústia e sua solidão. Que
descobriu que o preço a pagar por chegar no topo é a queda. Que descobriu
que o mal-estar permanecia lá – e as drogas, mais necessárias e
indispensáveis do que nunca. Que descobriu que a fama não salva ninguém. E
talvez seus últimos dias tenham realmente sido tão desoladores quanto Gus
Van Sant sugeriu em seu filme Last Days, aquele labirinto
asfixiante de sofrimento
silencioso...
* * * * * *
[3] - ME ODEIO E QUERO MORRER!
Hoje, sabendo do que sabemos sobre o final do filme da
vida de Cobain, já olhamos pra Nevermind com um perpectiva
diferente daquela que o mundo voltou para o disco na época de seu
lançamento. Em 1991, Nevermind foi um fenômeno de vendas, um
disco-maremoto, um “criador de estilo”, um dos discos de rock mais
excitantes e originais a serem lançados em muitos anos - e que prometia
revolucionar o rock de uma maneira que só encontra similar no
Ramones ou no Nevermind The Bollocks dos Sex Pistols, dos
longínquos ano de 1976/1977. Hoje já olhamos para trás sabendo da
iminência do desastre, com os olhos de quem já sabe do desfecho trágico do
destino de Kurt Cobain, e podemos enxergar nesse disco de rock,
aparentemente tão energético e afirmativo, alguns prenúncios do que viria
a acontecer em 1994. O In Utero, para muitos o melhor disco do
Nirvana (não me perguntem: eu não consigo escolher!), já deixa ainda mais
explícita a desagragação emocional de Kurt, a depressão, a agonia (por
exemplo no niilismo sônico extremo de “Tourettes” ou “Milk It”) – é como
se a gente ouvisse o cara deslizando pro abismo... Sempre achei
extremamente fascinante todo esse lance do suicídio de Kurt Cobain. Todos
os suicidas, na verdade, exercem em mim um certo fascínio, despertam a
minha curiosidade até o limite, até que eu fique louco pra descobrir mais
sobre suas vidas, tentando elucidar o mistério: o que foi que os levou a
uma atitude tão extrema, tão “foda-se tudo”? Claro: as fantasias suicidas
nunca me foram estranhas e já pensei em morrer pelo menos umas 500 vezes
nessa vida. E sempre achei mais fácil entender os que se matam do que
aqueles que dizem que a vida é um playground todo feito de felicidade,
compreensão e paz. Saber que um certo artista se matou sempre me pareceu
uma ótima razão para conhecer o seu trabalho, como se isso fosse uma
garantia de que a arte produzida por ela era realmente séria, verdadeira,
genuína. Acho que eu nunca teria lido Sylvia Plath, Ernest Hewingway ou
Virginia Woolf sem que soubesse do pequeno detalhe biográfico instigante:
eram suicidas. No caso de Kurt Cobain, ou no de Ian Curtis, saber
que eles se suicidaram sempre me pareceu uma prova incontestável de que a
angústia que eles sendimentaram em suas canções era genuína. Ora, Kurt
Cobain se matou! Então está provado: aquela raiva que ele soltava aos
berros em suas músicas, aquela angústia que saturava tudo o que ele
criava, aquele mal-estar profundo que ele parecia sentir no fundo da alma,
não eram fingimento... o cara era mesmo irado, era mesmo
angustiado, era mesmo super-povoado de demônios que precisava
exorcizar através de sua arte. Ele num tava de brincadeira. Mas o
suicídio de Kurt Cobain, dentre todos os suicídios que conheço e ouvi
falar, é o que mais me fascina. Porra, esse cara tinha tudo para amar a
vida que tinha conquistado! Ainda jovem, já tinha se tornado um dos
maiores rock-stars do planeta, cultuado por grande parte da juventude
universal, incensado pela crítica, podendo conhecer todos os seus ídolos
pessoalmente, de William Burroughs aos caras do Sonic Youth... Estava
casado com uma mulher que aparentemente amava, e que era fodida e anormal
o bastante para entender a fodição e anormalidade dele, e que entendia bem
toda a ética e todo o estilo de vida do punk rock... Tinha uma filhinha
recém-nascida, uma mansão, a conta bancária recheada de dólares... E mesmo
assim, estranhamente, Kurt Cobain, aos 27 anos de idade, mesma idade em
que morreram Hendrix, Janis e Jim Morrison, tinha escolhido a morte. Ele
parecia ter tudo, e tinha escolhido dizer aos milhões que o idolatavam que
a vida não vale a pena... Foi uma das poucas vezes em que
o niilismo venceu e proclamou sua “mensagem” para as multidões. Mais
Pesado Que o Céu, a excelente biografia de Charles R. Cross,
jornalista da Rolling Stone, é um dos livros mais tristes, asfixiantes e
trágicos que eu já li. Tem hora que parece com um tenebroso romance ao
estilo de William Burroughs ou Hubert Selby Jr. (o autor de Réquiem
Para Um Sonho), retratando a fatal peregrinação de um junkie terminal
por um inferno na terra, entrando e saindo de clínicas de reabilitação,
lidando mal com sérios problemas de saúde (principalmente estomacais),
enredado uma depressão e numa falta de perspectivas completamente sem
solução... A gente pode inventar mil e uma histórias sobre esse
suicídio, desde as mais maçantes e complexas averiguações sobre, sei lá,
“os efeitos corruptores da Fama”, até as mais mirabolantes teorias
conspiratórias imputando a terceiros, por exemplo à Courtney Love, a culpa
pelo ocorrido (como fez o filme Kurt & Courtney). Mas
qualquer um que vá atrás da história de vida de Kurt Cobain sabe que seu
suicídio pode ter sido qualquer coisa menos uma surpresa: ele o
anunciou e o ameaçou aos brados por anos e anos, repetidas vezes,
disfarçadamente pedindo por ajuda, fazendo a velha chantagem emocional que
fazem todos os suicidas... Em inumeráveis entrevistas Kurt tocou
no tema do suicídio e fez o elogio empolgado da auto-destruição e da morte
na juventude. Kurt Cobain era o tipo de cara que poderia ter feito uma
tatuagem enorme na testa com os ditos LIVE FAST, DIE YOUNG, de tão
fanático que era por esse slogan. Esse é o cara que dizia, sarcástico, que
“queria morrer antes de se tornar Pete Townshend”, zoando o líder do The
Who por ter podido escrever em “My Generation” um verso como “I hope I die
before I get old” e depois ter ousado sobreviver até a velhice... Crime
imperdoável! Esse é o cara que dizia com toda a convicção do
mundo: “ nunca vou chegar aos trinta. Você sabe como é a vida depois
dos trinta – eu não quero isso.” Esse é o cara que pensou em
entitular o álbum sucessor de Nevermind como I Hate Myself
And I Want To Die, só muito depois renomeado In Utero.
Esse é o cara que tinha combinado com a esposa que, caso eles
perdessem a filha, iriam cometer um suicídio duplo. E, é claro, esse é o
garoto que por toda a sua vida tinha tomado porres homéricos e usado todas
as drogas possíveis e imagináveis, em quantias sempre exageradas, tentando
esquecer do seu sofrimento na embriaguez dos tóxicos... O comportamento
auto-destrutivo sempre foi um componente básico da personalidade de Kurt
Cobain e o seu suicídio foi quase uma conclusão “natural” da sua vida...
Mas o triste é saber que ele berrou de dor, em público, por anos e
anos, e que essa sinfonia de berros, gemidos e choros, gravado em discos
que milhões possuíram, visto em clipes que milhões assistiram, não foi o
bastante para salvar sua vida. É incrível: todo mundo sabia que Kurt
estava triste, perdido, confuso, infeliz, magoado e com vontade de morrer.
E, cacete, não havia ninguém ao redor do cara que pudesse salvá-lo?! Onde
estavam as pessoas que o amavam, que se importavam com ele, que o queriam
livre do seu sofrimento e do seu vício? É uma das coisas mais tristes
pensar que ninguém pôde impedir que Kurt concretizasse um suicídio
anunciado dúzias de vezes - talvez porque fingiram que a coisa não estava
tão preta, talvez por não terem se importado, talvez pois nunca realmente
o conheceram... Ou talvez por que simplesmente não sabiam o que fazer?
Depois de uma insistência maníaca e várias e várias tentativas
frustradas, Kurt, naquele trágico 5 de abril de 1994, finalmente fez tudo
certo para conseguir morrer. Tomou uma quantidade de heroína estupidamente
alta, capaz de matá-lo de overdose, fácil fácil, e só teve alguns segundos
para disparar um tiro contra a cabeça antes que a droga o fizesse
capotar... Mesmo que não tivesse atirado, garantem os especialistas, teria
morrido do mesmo jeito. Naquele dia, cauteloso e metódico como um
assassino que não deseja falhar de modo algum em sua missão sangrenta,
Kurt Cobain armou para si duas armadilhas fatais. Não, não há dúvida de
que ele estava afim de ir embora e pedir demissão do mundo: naquele dia
Kurt Cobain se matou duas
vezes...
*
* * * * * *
[4] - ABAIXA ESSE VOLUME, MOLEQUE!
 Difícil saber como terminar isso. Eu tinha guardado a frase
bombástica pra fechar o texto - Enquanto existirem adolescentes
vivendo em casas onde os pais ouvem Bee Gees, assistem à novela das oito e
vão a missa todos os Domingos, haverá adolescentes que vão achar no
Nirvana a trilha sonora ideal para dizer a eles e ao mundo um sonoro “vá
tomar no cu!” Mas aí percebi o quanto ela merecia ser desenvolvida e
explicada...
Os pais desse mundo, quase todos eles, são tão
sem-noção, tão desconectados com as verdades dos corações de seus filhos,
que quase sempre entendem a música que os adolescentes ouvem em termos de
“abaixe o volume dessa porcaria!” ou “assim você vai prejudicar a
audição!”. Não, amiguinhos, eles nunca vão entender a nossa relação
maníaca de fanatismo e devoção com a música, nunca vão entender como pode
um disco de rock, que parece ser só um amontoado de barulho e gritaria,
mudar nossas vidas; nunca vão sentir os calafrios de excitação que
sentimos na pele no refrão de “Smells Like Teen Spirit”, e tantas
outras... Não, eles nunca vão entender... E nunca chegam a realmente
prestar atenção na barulheira que escapa dos alto-falantes dos nossos
quartos trancados, nem chegam nunca a suspeitar que ela possa ser um
modo alternativo de expressão...
Isso eu acho pra lá de
interessante: o fato de que nós ouvimos música não só para nós mesmos, e
não só para “conhecer” a expressão dos outros e o que eles “têm a dizer”,
mas que utilizamos a música alheia para expressar sentimentos
próprios... Vocês alguma vez já se pegaram ouvindo música para os
outros? Ligando o aparelho de som num volume estupidamente alto, não
porque vocês achem isso super agradável e divertido, ou porque querem
judiar dos tímpanos feito masoquistas, mas para que as outras pessoas
ouçam vocês ouvindo? Nevermind pra mim sempre foi um dos
discos que eu mais quis botar rolar pros outros me ouvirem ouvindo... Isso
diz muito sobre mim, e sobre todos nós, fãs do Nirvana.
As pessoas
que nunca amaram o rock and roll, que nunca tiveram suas vidas e
adolescências marcadas por ele, nunca vão entender que nossa relação com a
música vai imensamente além da procura por algo que seja “agradável aos
ouvidos”. Chega a ser ridículo, e eu fico até com raiva, essa gente que só
sabe abordar a música em termos de ser “agradável” ou não, como se fosse
uma mera questão de mecânica, de cócegas nos órgãos auditivos, algo de
meramente corporal, quando para nós, nós que vivemos o rock and roll não
como música mas como alimento para a vida e como estilo de vida,
sabemos que a música não tem a ver somente com os ouvidos, mas com o nosso
ser inteiro, nossa alma inteira...
Se me permitem uma
psicologização tosca, eu chego a dizer: o nosso gosto musical está
diretamente vinculado com as estratégias que usamos pra definir nossa
identidade, pra descobrir e publicar quem somos, pra expressar o que se
sentimos... É como se escolhéssemos pelo mundo algumas bandas e artistas
que, “grudados” a nós, acoplados ao nosso eu, oferecem ao mundo uma imagem
de nós mesmos que nos parece mais agradável e mais admirável. A música
pode ser uma maneira de expressar para o mundo sentimentos com os quais
nos identificamos, que sentimos em nós mesmos, e que já foram expressados
por outras pessoas de modo muito melhor do que nós mesmos poderíamos
expressar. Temos nossos CDs e nossos aparelhos de som e nossos artistas
prediletos, e eles servem não só para que a gente possa “curtir um som”,
mas para que eles expressem por nós, como que por procuração, aquilo
que sentimos e pensamos e que, por uma razão ou outra, não podemos
expressar tão bem quanto eles.
Imaginem um adolescente,
incapaz de articular direito sua raiva e sua insatisfação, incapaz de dar
seu grito de rebeldia, encontrando em Nevermind o maior dos aliados: basta
que ele coloque aquele disco no aparelho de som, bombe o volume até o
máximo e dê um PLAY, e lá está dado o grito e mandada a mensagem, pra
papai e mamãe, pra toda a vizinhança, “para o mundo”... Quando não temos
voz, sempre podemos recorrer ao aparelho de som, devidamente munido da
possibilidade de atravessar os ares atingindo os ouvidos alheios com uma
“mensagem” de nossa escolha... Pena que, na maioria das vezes, ela não
seja entendida. “Abaixa esse volume, menino!”, é a única resposta que nos
chega de volta dos nossos pais, tão interessados na tranquilidade do lar e
na reputação que vão ganhar com os vizinhos que se desinteressam
completamente daquilo que os filhos possam estar sentindo e expressando –
e o que é que podemos estar tentando dizer através da música que
escolhemos adorar...
Por isso que eu sempre vou achar que 15
milhões de cópias vendidas de Nevermind é muito mais que um
fenômeno econômico ou uma modinha criada pela indústria de discos com
interesses lucrativos. Chego a ver nisso muito mais um sintoma do
estado psíquico de uma multidão de jovens ao redor do mundo, por mais
pretensioso que seja fazer um “diagnóstico” desse tipo... Mas sim:
Nevermind fez tanto sucesso pois reconhecíamos nele nossa alma; e
nós só elevamos o Nirvana ao status de banda mais adorada de nossa geração
porque a gente sentia no coração muito daquilo que Cobain conseguiu
expressar: aquela raiva, aquela angústia, aquele impulso auto-destrutivo,
aquele ódio por tudo que é alegrinho demais, aquele desejo de rasgar o
kitsch em mil pedaços, aquele desejo de berrar, aquela vontade de
morrer...
Guitarras distorcidas até às beiras da explosão dos
amplificadores; gritos estridentes e rasgados de pura angústia; uma vida
de excessos, abscessos e morte prematura: é nisso que milhões de jovens
resolveram se espelhar. Foi esse homem – extremamente confuso, perdido,
deprimido, cheio de sofrimento e aflição – que escolheram idolatrar. Eram
esses sentimentos por ele expressados – a raiva, a frustração, a tristeza,
o niilismo, o desespero, a angústia... – que sentiam milhões no mais
secreto de seus corações...
Não, Kurt Cobain não é nada parecido
como um modelo a ser seguido, uma divindade a ser cultuada, nem mesmo um
artista que mereça qualquer adjetivo semelhante a “gênio”... Se ele foi
tão grande, e capturou tantos seguidores, e empolgou tantos milhões de
corações, foi mais por ter conseguido expressar toda a frustração, raiva e
angústia de uma imensidão de jovens para quem a vida parecia não fazer
muito sentido e que parecia nem valer muito a pena. Kurt Cobain pode ter
recusado com veemência toda a baboseira messiânica (“não suporto ser
chamado de porta-voz da minha geração, pois não tenho nada a expressar
senão meu profundo mal-estar...”, disse ele uma vez), mas ele foi sim
a pessoa em quem milhões se espelharam, o rock-star que milhões
idolatraram, o criador desses discos sublimes que serviram para que
milhões dessem também seu grito, apertando um play; foi sim, pois, quer
queira quer não, o nosso porta-voz, aquele a quem emprestamos o microfone
para que falasse por nós; nosso herói, nosso mártir e nosso irmão...
eduardo carli de
moraes setembro/2006 |