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G
R A N D A D D Y Só pintando um
quadro apocalíptico do futuro da humanidade dá pra entender qual é o
grande charme do Grandaddy. Então vamos brincar de pessimismo e imaginar
um climão de distopia:
A humanidade vai
penetrando cada vez mais - e sem volta... - em ambientes industrializados
e artificiais, onde a natureza que nos circunda foi completamente
transformada e não há mais quase nada que denuncie como tudo era em seu
estado original. Tudo tende a piorar. Vamos ir cada vez mais nos afundando
na areia movediça de nossas criações, nossas máquinas, nossos
computadores, nossos robôs, perdendo gradativamente, mais e mais, o
contato com nossa Fonte Primordial, a antes tão adorada Mãe Natureza, hoje
abandonada... O ar que respiramos está tão contaminado pelo monóxido de carbono dos escapamentos e das fábricas, e a chuva que cai é tão ácida, que é como se vivêssemos num ambiente de guerra. As câmeras escondidas observam tudo com seus intrusos olhos de vidro, pequenos big brothers espalhados por aí, tornam a sensação de estar sendo vigiado cosntante: perdemos toda a espontaneidade e o mundo se tornou um palco onde não deixamos de ser atores por um segundo sequer.
Deixamos o piloto
automático dirigir nossos aviões e se tornarem senhores de nossa vida e
morte - e quase esquecemos que a máquina, que é simples e burra, é o
piloto. Os barulhos vomitados pelas desktops, as turbinas de aviões e os
escapamentos de carros são a verdadeira trilha-sonora de nossas
vidas. Quando as pessoas se encontrarem concretamente, cada uma delas estará trancada no seu próprio mundinho, com os ouvidos ocupados pelo iPod e os olhos pelo laptop; se quisermos olhar nossos amigos cara a cara, não iremos direto até eles, mas entraremos numa cyber-conferência com webcams; nosso número de RG logo será obsoleto: muito mais importante será nosso e-mail, nossos códigos de MSN e Orkut, nossa “identidade virtual”; os contatos humanos concretos - duas pessoas no mesmo ambiente, frente à frente, podendo se tocar e se olhar no olho - irão diminuir cada vez mais, até que praticamente todas as nossas relações sejam esfriadas cruelmente pela mediação da máquina morta e calculista que nos ligará uns aos outros.
Cada um se
fechará num individualismo e num isolamento nunca antes experimentado na
civilização ocidental e só falaremos uns com os outros através da parede
de fios, redes e conexões que as máquinas nos possibilitam. Os robôs,
criados para nos libertarem, terão nos escravizado: teremos nos tornado
muito mais parecidos com eles; teremos nos contaminado, nos tornado
artificiais, mecânicos, maquinais. Logo colocaremos "ar condicionado nas
florestas", iremos para praias artificiais, com ondas fabricadas
mecanicamente, nos bronzeando em cápsulas fechadas, bombardeados por todos
os lados por raios catódicos e toneladas de informação inútil, até que,
finalmente, estejamos todos totalmente neuróticos e infelizes e
desesperadamente procurando algum canto da Terra onde ainda exista
Natureza bruta. Provavelmente milhões irão embarcar para outros planetas,
mesmo que inóspitos, cansados do inferninho em que este aqui se
tornou...
Sei: o quadro é
apocalíptico, exagerado e não muito plausível, mas é preciso ter em mente
esse retrato sombrio para entender e curtir a mensagem do Grandaddy, uma
das mais originais e interessantes das bandas americanas dos últimos anos.
Porque o sentimento prevalecente na música do Grandaddy parece ser a
nostalgia por um mundo rural e bucólico que vai lentamente
escorrendo para o irrecuperável passado com o avanço da Era Digital: o
tipo de “virgindade natural” que parece escoar pelo ralo da modernidade em
velocidade cada vez mais rápida. Pense bem: quantos quilômetros você
precisa percorrer, hoje em dia, para descobrir um mísero pedaço de terra
onde não se veja nenhum sinal de contaminação humana? "Everything
beautiful is far away...", dizia o título de uma velha canção dos caras, e
isso diz muito sobre essa melancolia grandaddyana que está dispersa em
quase todas as músicas da banda.
O som do
Grandaddy, um tanto paradoxal e ambíguo, coloca lado a lado o moderno (um
“space-rock” seguindo os rastros de OK Computer do Radiohead,
The Soft Bulletin dos Flaming Lips, Deserter’s Songs do
Mercury Rev...) e o arcaico (um folkzinho semi-caipira de melodias
grudentas, que lembra Neil Young). É arte feita de dentro da Era Digital,
por gente afogada num contexto tecnológico e cultural totalmente século
21, mas que parece gostar mais da idéia de serenatas à luz lunar e
rodinhas de violão ao redor da fogueira do que de multidões sentadas
frente a seus computadores. O sonho do Grandaddy: criar um refúgio retrô
no centro da modernidade. É um protesto neo-hippie nascendo no seio da
pós-modernidade.
Mas hoje já não
dá mais pra dizer que o Grandaddy era só uma banda seguindo a trilha de
Thom Yorke e companhia: os dois grupos parecem ter se movido em direções
absolutamente opostas. Enquanto o Radiohead declarava a morte da melodia,
a obsolescência da guitarra elétrica e se punha a enfiar eletrônica
experimental no caldo de Kid A e seguidores, o Grandaddy, pelo
contrário, pareceu erguer a deusa Melodia para o mais alto trono e
caprichou ainda mais nos refrões cantaroláveis e na vocalização humanizada
e quente. Sumday, perto de Kid A e Amnesiac, é
um disco quase de power pop – e o ambiente do Grandaddy, muito mais
respirável e doce do que aquele do Radiohead. E o adorável vocal de Jason
Lytle é muito menos agoniado e dolorido: é como se Thom Yorke, ao invés de
ter se jogado no futuro e decidido passar sua voz através de efeitos
modernosos de produção, como fez em Kid A, tivesse querido
ressuscitar a simples nudez do cantor folk à la Neil Young da era
pré-computador...
É como se
emanasse dos discos um ideal hoje visto com um certo desprezo por quase
todos os moradores de megalópoles industriais: o ideal do retorno a uma
vida mais simples, dedicada à contemplação da Natureza e aos contatos
humanos mais diretos e imediatos. Os caras do Grandaddy parecem ter
saudade daqueles belos clichês dos ideais bucólicos que muitos hoje julgam
antiquados e obsoletos: algo como gaivotas brancas voando ao redor da
casinha campestre, ziguezaguenado pelas árvores do pomar, enquanto as
crianças fazem castelinhos de barro no quintal e dão seus mergulhos
eventuais no lago, ao
pôr-do-Sol.
Uma das maiores
originalidades da banda é o fato de o Grandaddy compor muitas músicas
utilizando uma máquina como eu-lírico. A banda imagina um mundo, que hoje
não é tão remoto e inimaginável, onde nossos robôs e eletrodomésticos
seriam seres dotados de inteligência artificial e de sentimentos humanos,
e isso abre uma possibilidade nova para a poesia, que tentará mostrar o
mundo como visto através da perspectiva de um robô confeccionado pela
humanidade e que se transforma num OUTRO (um amigo, um animal de
estimação, um co-piloto, um substituto, um carrasco...). Como já haviam
feito com Jed, o Humanóide, um dos personagens que povoa "The Sophtware
Slump", a banda utiliza em “Sumday” outra máquina inteligente e
sentimental como eu-lírico em “I’m On Standy”.
Contra a parede
desumanizadora das máquinas, descritas meio paranoicamente como um
exército alinhado em formação de guerra contra a humanidade, o Grandaddy
vai sugerindo outro tipo de ideal de vida. Muitos versos da banda
explicitam uma admiração da Natureza sem o Homem - pura, imaculada,
não-transformada. O bonito é "o vento soprando através das folhas" ("The
Go In The Go For It") e a vida ao ar livre: "pinto com as palavras um
desejo simples / por paz mental e felicidade" ("El Caminos In The West").
O que eles parecem desejar não é o progresso material, não é a construção
de arranha-céus e shopping centers, não é o empilhamento de
eletrodomésticos na casa dos cada vez mais pálidos e lânguidos humanos – a
música do Grandaddy nos dá o sentimento de que não precisamos de nada
disso, só de um pouco mais de simplicidade, de paz de espírito e de
desencanação quanto à tecnologia.
“Estoure a fechadura da sua porta de entrada. Assim que você estiver lá fora você, não irá querer mais se esconder. Acenda a luz na sacada da frente. Uma vez acesa você nunca mais irá querer desligá-la!”, cantam eles na primeira faixa de Sumday, “Now It’s On”. Já em "The Group Who Couldn't Say", nos contam uma fábula sobre um grupo de comerciantes tão workaholics, tão acostumados a trabalharem trancados em seus escritórios apertando botões no computador, que já tinham esquecido que havia um mundo lá fora. Quando ganham um prêmio de seus chefes e vão dar uma passeio no campo, "descobrindo a perfeição d'um OUTDOOR DAY", ficam tão perplexos e embasbacados com o esplendor do espetáculo que não conseguem articular palavras.
Por isso essa
banda é tão importante: porque eles chegam meio que questionando toda
aquela utopia, surgida com o Iluminismo e elevada à última potência no fim
do século 20 e começo do 21, de acreditar que o desenvolvimento
técnico-científico traria um bem imenso para a humanidade e nos faria a
vida muito mais confortável, segura e feliz. Falácia completa. Pois,
pergunta o Grandaddy: quem disse que progresso rima NECESSARIAMENTE com
felicidade? Quem disse que a o desenvolvimento tecnológico nos levará
NECESSARIAMENTE ao paraíso? Para o Grandaddy, o "lago de cristal", um
símbolo forte da natureza como algo místico e belo, “nunca deveria ter
sido deixado pra trás” e nunca deveríamos ter ido “para áreas onde as
árvores são de mentira”, como cantam eles na deliciosa “Crystal Lake” de
Sophtware Slump. Sumday e The Sophtware Slump são adoráveis reservas florestais sônicas no seio do mundo hi-tech, onde a tecnologia é usada como aliada mas nunca superestimada, onde os velhos ideais bucólicos não são nunca esquecidos, e onde podem sobreviver sem medo e sem culpa, num mundo musical cada vez mais dominado por batidas eletrônicas repetitivas e ritmos mecânicos, todas as doces melodias e todos os lá-lá-lás... LEIA MAIS: DYING DAYS 1 e 2 * * * BACANA * * * GORDURAMA * * * AMG ALL MUSIC
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