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da série: OS DISCOS DA MINHA VIDA

JEFF BUCKLEY
"Grace" (1994)
There's no time
for the hatred, only questions: What is love? Where is happiness? What is
life? Where is peace? Where will i find the strength to bring me release?
Tell me where is the love in what your prophet has said! Man, it sounds to
me just like a prison for the walking dead! Oh, i've got a message for you
and your twisted hell! You better turn around & blow your kiss goodbye
to life eternal, angel... JEFF BUCKLEY
”Love is not a victory march, It’s a cold and it’s
a broken hallellujah…” LEONARD COHEN
Foi uma das
mortes mais misteriosas que o rock já conheceu. Conta a lenda que, na
noite de 29 de Maio de 1997, Jeff Buckley, 30 anos de idade, bebeu um
pouco de vinho, entrou no rio Mississipi completamente vestido, cantando
alto um clássico do Led Zeppelin, e depois de alguns minutos nadando de
costas desapareceu debaixo d'água - deixando pasmo o amigo que tinha
ficado ali, à margem, só observando a extravagância do companheiro... Dias
e dias depois, o cadáver foi descoberto boiando nas águas do lendário
curso d'água, aquele mesmo que testemunhou o nascimento do blues e que,
nesse dia, servia de leito funerário para um pequeno gênio da música
americana... E até hoje eu me pergunto, sem achar resposta, ficamos a nos
perguntar: o que diabos aconteceu?
As investigações da polícia
concluíram por "afogamento incidental", já que nenhum sinal de intoxicação
química foi encontrado no corpo de Jeff e a hipótese de suicídio parecia
impróvavel - pois há jeitos mais simples de se matar do que se afogar
desse jeito, e ainda mais sem amarrar uma rocha aos pés, certo? O fato é
que, naquela noite, o mundo perdia um dos mais talentosos cantores que
tinham surgido nos anos 90: Jeff Buckley, filho do mito do folk Tim
Buckley, deixava atrás de si um pequeno legado - mas um que não pararia de
emocionar, conquistar corações e influenciar dúzias de músicos e bandas.
As dez músicas de Grace (além das quatro do Sin-é EP)
são o único documento musical que Jeff Buckley lançou em vida. Depois, é
claro, como é costume, uma avalanche de lançamentos póstumos chegariam às
lojas, incluindo o inacabado segundo disco Sketches For My Sweetheart
The Drunk, alguns álbuns ao vivo (com destaque para o ótimo
Mystery White Boy), coletâneas de Eps (Grace EPS) e
relançamentos de projetos antigos (Songs For No One, com Gary
Lucas).
A morte trágica de Jeff, que parecia ecoar o fim de seu
pai, morto após uma overdose de heroína em 1975, aos 28 anos, foi o que
bastou para selar seu destino como um mito de primeira grandeza - e hoje
não há dúvida de que ele é um dos maiores ídolos cult dos anos 90 e
Grace um dos discos mais peculiares, tocantes e lindos da década.
O sucesso comercial nunca veio de verdade (ele era bom demais para o
mainstream...), mas Jeff Buckley conquistou uma série de fãs famosos que
ajudaram a fazer seu elogio e propagandeá-lo: de Patti Smith (que
convidou-o para um dueto em "Beneath The Southern Cross") a Jimmy Page
(que o considerava um dos melhores vocalistas surgidos nos últimos 20
anos), de Brad Pitt (que considera a música de Buckley "uma obsessão" e
que esteve cotado para encarná-lo na telona) a Chris Cornell (que gravou
"Wave Goodbye", linda música de seu único disco solo, em homenagem e
tributo à Jeff), de Elizabeth Frazer (a vocalista do Cocteau Twins) a Bono
Vox... entre muitos outros.
A história, em resumo, é a seguinte:
Jeff Buckley deixou sua Los Angeles natal para tentar a sorte em Nova York
no começo dos anos 90 e deu um jeito para se inserir na cena folk e boêmia
do Greenwich Village - onde tocou por alguns anos em vários barzinhos,
cafés e boates, lentamente construindo uma procissão de fiéis seguidores,
até ser descoberto por uma grande gravadora e lançar, em 1994, este
Grace. Steve Berkovitz, um dos chefões da Sony Music, revelou em
entrevista à BBC (para o documentário Everybody Here Wants You) o
tamanho da empolgação que Buckley causou. Era crença geral na gravadora de
que ele se inscreveria na história do rock junto a nomes míticos de
primeira grandeza: "Acho que a Columbia e a Sony meio que pensaram que a
coisa seria: Dylan -> Springsteen -> Buckley". Não somente ele era o
filho de um grande mito musical do passado, como também tinha um talento
próprio inegável - não é à toa que tinha assinado um contrato de um milhão
de dólares (!!) com a Columbia...
E Grace, apesar de não
ter virado um sucesso de vendas espantoso (“Last Goodbye” foi a única
música a se tornar um semi-hit), foi amplamente elogiado pela crítica e
parecia ser apenas a primeira pedra na construção de um edifício que teria
tudo para ser monumental. Todo mundo pensava que Jeff Buckley iria lançar
uns 30 discos, gravar até fazer 70 anos de idade e consagrar-se como um
dos gigantesco deus do rock - sim, na altura de um Dylan, de um
Springsteen, de um Van Morrison... Mas a morte, ah!... a morte!...
* * * * *
Convivo com Grace há pelo menos uns 5
anos, o que já basta para dizer que somos amigos de longa data, íntimos,
inseparáveis, que não brigam jamais - e é incrível que eu não tenha
enjoado nem um pouco de um disco que já escutei na íntegra dezenas e
dezenas de vezes. Há alguma coisa aqui que impede que essas músicas
envelheçam, algo que não deixa a familiaridade se tornar enjôo, algo aqui
permanece sempre novo, sempre fresco, sempre tocante... Eu não acho
difícil me imaginar com 60 anos de idade e ainda gostando de
Grace tanto quanto sempre gostei. Mais fácil do que ser um
velhinho que curte Nirvana, isso é... :)
Jeff Buckley é certamente
um dos meus cantores prediletos de todos os tempos: Aquela voz doce e
suave, que não deixa de ser poderosa e sexy... aqueles falsetes viajantes
(e olha que eu não sou lá mto fã de falsetes...), controlados com uma
técnica espantosa... aquela coragem para passar do sussurro que beira o
silêncio ao grito mais primal... aquela ousadia para ir até o limite
extremo da voz, quando parece que as cordas vocais já estão prestes a se
rasgar... É de deixar boquiaberto.
Sempre me deixou pasmo, por
exemplo, a maneira como ele conseguia prolongar a voz - dar um "sustain" -
por um tempo incrivelmente longo, como no final de "Grace", quando ele
tira do fundo da alma um inacreditável grito - que sempre me dá uns
calafrios lá no fundo da alma, lá dentro dos ossos. E, como nota muito bem
o Gary Marshall, Jeff Buckley nunca se deixou dominar pelo exibicionismo
ególatra que contamina muitos vocalistas de talento ("he never let his
ego get in the way of the songs and Grace is mercifully free of the vocal
histrionics that plague most naturally talented singers", diz Gary).
E o melhor: ele parecia ter uma conexão íntima e profunda com as letras e
nunca cantava palavras que não tivessem uma ressonância sentimental.
"I need to inhabit every bit of a lyric", disse ele em outra
entrevista, "or else I can't bring the song to you - or else it's just
words..."
Sim, Grace está longe de ser um disco
"homogêneo". O mesmo garoto que cantava aos sussurros a melancólia balada
"Hallellujah" entrava num transe cobainiano e berrava como um endemoniado
sobre um fundo quase speed-metal em "Eternal Life"... o mesmo cara que
cantava com voz afeminada e operística "Corpus Christi Carol" soltava a
voz como um bom rock star no refrão explosivo de "Mojo Pin"... O que levou
alguns a acharem Buckley um cara incoerente e que não soube dar unidade ou
continuidade ao álbum. Não concordo. Pra mim a coisa faz todo o sentido e
a variedade de estilos em Grace só comprova a variedade dos
gostos e habilidades de Buckley, um artista realmente plural e um
vocalista ultra-eclético e de voz realmente abençoada. O lance é que
ninguém aprende a cantar desse jeito: essa voz é um dom. É
graça.
Tim Buckley, o paizão, também era um cara bastante
eclético e que usava sua voz com uma radicalidade extrema – mas acho
bobagem reduzir a música do Jeff a uma mera continuação da obra do seu
velho (que Jeff, aliás, mal conheceu, que o influenciou muito pouco e que
morreu quando ele era ainda criança). Apesar da semelhança de voz inegável
(a genética explica...), Jeff Buckley foi pescar suas influências em
outros lugares: no Led Zeppelin e nos Smiths, em Van Morrison e Janis
Joplin, no Big Star e no MC5, na diva francesa Edith Piaf e no paquistanês
Nusrat Fateh Ali Khan... Page & Plant, como ele sempre confessou,
tiveram para ele uma influência muito mais marcante do que a música e a
voz do pai. "A primeira voz pela qual me apaixonei", disse em uma
entrevista, "foi aquela do jovem Robert Plant" - e ele
completava, engraçadinho: "na época em que ele soava como a
Janis." (É um momento hilário: "He was trying to sound like
Howlin' Wolf, but he didn't. He sounded like some fucking animal.")
O disco inteiro é excelente e eu nunca tive vontade de pular
música nenhuma, mas é claro que tenho minhas prediletas. “Grace”, a
música, é um fenomenal exercício de exorcismo da morte e tem um dos
clímaxes mais arrepiantes que eu conheço; “Lover, You Should Have Come
Over” me lembra as melhores coisas do The Queen Is Dead dos
Smiths e é, fácil fácil, uma das minhas 10 músicas prediletas em todos os
tempos; o grunge “Eternal Life”, que entra rasgando a tranquilidade do
disco com guitarras distorcidas e gritos irados, é um das músicas de rock
pesado que eu mais admiro e que mais me emocionam entre todas que já ouvi
– e tem outro daqueles clímaxes inacreditáveis...
As 3 covers
também foram muito bem escolhidas e, melhor que isso, são muito mais do
que meras "cópias" das originais: Jeff transformou cada uma delas em uma
coisa absolutamente sua. A lindíssima versão para "Hallellujah", de
Leonard Cohen (já gravada também por John Cale), é um daqueles casos de
cover que ultrapassa a original de tal maneira que fica em seu lugar como
a versão definitiva e incomparável - mais ou menos do jeito que foi com a
versão de Hendrix para "All Along The Watchtower", de Bob Dylan. Alguma
pessoa em sã consciência acha que a original se compare com a
transformação genial que Jimi impôs à música? E alguém consegue preferir a
tediosa versão de Cohen à releitura de Buckley? O standard jazz "Lilac
Wine" (famoso na voz de Nina Simone) e o exercício vocal quase operístico
de "Corpus Christi Carol" (de Benjamin Britten) também ficaram excelentes.
* * * *
Grace é um disco atormentado, sim, cheio
de angústia e melancolia, onde a voz é quase sempre o veículo para um
lamento todo dolorido - e é claro que eu não gostaria tanto assim dele sem
toda essa tristeza, essa solidão, essas sombras, essas músicas todas
mergulhadas na penumbra... Tenho uma queda irresistível por arte
melancólica. E Jeff Buckley escreveu algumas das músicas de amor mais
emocionantes que eu já ouvi - principalmente porque são algumas das poucas
que eu consigo reconhecer como verdadeiras e genuínas, que expressam
sentimentos que eu já senti e reconheci, que fogem dos clichês batidos e
rebatidos na história do pop e que não ficam contando a lorota de que o
amor é todo bonitinho, o reino dos arco-íris e das borboletas, aquela
porcaria kitsch que contamina 90% das músicas de amor escritas na história
da humanidade. A coisa em Grace é diferente, como já mostra o verso de
"Hallellujah" que coloquei na epígrafe: "Love is not a victory
march..."
Em "Last Goodbye", é a morte do amor
("I hate to feel the love between us has died - but it's
over...") e a distância e a dificuldade de vencer as barreiras entre
os amantes ("Why can't we overcome this wall? Well, maybe it's just
because i didn't know you at all...") o que ele narra; em "Lover...",
é a ânsia por um amor impossível de satisfazer ("I'm broken down and
hungry for your love, with no way to feed it... Oh, child, where are you
tonight? You know how much I need it...") e a falta de experiência e de
sabedoria ("Maybe I'm just too young to keep good love from going
wrong..."); em "So Real", é simplesmente o medo de amar, confessado com
uma simplicidade tocante ("I love you, but i'm afraid to love you... I'm
afraid to love you...")... Conheço poucos versos que pareçam mais
sinceros, mais humildes e mais verdadeiros.
Não tem jeito: a gente
só gosta mesmo daqueles que são parecidos com a gente - e eu, de certo
modo, sempre me senti meio irmão de Jeff Buckley, como se a gente
compartilha alguns os mesmos sentimentos, mesmas dificuldades, mesmas
angústias, mesmas solidões. Lembro das inúmeras noites (e esse é um
essencialmente um disco noturno!) em que eu tocava esse disco, no escuro,
deitado na cama, perdido em pensamentos e em sonhos, e certos versos do
disco pareciam descrever exatamente o que tava acontecendo em mim. "My
body turns and yearns for a sleep that will never come...". Ou:
"It's never over, she's the tear that hangs inside my soul
forever..." Ou: "And as your fantasies are broken in two... Did
you really think this bloody road would pave the way for you?"
Ouvir o canto frequentemente lamentoso de Jeff não é algo que me
deprima; é algo que me eleva, que me purifica - porque o lirismo e a
beleza estão lá para redimir tudo. A morte é também um fantasma presente
em vários cantos do álbum, mas nunca a coisa descamba pra morbidez. A
mensagem de "Eternal Life" é que devemos aceitar nossa finitude, por mais
amargo que isso seja ("You better blow your kiss goodbye to life
eternal, angel..."), já que a morte, como canta ele em "Grace", não é
assim tão má: "Não tenho medo de ir", canta Jeff, "Ela me
lembra de toda a dor que vou deixar pra trás...". E é claro que ele
sabe que está condenado a ter seu nome esquecido, como todos nós ("I
feel them drown my name..."), mas que importa isso? Pode-se esquecer
do esquecimento a que estamos todos destinados - e o que melhor do que
isso senão o amor?
And I feel them drown my name So easy
to know and forget with this kiss...
* * * * *
Grace não foi somente um mero princípio
promissor de uma carreira que tinha tudo pra ser brilhante. Foi sim
um clássico instantâneo e reconhecido como tal antes mesmo do fim
trágico de Jeff (não é esse um daqueles casos "vamos falar bem do cara só
porque ele morreu"...). Essas 10 canções foram o suficiente para escrever
seu nome história da música nos anos 90 - e, se me permitem um pouco de
sentimentalismo, mesmo que não houvesse mais gravação alguma disponível
(felizmente há bastante material, como provam os vários lançamentos
póstumos), só Grace já bastaria para que eu levasse Jeff Buckley
e sua música primorosa pra sempre inscritos no coração... (UI.)
Sim, a vida de Jeff, breve como foi, e tão tragicamente
interrompida, não deixa com isso de ter sido completa e de ter rendido
lindos frutos. Sim. Mas como evitar a imaginação dos futuros que nunca
serão? Ah, tudo o que ele poderia ter sido... Nós todos, fãs de
Jeff Buckley (mas não só dele: de Kurt Cobain, de Elliott Smith, de Nick
Drake, de Schubert... e de tantos outros que morreram ainda na juventude,
e com tanto ainda a dizer), não conseguimos evitar essa sensação de termos
perdido demais com sua morte - apesar de termos ganhado tanto com sua
vida...
Ah, sim, tudo o que ele poderia ter sido, se ao menos não
tivesse submergido naquelas águas do Mississipi, tão novo, tão cedo... Mas
são coisas da vida - e muito da beleza trágica de Grace está em
saber que o cara que deu à luz esta pérola não passou mesmo de uma estrela
cadente, que passou pela Terra espalhando pelo céu um brilho efêmero mas
memorável, antes que a morte, como sempre faz, tinha rasgado bruscamente
um trabalho em andamento. É um destino trágico, sim, que nos sugere que
nossas vidas nunca vão passar rascunhos que nunca teremos tempo de passar
à limpo... mas que belos rascunhos saem, às vezes!...
E foi só
Jeff Buckley que se foi cedo demais? Não somos todos que nos vamos sempre
antes da hora? Tenho essa sensação de que, quando chegar a nossa vez de ir
embora, não importa quando for, será sempre cedo, sempre cedo demais.. e
ainda teríamos muito a fazer, muito a dizer, muitos erros a concertar,
muitas coisas a melhorar... Pelo menos, se isso serve de consolo, é bom
saber algo ficou dessa vida - e algo de magnífico. E é bom saber que
sempre teremos Grace e suas dez músicas nos fornecendo um
interminável alimento para a saudade...
e.c.m. julho de
2006
[DOWNLOAD DO DISCO:]
- Parte 1 (Mojo Pin, Grace, Last Goodbye, Lilac Wine, So Real.)
- Parte 2 (Hallellujah, Lover..., Corpus Christi, Eternal Life,
Dream Brother). |