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Extraordinary
Machine (versão Jon Brion) "Uma obra de
arte é boa quando nasceu por necessidade: é a natureza RILKE, Cartas a Um Jovem
Poeta. "I'm underwater most of the time, and music is
like FIONA APPLE, entrevista à revista
SPIN. Não tem jeito: pra que vocês possam entender porque dei a
medalha de ouro para "Extraordinary Machine", minha pepita predileta de
2005, num tem como eu fazer uma resenha "objetiva" demonstrando por A + B
que esse é de fato o disco de "maior qualidade" - nem tenho essa
pretensão. Uma resenha ego-tríptica se impõe (e cada vez acho mais que pra
falar de música direito você tem sempre que partir mais pro subjetivo):
vou ter que contar mais um pouco (já fiz isso antes...) sobre como essa
garota-gênia, miss Fiona Apple, arrumou um jeito de ir se enfiando mais e
mais no mais profundo do meu coraçãozinho
(UI!).
Digo mesmo que a minha relação com a Fiona é muito mais do que
musical: não é só somente um gosto que tenho pelas harmonias e melodias,
pela qualidade e pelo timbre da voz dela, pela virtuosidade do
desempenho... Tem algo mais: uma conexão mais próxima, uma identificação
mais forte, uma admiração que tem muito mais a ver com a pessoa que ela é
do que com a música que faz. Diria até que minha atração pela Fiona, mais
do que musical, é existencial. Sinto que ela é pra mim uma espécie
de SOUL SISTER. E claro que não consigo evitar, quando meu senso de
ridículo está desligado, que se levantem na minha fantasia uns sonhos de
amores impossíveis que é melhor nem descrever. Fiona Apple é pra mim algo
como o protótipo da Garota Ideal, aquela que, bem sei, não existe - mas
que minha mente insiste em fabricar... pra brincar de se
decepcionar.
Gosto mais dela Fiona Apple do que de qualquer outra cantora que eu
conheço. E não quero ficar erguendo meus gostos particulares ao status de
dogmas ou verdades objetivas, dizendo que ela é "melhor" do que a Patti
Smith, a PJ Harvey, a Billie Holliday, a Aretha Franklin, a Ella
Fitzgerald, ou qualquer outra deusa... Só relato as verdades do meu
coração. E lá a Fioninha reina suprema. Mais importante ainda: me
identifico com tudo que ela escreve - e acho muito essencial notar que,
para a Fiona Apple, o que está sendo dito parece ser muito mais revelante
do que a música em si. Quem ouvir a música dela sem prestar atenção nas
letras vai estar deixando escapar o
fundamental.
Foram longos seis anos de sumiço desde "When The Pawn...", o
segundo disco, e o trabalho de parto parece ter sido complicadíssimo. Ao
contrário do que alguns poderiam esperar, Fiona Apple, que em 1996/1997
era uma das maiores pop-stars no firmamento da música pop americana,
retornou sem grande espetáculo e barulho. Discreta e quietinha, lançou seu
"Extraordinary Machine" sem causar grande comoção pública, até porque não
há nada por aqui realmente com cara de hit. Estranho? Sim, por um lado:
seria de se esperar que uma artista que já tem cerca de 5 milhões de
discos vendidos no currículo fosse atacar de novo o topo das paradas, e
que o disco novo fosse restituir à Fiona o papel de porta-voz de toda uma
geração de adolescentes inteligentes, desajustadas e melancólicas. Não foi
exatamente o que ocorreu.
Por outro lado, isso não chega a surpreender quem conhece a
trajetória dela e a relação sempre problemática que ela tem com a fama. No
passado, ao mesmo tempo em que era estampada na capa de quase todas as
revistas de música e entretenimento dos EUA e da Inglaterra, parecia
insistir num discurso que dizia que o conteúdo é mais importante do que a
embalagem e as letras mais importantes do que o jogo de imagens. Desfilava
nos tapetes vermelhos do show-bussiness ao lado de namorados famosos (o
mágico David Blaine e o cineasta Paul Thomas Anderson), ao mesmo tempo que
se mostrava bastante ofensiva, raivosa e desajeitada em relação ao mundo
das celebridades e do sucesso
popular.
Se desfazia em lágrimas em uma série de entrevistas, demonstrando
uma certa fobia de estar ali, à mostra, sendo continuamente julgada,
criticada e notada; ao invés de se fingir de perfeitinha, como fazem
tantas pop-stars, demonstrava sem nenhum pudor suas neuroses, seus traumas
e suas histerias, inclusive contando abertamente o caso de seu estupro aos
12 anos de idade e histórias sobre suas sessões de psicoterapia. Em 1997,
quando foi receber o seu MTV Music Award, fez um discurso que alguns
interpretaram até mesmo como totalmente niilista ("This world is
bullshit!", cuspiu com raiva para milhões de telespectadores), quando era
óbvio que ela estava reclamando não contra a vida em geral, mas contra o
Mundo MTV das celebridades de plástico. Em entrevista à SPIN, chegou mesmo
a prometer seu suicídio, dizendo que tinha certeza que iria morrer jovem
(veja aí embaixo). Não, Fiona Apple não era só mais uma garota como
qualquer outra: desde o começo, ficou claro para todos que ela era alguém
ESPECIAL.
"Tidal", o disco que ela lançou em 1996 e que a tornou mundialmente
famosa aos 19 aninhos de idade, me parece um disco que indica bem a
ambivalência de Fiona em relação ao sucesso: por mais excelente que seja,
é um álbum um tanto heterogêneo e indeciso quanto aos rumos a tomar. O
pop-rock radiofônico de "Sleep To Dream" e "Criminal" parece algo feito
pra fazer sucesso e tocar no rádio comercial, enquanto que as lentas e
doloridas baladas jazz como "Never is a Promise", "Sullen Girl" e "Pale
September", por exemplo, são coisas totalmente inadequadas à rádio FM e
que apelam muito mais para fãs de Billie Holliday do que para uma
audiência MTV.
Não que eu não goste do álbum - muito pelo contrário. Ouvi "Tidal"
com uma obssessão maníaca, até decorar quase todas as músicas e letras, e
até hoje acho difícil de acreditar que um disco desses possa ter saído da
alma de uma garota tão jovem. Tudo bem, esse já se tornou um clichê sobre
Fiona Apple: 90% dos textos escritos sobre ela se mostram pasmos com a
qualidade da música e da poesia dessa garota prodígio que, aos 19 anos,
lançou um disco que tinha uma profundidade lírica, um carregamento de
sentimento, uma performance tão madura e tão complexa, que parecia
realmente inacreditável que aquela garotinha magricela pudesse ter sido a
criadora daquilo. "Tidal", falando sério, está entre os meus discos
prediletos dos anos 90. "When The Pawn...", disco de menor impacto, mas de
qualidade igualmente alta, também me ganhou inteiramente. E as palavras de
Fiona... eu gostaria de pichá-las na parede do meu
quarto: "You say you'll never let me
fall from hopes so
high But 'never' is a
promise and you can't afford to lie"
Ou "I lie in an early bed thinking late
thoughts Waiting for the black to replace my
blue I do not struggle in your
web Cause it was my aim to get
caught" Ou "Honey, I don't feel so good, don't feel
justified Come on put a little love here in my
void" Ou ...... UMA LONGA
GESTAÇÃO
Já se tinham passado uns 5 anos depois do lançamento de "When The
Pawn..." quando me vi um tanto preocupado com a desaparição de Fiona: terá
ela desistido da música? Entrou numa crise de inspiração incontornável?
Vai parar de lançar discos? Se desiludiu com o sucesso e resolveu voltar à
vida pacata? Fui buscar, como muitos outros, algumas informações sobre um
provável terceiro disco que eu aguardava salivando. A internet,
principalmente a partir de 2004, começou a se encher de histórias e boatos
a respeito de "Extraordinary Machine": muitos garantiam que o álbum estava
finalizado desde Maio de 2003, mas que a gravadora Sony havia se recusado
a lançá-lo por falta de um single com potencial radiofônico, o que gerou
uma onda violenta de protestos dos
fãs.
Além de uma campanha internética chamada Free Fiona, que envolveu
dezenas de sites e blogs, os fãs chegaram até mesmo a organizar protestos
frente à sede da gravadora nos Estados Unidos exigindo que o álbum fosse
posto no mercado imediatamente - o que a multinacional se recusou a fazer
(pelo menos era o que se contava), aparentemente por um desejo de forçar
Fiona a regravar o material ou ao menos tirar da cartola algum hit que
repetisse o fenômeno "Criminal"... Todos diziam que havia ocorrido com
"Extraordinary Machine" algo bastante semelhante ao que houve com outro
famoso álbum recusado pelo mercado fonográfico mainstream por ser
anti-comercial, o "Yankee Hotel Foxtrot" do Wilco: o material proibido
vazou para a Internet.
Foi somente em 2005, às vésperas do lançamento oficial do álbum,
que outra versão da história passou a circular: se dizia que, na verdade,
não era só a gravadora que estava insatisfeita com o material gravado, mas
a própria Fiona não havia curtido muito as gravações feitas com o produtor
Jon Brion (que trabalhou, por exemplo, com Aimee Mann), contratando Mark
Eliozondo para regravar "Extraordinary Machine" quase na íntegra. Que
fique claro: o "Extraordinary Machine" que é, pra mim, o melhor disco
desse 2005, é a "versão Internet", produzido por Jon Brion e que NÃO FOI
LANÇADO OFICIALMENTE. Seria muito chato ficar aqui comparando em minúcias
os dois álbuns, como fazem os fãs (na comunidade do Orkut, por exemplo);
só digo que a versão Internet me pareceu imensamente superior: mais
ousada, mais revolucionária, mais genuína, com uma sequência de faixas
melhor pensada. Na dúvida, ouçam os
dois.
Eu demorei pra me entender com "Extraordinary Machine". Minhas
expectativas estavam tão altas que eu temia, antes da primeira orelhada,
uma gigantesca decepção. Cheguei até mesmo a cogitar a possibilidade de
não ouvir a versão do álbum que estava circulando pela Internet, que
poderia ser somente um ajuntado de rascunhos e de músicas ainda não
finalizadas, e esperar o lançamento oficial. Claro que a minha imensa
curiosidade não me deixou levar adiante esse projeto. As primeiras
audições realmente me deixaram um tanto apático e sem grandes entusiasmos:
o álbum me pareceu um tanto "sem sentimento", com pouca musicalidade e
muito ritmo bruto, muitas vezes pouco musical, beirando às vezes o
atonal... A "dramática" Fiona Apple tinha parado de fazer drama e tinha se
tornado mais amarga, mais realista, mais pé-no-chão. Cheguei mesmo a
suspeitar que a Sony pudesse ter se recusado a lançar o álbum por razões
diferentes das imaginadas por todos: não por se tratar de uma obra de arte
grandiosa e cheia de méritos que continha o pequeno empecilho de não
parecer lucrativa, mas simplesmente por ser um disco que não era bom o
suficiente...
É que "Extraordinary Machine" não é desses discos fáceis de gostar
"de cara": seus encantos estão velados, escondidos, e exigem um "trabalho
de mineração" para serem descobertos. Esse é o Kid A de Fiona
Apple. É como conhecer uma garota um tanto excêntrica e esquisita, que
inicialmente não nos faz sentir nenhuma ardente atração, e que depois que
a vamos conhecendo e com ela nos familiarizamos, começamos a amar. E com
um amor muito maior do que aquele que poderíamos oferecer a uma outra
garota que, a princípio, nos deixou boquiabertos e sem fôlego, mas que
depois desceu no barranco da nossa
afeição.
Esse é mesmo o disco mais esquisito e fora do padrão que Fiona já
lançou, e leva um certo tempo até que a familiariedade se constitua e a
relação engrene. Mas quando engrena... No meu caso, eu me vi voltando e
voltando e voltando à "Extraordinary Machine", tentando desvendar seus
segredos, decifrar o sentido de seus versos, sacar os porquês das coisas
soarem como soam... E depois de audições repetidissímas (certeza absoluta
que ouvi esse disco mais que qualquer outro durante esse ano) comecei a
admirar profundamente essa pérola que demorou tanto para ter seu brilho
reconhecido...
Um disco um tanto amargo, sim, como amarga parece ser a vida para
Fiona Apple. O refrão da primeira música já chega proibindo o
sentimentalismo: "This is not about love, cause i'm not in love!", nos
certifica a pequena Apple, que realmente parece se apaixonar e se
desapaixonar umas cinquenta vezes ao ano: "In fact, i can't stop falling
out...". A música de Fiona Apple, numa visão simplista, pode mesmo ser
entendida como um reincidente protesto contra os homens e uma série de
reclamos sobre a impossibilidade de um amor satisfatório. Fiona é o tipo
de pessoa que poderia ter escrito frases como "É impossível amar e ser
feliz ao mesmo tempo" ou "Il n'y a pas d'amour heureux". A melhor maneira
para responder à questão "do que falam as canções de Fiona Apple?" é
dizer: falam sobre relacionamentos humanos fracassados e das reclamações e
xingamentos que Fiona cospe fora como desabafo por suas
decepções...
Desde reprovações contra a imaturidade do amado ("I tought he was a
man but he was just a little boy"), contra a incapacidade de resistir a
certas tentações ("Oh it's evil, babe, the way you let your grace
enrapture me..."), contra as provocações que tentam suscitar a ira ("You
wave the red flag, baby, you make it it run... You
fondle my trigger than you blame my gun!"), contra a paixão que surge por
uma pessoa sem méritos ("It doesn't make sense I should fall for the
kingcraft of a meritless crown"), entre muitas outras, tornam a música de
Fiona Apple uma galeria de numerosas reclamações contra esses seres
abomináveis e sádicos que são os homens. Eles, no fundo, não prestam; mas
a desgraça é que ela vive sem
eles.
A pobre Fiona não entende nada sobre diamantes e porquê os homens
os compram: "o que há de tão impressionante num diamante?", canta ela em
"Red Red Red", segunda música de E.M., e a gente pode sentir a evidência
do desapontamento que ela sente por ser cumulada de presentes caros quando
tudo o que queria, talvez, era um pouco de sentimento sincero e amor
ofertado... A
única coisa de impressionante que há num diamante é a mineração, "and it's
dangerous work trying to get to you too / and i think that if I didn't
have to kill, kill, kill, KILL MYSELF doing it / I wouldn't think so much
of you"...
Também a confiança perdida no amado e confidente é lastimada: em
"Not About Love", ela reclama contra uma certa pessoa que lhe retirou
confidências e depois as utilizou para piadinhas, desprezo e munição para
a artilharia: "It doesn't seem right to take information given at close
range / For the gag, the bind and the ammunition
round!".
Na belíssima balada "Oh Well", a que mais faz relembrar os tempos
de "Tidal", reclama que recebe como pagamento por sua "calma afeição" um
olhar que perscruta as imperfeições e julga com olhar severo: "When I was
watching you with calm affection / You were searching out my
imperfections...". E depois completa com um refrão ao mesmo tempo doloroso
de decepção e banhado em raiva: "What wasted unconditional love / On
somebody who doesn't believe in this
stuff!".
O bom é que uma certa dose de bom-humor vem salvar a música de
Fiona de ser piegas, sentimentalóide ou choramingas. Em "Get Him Back",
por exemplo, ela narra suas desventuras com uma série de sujeitos que
demole com expressões cáusticas e desdenhosas, até cometer um verso
adorável, talvez o mais applesco dos versos de Fiona Apple, o que melhor
define sua música e seus sentimentos: "I think he let me down when he
didn't disappoint me!"...
"I'm good at being uncomfortable", canta na faixa-título, num verso
ao mesmo tempo divertido e melancólico, "so I can't stop changing all the
time". Fiona Apple é isso: uma garota que parece sempre insatisfeita e
que, exatamente por isso, está sempre se mexendo e se transformando e
tentando se auto-superar. Em "Please Please Please", canta com uma certa
ironia: "Nós podemos ouvir nosso triste cérebro gritando: 'Nos dê algo
familiar, algo similar ao que já conhecemos! Algo que vá nos deixar
estagnados! Parados, parados, indo a lugar nenhum...". Com "Extraordinary
Machine", ela não atendeu ao desejo desse "triste cérebro coletivo": nos
deu um disco aventureiro, ousado, maduro, diferente de tudo o que se pode
ouvir hoje em dia, inclassificável e inimitável. Eis um disco que possui
uma beleza sem pompa e sem fogos de artifício, mas que acaba tendo a
capacidade de durar bem mais do que as belezas de
espetáculo.
A arte de Fiona Apple também tem uma característica essencial: é
extremamente pessoal. O que está em jogo aqui não é uma tentativa de fazer
sucesso, ganhar rios de dinheiro, agradar o público a qualquer preço: tudo
o que Fiona quer é expressar tudo o que vai dentro de sua alma, como
grande artista que é, inclusive (e sobretudo...) as melancolias, as
frustrações, os segredos íntimos, as feridas abertas... Rilke dizia que
somente uma obra de arte que nasce por NECESSIDADE VITAL é realmente boa,
uma idéia com a qual eu sempre concordei. Fiona Apple me parece ser um bom
exemplo: tudo que ela canta parece ser de extrema importância para ela, de
modo que ela nunca solta um verso sequer que não tenha um significado
pessoal ou um impacto emocional para ela. Essa música, que Fiona faz mais
pra si mesma do que para os outros, parece ser mesmo como um tubo de
oxigênio que ela, submersa a maior parte do tempo, usa para conseguir
continuar respirando, e que nos ajuda, também, a lançar ar puro para
nossos pulmões. |