FIONA APPLE
"
When The Pawn Hits The Conflicts He Thinks Like A King
What He Knows Throws The Blows When He Goes To The Fight
And He’ll Win The Whole Thing ‘Fore He Enters The Ring
There’s No Body To Batter When Your Mind Is Your Might
So When You Go Solo, You Hold Your Own Hand
And Remember That Depth Is The Greatest Of Heights
And If You Know Where You Stand, Then You Know Where To Land
And If You Fall It Won’t Matter, Cuz You’ll Know That You’re Right
"

(1999, 


A MAIOR DAS ALTURAS

      À primeira vista, Fiona Apple parece ser somente mais uma dessas cantoras americanas que estouram nas paradas com um hit, são colocadas debaixo dos holofotes da imprensa por uns meses e são logo despejadas sem compaixão no moedor do esquecimento. Processo semelhante ocorre frequentemente com uma série de garotas, normalmente mais dotadas de qualidades sensuais do que de verdadeiros talento descomunais, diga-se de passagem, que gozam de uma popularidade volátil e que sofrem desaparição rápida. Lembram da Meredith Brooks (“Bitch”), da Natalie Imbruglia (“Torn”), da Joan Osbourne (“One Of Us”), da Jewel (“...”)? Todas elas cravaram um hit pegajoso nas rádios, brilharam por alguns instantes no firmamento das semi-pop-stars e logo deslizaram pra longe das vistas de todos, num piscar de olhos, quando a amnésia coletiva induzida pela indústria cultural se apossou de nós...

      O fato é que lá em 1996, após a explosão do fenômeno Alanis Morissete e os milhões e milhões de cópias vendidas por Jagged Little Pill, primeiro disco da canadense, as grandes gravadoras estavam à caça de novas cantoras "confessionais e adultas" para seu rol de artistas potencialmente lucrativas. Quando o mainstream foi tomado de assalto por uma Fiona Apple de 19 anos, ela apareceu aos olhos de muitos como mais uma one hit wonder pronta a ser rapidamente descartada. Puxado pelo mega-hit “Criminal”, estrondoso sucesso na MTV americana, o disco de estréia de Fiona, Tidal (1996), subiu como um foguete pro topo da parada da Billboard e vendeu mais de três milhões de cópias só nos EUA.

      A lei da indústria cultural, como se sabe, é fazer com que o público esqueça rapidamente os artistas da moda para que venham os próximos na fila dos 15 minutos de fama... Fiona Apple parece ter sofrido um pouco com esse processo: passado seu período de pop-star, seus discos meio que pararam de ser comentados e ouvidos... Injustiça tremenda. Eu aqui, fã declarado da mocinha, percebo tanto talento transbordante nos dois álbuns que Fiona lançou até hoje que acho que já é tempo de retirá-la da gosma amnésica em que ela parece engasgada há tempos. Tidal e When The Pawn..., seus dois discos, certamente não merecem ser deixados pra trás como efêmeros fenômenos pop que, após seu fugaz período de cintilação, hoje não tem mais nenhum interesse. Não, esses discos não foram somente passageiros rápidos no avião do hype; vieram pra ficar. Mais ainda (guenta papa-pauzice braba agora): essas duas pequenas pérolas têm qualidades suficientes pra que possam ser ouvidos daqui a 10 ou 15 anos sem que tenham perdido quase nada de seu vigor e interesse. Fiona Apple, além de ter uma voz abençoada, é uma compositora com o dom da perenidade, uma poetisa bem acima da média, uma artista genuína que parece realmente fazer música com suas próprias entranhas. Vejo ela como uma Sylvia Plath ou uma Clarice Lispector da música pop. Um óasis miraculoso no deserto estéril do pop.

 Um pouco de história. Em 1996, quando Tidal foi lançado, o apelido "menina prodígio" logo ficou vinculado à Fiona Apple: na época ela tinha só 19 anos de idade e já tocava piano com excelência, já cantava com uma segurança digna de uma diva do jazz com décadas de estrada, já escrevia letras dotadas dum lirismo sangrento, já tinha assinado um contrato com a Sony e já era uma das maiores estrelas da música pop no mundo. De fato, é difícil ouvir Tidal, com toda a sua gama de sentimentos complexos, e acreditar que uma mina de 19 anos é a maestra daquele intrincado espetáculo. E se ela já havia chegado a tão altas alturas com tão pouca idade, o futuro prometia ainda melhores dias a vir.

 Aquelas canções melancólicas e amargas pareciam provir de uma mulher cansada e ferida, desiludida com a metade da humanidade que tem os cromossomos XY, como se tivesse vivido uma vida inteira. As canções falavam sobre coisas como "viver este dia como se o próximo nunca fosse chegar" ("Criminal"), sobre "sentimentos em decadência" como "a carcaça de uma presa assassinada" ("Carrion"), sobre uma “febre que queima mais profundamente do que eu jamais mostrei” (“Never is a Promise)”, sobre "ter um inferno particular para evocar" ("Sleep To Dream"), sobre treinar boxe com fantasmas para se preparar para a chegada do "amado" ("Shadowboxer"), sobre "deixar-se afogar no silêncio que ecoa no interior" ("The Child Is Gone"), sobre "ter os pés no chão e não ir dormir pra sonhar" ("Sleep To Dream")... Só dezenove anos e já ANGUSTIADA e DURONA desse jeito?!

                 Uma olhadela na biografia dela pode ser esclarecedor para provar que a vida não foi exatamente gentil com Fiona Apple. A nova-yorkina, vinda ao mundo em Setembro de 1977, já aos quatro anos de idade teve que suportar o peso da separação dos pais, situação que costuma causar hiroximas espirituais em uma série de pessoas que depois se tornam grandes artistas (vide Kurt Cobain). "A imagem por vezes perturbadora de Fiona se manifestou em tenra idade, quando ela - aos 11 anos - confessou a um amigo que ela iria matar a si mesma e à sua irmã. Isso levou a uma série de sessões de terapia que acabaram levando-a a acreditar que havia realmente algo de errado com ela...", diz uma biografia na Net, não sei se é balela ou não. Aos doze anos, contam, já tinha sido colocada sob terapia psicoterapêutica devido a seus impulsos suicidas. Em entrevista concedida à UNCUT, quando lhe perguntaram se ela já havia se medicado com Prozac , ela se referiu com alta dose de humor negro aos remédios que tomou: "Oh, eu provavelmente tomei todos eles. Eu leio revistas com listas de medicamentos e é tipo: tomei esse, tomei esse, tomei esse. E eu descobri que os efeitos colaterais de todas essas coisas produzem uma confusão mental muito melhor do que qualquer desordem temperamental. Eu cheguei à conclusão de que a melhor cura para qualquer leve depressão é entrar na tortura de todos esses medicamentos, para que você possa ter todos os pesadelos e suarões noturnos e terríveis efeitos colaterais, pra depois deixá-los de lado e dizer: 'Ufa! Estou SÓ deprimida!' Ha, ha, ha!".

               Conta-se ainda que um dos episódios mais traumáticos da já bastante traumática vida de Fiona Apple se desenrolou quando ela tinha 12 anos e foi ESTUPRADA num apartamento de Nova York. A narração desse episódio era sempre o estopim que fazia a jovem Apple se desfazer em lágrimas em suas entrevistas, segundo dizem, e essa situação chegou a ser retratada em termos poéticos e disfarçados na bela e melancolicíssima balada "Sullen Girl", de Tidal. Os versos "They don't know I used to sail the deep and tranquil sea / But he washed me shore and he took my pearl / And left an empty shell of me" serão sobre outra coisa? 

A separação dos pais, o estupro, os impulsos suicidas, as sessões de terapia, a imensa lista de medicamentos tomados, contribuíram para a formação d'uma personalidade atormentada, desconfiada, azeda, cheia de maus sentimentos clamando por exteriorização. A gênese de uma artista. Alçada muito jovem aos pedestais da fama, Fiona certamente teve seus problemas de adaptação e não saiu impune do palco da glória. O polêmico videoclipe de "Criminal" (que ela depois não parou de xingar...) chegou a ser acusado de conter conteúdo sexual que beirava a pedofilia, o que foi o bastante para que muitos considerassem que a garota Apple era pessoa bastante perturbada. Somaram pontos a essa impressão, por exemplo, os constantes ataques de choro que acometiam a mocinha em suas entrevistas, além do discurso muito pouco usual que fez no MTV Awards de 1997, ao receber o prêmio de Best New Artist (“This world is bullshit!”, gritou ela para a audiência inteira da MTV).

Muito mais do que estratégias de marketing e de auto-promoção, essas atitudes, me parece, deixam claro o quão problemática é a relação de Fiona Apple com a fama e com a indústria cultural. Mais ou menos como Kurt Cobain, Fiona parece ter descoberto que o sucesso, antes tão desejado, lhe trouxe mais problemas e dores de cabeça do que felicidade. Tanto que seu terceiro disco, finalizado no meio de 2003, foi recusado pela Sony por ser pouco comercial (aquele velho papo...), e continua no forno até agora, em pleno 2005, devido a essas contrariedades. Tudo leva a crer que Fiona Apple irá se esquivar de seu destino como pop-star e tentar carreira como um heroína cult ou uma diva do jazz. Resta esperar por Wonderful Machine para checar se vai rolar um Kid-A-zação (essa foi braba!) de Fiona.

                  

                QUANDO O PEÃO ATINGE OS CONFLITOS, 
ELE PENSA COMO UM REI 

Três anos depois do estrondoso sucesso de Tidal, uma Fiona de 22 anos voltou à cena. Mais madura, com um relacionamento aparentemente seguro com o cineasta Paul Thomas Anderson (de Boogie Nights e Magnólia), Fiona soltou um álbum que não conquistou sucesso popular tão notável quanto o disco de estréia (“só” vendeu cerca de um terço do que havia vendido o anterior, o que não deixa de ser considerável... 1 milhão de cópias!), mas que pode ser considerado como uma obra de arte tão instigante e poderosa (se não for mais...) do que Tidal. O álbum, que possui provavelmente o maior título da história conhecida da música pop (um poema de 8 versos de autoria da própria Apple), trazia mais 10 canções falando sobre relacionamentos fracassados, falta de fé, sofrimento existencial, conflitos emocionais, auto-comiseração, pedidos de perdão, catarses de ódio...

                 Dizer que o piano é o instrumento protagonista em When The Pawn pode fazer com que aqueles que nunca ouviram a música de Fiona Apple criem uma falsa imagem da sonoridade dela: sua música é muito mais violenta, vigorosa, ritmicamente encorpada, do que seria de se imaginar quando se fala em pop-rock pianocêntrico. Tanto por sua voz poderosa e sua performance cheia de vida, quanto pela presença marcante das batidas, a música de Fiona Apple não vai te fazer pegar no sono ou morrer de tédio como a duma Norah Jones, por exemplo. O piano tocado com muita competência por Fiona tem sim importância considerável, mas está longe de ser a única das sonoridades presentes, o que acabaria contribuindo para uma certa monotonia (estilo The Boatman's Call, do Nick Cave, que por melhor que seja liricamente, é monótono ao ponto de gerar sonolência...). A viagem sônica de Fiona tem vários pit-stops interessantes além do piano-pop.

        Se fosse preciso enquadrá-la dentro de um estilo, dava pra considerar colocá-la junto aos compositores/cantores que se costuma chamar de “confessionais e intimistas” (tipo Joni Mitchell, James Taylor, Aimee Mann, Eliott Smith...), ou então no meio das cantoras de jazz-vocal empopzado (tipo Diana Krall, Norah Jones, Ella Fitzgerald, Nina Simone...), ou até mesmo agraciá-la com a companhia das garotas indie mais queridas que temos hoje (Cat Power, P.J. Harvey, Carina Round, Mirah, Ani DiFranco...). A UNCUT disse bem: quando Fiona apareceu "ela parecia encaixar-se perfeitamente no modelo-anos-90 de estranhas e problemáticas de garotas se despindo emocionalmente, ao estilo Bjork, PJ Harvey, Tori Amos e, claro, a própria Alanis". 

As duas baladas-mêmo de When The Pawn - "Love Ridden" e "I'll Know" - são ternas, meigas, singelas canções sussuradas sobre o soar distante das teclas do piano. Mas o resto do disco possui momentos bem mais tumultuosos e sonoridades bem mais variadas, inclusive uma visita a um jazz dos infernos no final de "On The Bound" e um flerte com a punheta instrumental no SOLO DE BATERIA de "Limp" (e, John Bonham que me perdoe, é bem melhor do aquela chatice no "Moby Dick" do Led). Ela chega até mesmo a brincar de aliteração na poesia, repetindo a mesma sonoridade CINCO vezes no mesmo verso, coisa que, apesar das aparências, não fica parecendo gagueira: "It's TRUE I DO imbUE the blUE inTO myself..." ("On The Bound"). "Limp" e "Get Gone", momentos de rebeldia, têm um jeitão meio nirvanesco (versos quietos, explosão no refrão), e o que está sendo cantado por Fiona está longe de ser gentil. "Você é aquele encaminhado para o Dia do Apocalipse / Se precisa da minha vergonha pra reivindicar seu orgulho", diz em "Limp", pra depois completar com um verso hipercool: "Você acaricia meu gatilho e depois vem culpar a minha arma...". A deliciosa “Paper Bag”, pop-jazz com letra declamada com grande ligeireza, e os pop-rocks fáceis de “A Mistake” e “Fast As You Can” são outros destaques.

Os sentimentos que tomam conta de When The Pawn formam um mosaico complexo: há a constante agressividade contra o “amado” (simbolizado pelo raivoso “fuckin’ go!” de “Get Gone”), a falta de auto-estima (o “sou uma bagunça que ele não quer arrumar” em “Paper Bag” ou o “coce-me fora de você, o mais rápido que puder”, em “Fast As You Can”), os ardores do desejo ("hunger hurts and i want him so bad, oh it kills" de “Paper Bag”),  a falta de fé e de otimismo (“Maybe some faith would do me good” e “Baby, tell me that is all gonna be allright! I believe that it isn’t...” em “On The Bound”), as desilusões pela imaturidade ("i tought he was a man but he was just a little boy" em “Paper Bag”), a falta de justificação e de preenchimento ("honey, i don't feel so good, don't feel justified / come on put a little love here in my void..." em “Paper Bag”), o cansaço pelas perguntas sempre irrespondidas ("I’m tired of whys, choking on whys, just need a little because, because..." em “Fast As You Can”), e aí vai...

 Tudo bem que dá pra ler muita paranóia, neurose, histeria e angústia em Fiona Apple, e que suas poesias, por vezes altamente dramáticas, levam a crer que ela se leva um tantinho mais a sério do que deveria. E daí? Por mais perturbada e confusa que ela seja, gosto dela assim. Se ela fosse um pouquinho menos atormentada, um pouquinho mais “sadia”, a receita desandaria. O que fascina é justamente essa pessoa que não teme se debater em público com seus problemas e seus fantasmas, por vezes muito parecidos com o de todos nós, e que se põe a expressar sua luta e sua confusão através de uma música intensa, catártica, cheia de sentimentos complexos. Fiona Apple pode estar cheia de imperfeições, mas todas elas são absolutamente adoráveis.

                 Ouça... E “lembre-se que a profundidade é a maior das alturas"...

       

--- DISCOGRAFIA --

"TIDAL" - 1996

          1. sleep to dream
          2. sullen girl 
          3. shadowboxer
          4. criminal
          5. slow like honey
          6. the first taste
          7. never is a promise
          8. the child is gone
          9. pale september
          10. carrion

           "WHEN THE PAWN..." - 1999

          1. on the bound
          2. to your love
          3. limp
          4. love ridden
          5. paper bag
          6. a mistake
          7. fast as you can
          8. the way things are
          9. get gone
          10. i'll know


     
eduardo carli de moraes
santo andré, 12/13 de fev de 2005
educmoraes@hotmail.com