ELVIS COSTELLO,
My Aim Is True




(por Eduardo Carli de Moraes, 5 Set 2003)


    Na capa do disco, um rapazinho com jeitão de desenho animado, vestido com um terno vermelho berrante que atenta contra o bom gosto, com as perninhas abertas de um jeitinho desengonçado e óculos de dimensão avantajada, segura uma guitarra. Nas prateleiras das lojas de disco do distante ano de 1977, esse estranho espécime acaba por ir parar na recém-inaugurada seção de um estilo musical juvenil que então fervilhava em seu início, e jaz ali bem ao lado dos Ramones e dos Sex Pistols em meio aos discos punk.

    Hoje, quando o imaginário coletivo já aprendeu a associar a palavra "punk" com podreira, barulheira, baderna, imoralidade e imundície, essa cena parece uma piada. O fato de que esse nerd do Elvis Costello, em um dia mitológico de nosso passado musical, possa ter sido classificado em categoria tão inadequada para criatura tão sutil e high-class só pode se dever mesmo a um curioso e hilário equívoco histórico.

    Mas peralá! Certamente Elvis não é o tipo de diabinho anti-cristão e apologista da anarquia como Johnny Rotten, não é um feioso e desengonçado porta-voz da sensibilidade suburbana como Joey Ramone, não aprecia picos de heroína como Johnny Thunders, mas algo nele cheira a punk. Não o punk tradicional pintado pelo senso comum, o adolescente radical e rebelado contra sua família, que desejaria que o mundo inteiro se explodisse junto com sua chatice, e que carrega na cabeça penteados excêntricos e correntinhas bizarras pendendo do corpo. Mas um punk no sentido primitivo, na acepção original.

    Mas o que significava, no começo de tudo, ser um punk? Lá atrás, no começo dos anos 70, nos EUA que via nascer os Velvets, os Dolls, o MC5, os Stooges e Patti Smith, quando começou-se a pensar em uma espécie de movimento informal de modificação musical e comportamental, o punk significava basicamente isso: a liberdade para ser quem se era. Contra os poseurs, contra os exibicionistas, contra o mundo adulto de trabalho assalariado e missa aos domingos, contra a chatice imensa da "vida séria" e seus simulacros.

    O punk era o seguinte: vamos parar de fingir, porra! À merda todas as poses e todas as pretensões, o lance é aqui e é agora, e não se pede a ninguém nada além disso: seja quem tu és. O punk colocava fogo nas máscaras, abandonava a esperança, mandava parar o teatro, e botava pra rolar uma máquina de eletricidade bruta e diversão. Não mais a submissão aos pais, à escolinha, à preparação tranquila para pastar em escritórios fechados ou sofás à frente da TV: o punk era o fuck off da juventude para a chatice do mundo adulto, do straight world, para o terror que era ser "um homem sério e comprometido com o futuro e com os interesses da comunidade". O punk era o rock and roll reinventado por gente que cansara das poses de herói dos rock-stars, e que desejava mostrar-se publicamente como era, sem retoques, sem maquiagem.

    Elvis Costello é esse anti-herói desmascarado, aquele que resgata a espontaneidade e que cospe uma música tão desengonçada, tão livre, tão indiferente, tão pouco envergonhada quanto a suas imperfeições, que não há jeito: é punk. Pelo menos em espírito, pelo menos em atitude. "De todos os debuts clássicos do punk, esse permanece aquele que é provavelmente o mais idiossincrático por não ser catártico em som, somente em espírito", escreveu Stephen Thomas Erlewine na AMG.

    My Aim Is True, primeiro disco de Costello, caiu no mundo em 1977, ano chave para a popularização punk, apresentando ao mundo um dos compositores mais espertos a surgir na música pop no último quarto do século 20. Costello era capaz de viajar em um amplo espectro musical, tinha um ótimo senso melódico e uma voz anasalada mas afinada, escrevia letras de sagacidade poucas vezes antes vista e, principalmente, não estava ali fazendo pose de machão ou vendendo algo diferente do que si mesmo.

    Único disco de Costello com o Clover como banda de apoio (daí pra frente se iniciaria uma longa e prolífica carreira junto aos Attractions), My Aim Is True é o mais rocker dos álbuns do homem, o que exala mais urgência, mais visceralidade. Os Attractions eram uma banda de apoio mais rítmica, que adicionava ao som mais texturas, que trazia teclados e fazia com que baixo e bateria ficassem mais discretos no background. Com os Attractions, Elvis Costello iria gradativamente se movendo para um campo mais de pop sofisticado e ambicioso, e iria parir outros álbuns clássicos do quilate de This Year's Girl, Armed Forces e Imperial Bedroom. Com o Clover, em seu debut, rende-se a ser simplesmente rock and roll e a cantar melodias grudentas.

    A maioria das músicas é puro pop-soul clássico dos anos 50 e 60, reinventados sob uma perspectiva mais punk - ou mais nerd, se se preferir. "Sneaky Feelings", "Red Shoes", "No Dancing", "Radio Sweetheart" são músicas punk-pop chicletudas, bubblegums, bem na tradição de melodias cativantes e refrão simples e colante.

    Em "Mystery Dance" há o ponto de encontro entre os dois Elvises: Presley e Costello. Em um rock and roll primitivo, presleyano, Costello resgata para a era punk o rock and roll primevo. O punk, aliás, era musicalmente um movimento retroativo, que ia buscar lá nas raízes perdidas do rock dos anos 50 e 60 a visceralidade e a espontaneidade que o Led Zeppelin e os progressivos haviam destruído. O punk, no fim dos chatões anos 70 de viagens sonoras e exibicionismo instrumental, foram pescar a energia bruta do rock primitivo. "Mystery Dance", que aparece aqui em duas versões, elétrica e acústica, é totalmente retrô, uma música que poderia muito bem ter sido lançada por Little Richards ou Chuck Berry.

    O jeitão de reggae torto e as linhas de baixo densas de "Watching The Detectives" fazem dessa uma das músicas mais diversificadas do disco, e a bela "Alison" aponta para o futuro de Costello, onde se encontrariam abundantes amostras de baladaria sofisticada e sensível. Grande parte do disco, porém, não soava exatamente como algo que se enquadrava em algum categoria musical preexistente, e foi em grande parte por causa de My Aim Is True que foi preciso se inventar um novo termo para se referir a essa reinvenção punk do pop clássico: a NEW WAVE.

    No reino de My Aim Is True, uma auto-ironia reina suprema, e Costello parece ter um certo prazer sádico-masoquista em se auto-torturar e se fazer de piada para o mundo. Ele tem a manha de rir de si mesmo, abandonando o excesso de orgulho para contemplar com leveza seu próprio ridículo. Certamente está nervoso e desiludido, mas ao invés de começar a disparar balas contra tudo e contra todos, consegue reconhecer também a si mesmo como um alvo. E tem aquela sutileza, aquela sensibilidade, aquele talento com as palavras, que o elevam acima das multidões de compositores e o colocam no trono como o poeta pop-nerd mor de todos os tempos.

    Vocês todos sabem: os nerds também amam. O problema é que, normalmente, o amor para eles nunca se concretiza, oscilando entre o reino do platonismo bobão e do desastre ridículo no mundo objetivo. Eis porque My Aim Is True não é exatamente um álbum sobre o Amor e suas delícias, mas sim sobre esse maldito sentimento que nos fode que é o amor e todas as suas catástrofes. O tema de Costello, mais precisamente, é o amor que fracassa, que rasga os corações, que faz sofrer, e que talvez não seja mais que um sonho sempre pronto a ser dilacerado pela dureza da realidade.

    Mas que sutileza utiliza Elvis para tratar do assunto, que sublimes eufemismos, que deliciosos jogos de palavras faz para pintar o quadro das desgraças amorosas! Quando um brutalhão punk, posando de rebeldão, iria fazer uma música onde "batia uma punheta com a foto da namorada", nosso Elvis retira de seu dicionário de tucanagens o clássico primeiro verso de "Welcome to The Working Week", onde diz estar "admirando ritmicamente" uma fotografia. Quando um melodramático cantor de baladas iria declarar amor às qualidades interiores e ao "coração" da amada, Elvis é sincero o bastante para dizer: "Poderia dizer que gosto da sua sensibilidade, mas você sabe que é o jeitinho como você anda".

    Alguns posariam de PhDs em assuntos sentimentais, garanhões profundos conhecedores da natureza feminina, mas Costello sabe que não é nada disso, que é imperfeito, muitas vezes boboca, às vezes demasiado sentimental, outras vezes ranzinza. Num mundo lotado de compositores gabarolas, é ótimo achar um cara que não está querendo vender-se a si mesmo como um gênio. No reino das canções de amor que fedem a sentimentalismo barato e melodrama, Costello chega para dizer algumas verdades pouco lisonjeiras sobre as relações amorosas.

    Os sentimentos em que ele se afoga normalmente são de rejeição, de ser passado pra trás, de não ser bom o bastante. "Por que você tem que dizer que sempre há alguém que pode fazer melhor que eu?", pergunta ele em "Miracle Man". Várias músicas são compostas com duas das matérias-primas mais utilizadas na história da humanidade na composição de canções populares: a dor de corno e o ciúme ("Alison", "I'm Not Angry", "Red Shoes").

    Além disso vê-se constantemente atormentado pelo sentimento de culpa, tema tratado na excepcional "Blame It On Cain", com seu refrão bastante catártico no qual Elvis berra, não se sabe para quem (e talvez isso não importe tanto): "Joguem a culpa em Caim/ Mas por favor não joguem a culpa em mim/ Não é culpa de ninguém/ Mas precisamos de alguém para queimar". Ele é o cara que está enlouquecendo por "falar sozinho por tanto tempo", e que se sente como que bombardeado por acusações quando começa a se sentir bem:

"But every single time
I feel a little stronger,
they tell me it's a crime.
Well how much longer? "

    A ambiguidade de seus sentimentos em relação ao amor é simbolizado perfeitamente pelo "My aim is true", refrão de "Alison" e título do álbum. A expressão significa, em tradução literal, algo como "Minha mira é certeira", e pode simbolizar (sigo a interpretação de Matt Le May) duas coisas: ou o desejo de reconquistar a garota amada, ou uma mira certeira para destruir a garota odiada. Sendo que a garota amada e a odiada são a mesma pessoa. O mesmo objeto é ora alvo de ódio, ora de amor, segundo a perpétua inconstância dos sentimentos humanos. Costello não mente sobre isso, e não tem medo de soar "incoerente" e ambíguo.

    Também está longe de ser o babaca paparicador que só elogia as garotas. Mais do que um bajulador, ele é um ranzinza, que se revolta contra certas futilidades femininas, como a garota de "Miracle Man", consumista compulsiva, que compra artigos dos mais supérfluos ("ten-inch bamboo cigarette holder and black patent leather gloves") . Em "Welcome To The Working Week", critica o otimismo da garota burguesa que acha que "tudo na cidade está bem" e que nunca saiu de casa pra checar se estava mesmo:

I hear you sayin', "Hey, the city's all right"
when you only read about it in books.
Spend all your money gettin' so convinced
that you never even bother to look.

(Eu ouço você dizer, 'Hey, a cidade tá na boa' / Quando você só leu sobre isso nos livros./ Gastou toda sua grana pra conseguir se convencer / Que você nunca se importa em ir dar uma olhada...)

    Lá em "Cheap Reward", pinta um retrato extremamente cruel de uma mulher que larga o coitado do Costello na lona, "sendo apresentado ao chão", "pronto a ser varrido pra fora da porta", e depois diz:

Lip Service, that's all you'll ever get from me
Well, how could you believe I'll take you seriously?
With your cheap rewards, your blackmail, and your comical rage
Just remember you'll only be the boss so long as you pay my wage

("Serviço labial é tudo que você vai conseguir de mim / Como você pôde pensar que eu te levava a sério? / Você com seus prêmios baratos, sua chantagem e sua raiva cômica / Se lembre que você só será o chefe enquanto pagar o meu salário!")

    É um dos mais perfeitos retratos das crueldades de que são capazes as mulheres por vezes, um ataque às interesseiras mais preocupadas com os cartões de crédito dos hard working men do que com qualquer outra coisa.

    A guerra dos sexos fica mais virulenta ainda na deliciosa "Wave A White Flag", uma das músicas mais engraçadas de todos os tempos, e uma boa amostra do porquê Elvis Costello é um dos caras mais legais da história da música pop. "Espanque-me na cozinha, e te espancarei no hall / Não há nada que eu goste mais do que um vale-tudo / Pegar seu belo pescoço e ver para que lado ele se entorta / Mas quando tudo estiver acabado ainda seremos amigos". No refrão da música, vem o delicioso "Hope you don't murder me" ("Espero que você não me assassine"), fechando uma obra-prima do humor negro sobre o amor. Valhe a pena citar:
But when I hit the bottle,
There's no tellin' what I'll do
'Cause something deep inside me
Wants to turn you black and blue
I can't resist you, I can't wait
To twist your loving arms till you capitulate

Beat me in the kitchen,
and I'll beat you in the hall
There's nothing I love better
than a free for all
To take your pretty neck
and see which way it bends
But when it is all over
we will still be friends

Wave a white flag,
put away the pistol
Too many people
just can't get kissed
But if there's nothin' I can do to make amends
Hope you don't murder me

 

   A vontade é citar mais uma dezena de versos deliciosos que Elvis espalha pelo disco, mas ler essas palavras no papel não é tão divertido quanto ouvi-las cantadas. Há todo um universo de referências dentro das letras de Costello, todo um paraíso a ser desvendado, toda uma série de piadas deliciosas e joguinhos de palavras. Há letras-historinhas, como "Waiting For The End Of The World", que relata um acidente que faz com que um trem fique preso em túnel escuro, onde as garotas começam a ser bolinadas e todos esperam pelo fim do mundo; há letras mais políticas, como "Less Than Zero", sobre um fascista inglês; há singelos retratos do terror da vida familiar em "Stranger In The House", onde Costello diz se sentir um estranho em sua própria casa, que "se parece mais com um hotel a cada dia"; há raivosas promessas de vingança em "Pay It Back", onde Costello parece se revoltar por ter sido iludido com as falácias da eternidade do amor e da segurança da vida, cantando: "Eu te amo mais que qualquer coisa no mundo / Mas não acho que isso vá durar / Alguém me disse que tudo era garantido / Alguém em algum lugar deve ter mentido pra mim..."... vamos parar por aqui porque isso iria muito longe.

   My Aim Is True, esse delicioso mosaico pop, desfile de sublimes nerdices, é um dos discos capazes de fazer com que alguns se apaixonem eternamente pela música pop. É um álbum de fundamental importância histórica, o disco que inaugura a new wave, o cartão de visitas que dá um pontapé inicial numa carreira que já se estende por mais de 25 anos (e contando), uma inspiração fundamental para todo o indie-rock "sensível e sincero", para grande parte do punk-pop das duas décadas seguintes e um paradigma fundamental para uma série de compositores desencanados e bem-humorados.

   Como escreveu Matt Le May, "com My Aim Is True Costello explodiu para dentro da cena punk/new-wave como um mutante híbrido de Buddy Holly e Johnny Rotten". Tinha "inteligência transparente, sensibilidade e senso melódico que o tornaram muito mais interessante do que muitos de que seus contemporâneos". Ficar discutindo se Costello é ou não um punk talvez seja até desimportante. Preocupar-se em enquadrá-lo dentro de um certo estereótipo (nerd, punk, geek, new-waver) parece então tolice: Costello é só Costello. É realmente insignificante se ocupar em decidir se My Aim Is True é um disco punk ou não, se Costello é um romântico desiludido ou new-waver feliz, ou ficar em semelhantes categorizações que não servem pra nada. Contra todos os rótulos, cintila um fato simples: estamos claramente frente a frente com um dos discos mais divertidos e libertários de todos os tempos.

Eduardo Carli de Moraes
educmoraes@hotmail.com


CAMINHOS ALTERNATIVOS:
* Matt Le May em excelente resenha na PITCHFORK
* Resenha na AMG-Music Guide
* Resenha na STYLUS Magazine
* Biografia e discografia de Costello na AMG