
:: CASEY DIENEL ::
[ A PRIMEIRA CARTA - ABRIL de 2007]
“Sempre pensei que se eu algum dia me tornasse um
fenômeno do indie rock, eu amaria receber cartas de pessoas dos lugares
mais estranhos na Terra – aqueles países que você nunca suspeitaria que
tinham computadores, Internet ou mesmo qualquer tipo de civilização, muito
menos fãs teus. Que magnífico seria descobrir que eu tinha fãs em Burkina
Fasso, Hong Kong ou na Finlândia! (Não tenho um Atlas em mãos, então me
perdoe se esses locais não são excêntricos o bastante. =) Seria tão fácil
desculpá-los pelo mau inglês e pela falta de maneiras
civilizadas...
Então pensei comigo mesmo: por que não tentar dar
esse prazer para uma artista que eu carinhosamente admiro, e simplesmente
fazer com que ela saiba que há alguém aqui fora, no meio do nada, que
emprestou seus ouvidos para sua música e está profundamente grato pelo que
ouviu? Então aqui venho eu, querida Casey, não exatamente do lugar mais
bizonho ou incivilizado na face do planeta, mas como uma rara alma perdida
da Selva Sul-Americana – e venho para declarar-me, orgulhosa e
estrondosamente (e torcendo pra ser o primeiro a fazê-lo!) o MAIOR FÃ
BRASILEIRO da Casey Dienel e de sua gloriosa e encantadora música e
pessoa...”
Assim começa essa louca excentricidade que eu ousei cometer esses dias: mandar uma carta de fã para a Casey Dienel. Eu sou bobo mesmo, mas deixa eu, pô! Deixa eu brincar de ser feliz! =)
Nunca tinha feito nada do tipo na minha vida, até porque sempre achei bastante bobinhas aquelas meninas histéricas que ficavam fazendo cartas para os ídolos, escrevendo “eu te amo” ou algo parecido um milhão de vezes, até que acabassem com um rolo quilométrico que tinha que ser entregue num caminhão de mudança. Sempre achei que isso, muito mais do que uma "prova de fanatismo", era sim uma prova de estupidez e falta do que fazer. As tontinhas fazem tudo para serem notadas... E eu, o tontão aqui, decidi fazer o mesmo, agora - ou algo bem parecido. Quis que a Casey me notasse, soubesse que eu existo e tivesse certeza do meu amor pela música dela. Ser alguém pra essa menina americana que eu provavelmente nunca irei ver na minha vida, mas que gravou um dos discos mais adoráveis que eu já ouvi.
Em 2007, acho que não ouvi nenhum
outro disco mais vezes e com maior prazer (with such delight...)
do que o “Wind-Up Canary”. Tô apaixonado pelo álbum, pela voz tão
aconchegante e meiga da Casey, por aquele climão tão sussa e pacífico
(so soothing...), por aqueles personagens legais que povoam as
(ótimas) letras dela, por todos aqueles versos que grudam na memória e não
saem mais ("hang me out to dry when the nightmare's over..."). Tô
apaixonado pela Casey. Ela tem só 21 aninhos de idade e já todo esse
talento imenso para a música e para a poesia. Sem falar que, ainda por
cima, é uma gatinha.Por que uma carta justo pra Casey e não pra algum dos outros artistas de que eu gosto tanto quanto dela, talvez mais? Talvez por isso: eu pensei comigo mesmo que se eu escrevesse pra Fiona Apple ou pro Jeff Tweedy, minha carta seria só mais uma dentre milhares, provavelmente aberta por uma secretária e respondida com aqueles replys personalizados: “Agradecemos seu contato! Estamos fazendo todo o possível para melhor servi-lo! Volte sempre!” Mas a Casey é diferente. Ela é uma garota indie de verdade: ela só tem um disco lançado, só umas 20 pessoinhas na comunidade do Orkut, e continua sendo alguém que quase ninguém conhece no Brasil, alguém que ainda não recebeu nem 1% do reconhecimento que merece... E, principalmente isso: alguém que, provavelmente, nunca recebeu nenhuma carta apaixonada de um fã brasileiro e que poderá, talvez, ficar feliz de saber. Então quis fazer isso.
A carta serve como uma espécie de resenha do disco, também - aliás, era essa minha idéia original: resenhar o disco usando essa pequena "originalidade" de fazê-lo através de uma carta imaginária para a artista. Eu sei que muitos críticos de música já fizeram isso antes, e muitas vezes, então me perguntei: porque não uma carta de verdade? Assim aproveito para treinar meu inglês, inclusive escrevendo umas frases chiquérrimas e ultra-pretensiosas, só pra provar que meus anos de Cultura Inglesa não foram em vão nem o dinheiro paterno desperdiçado. Na carta eu uso “thus” e “amidst” - vejam só como sou fresco. Digo, por exemplo: “amidst all this material, your little gem shone like a pearl.” Muito chique. Me orgulho muito dessas frases.
Pensei em cortar as PARTES PORNÔ, mas no final acabei deixando. Talvez ela curta saber que foi amor platônico de algum maluquinho brasileiro... Talvez não. Talvez isso incomode.
Vocês vão me achar ridículo, o que de fato sou, e muito, mas vou compartilhar com vocês, pois, essa pequena loucura: minha carta de amor para a Casey Dienel, minha namorada imaginária americana, the lovelier girl alive. Será que ela vai responder? Eu ia ficar bestamente feliz. Será que pelo menos mandei pro e-mail certo? =D
“I’ve always tought that if someday I was to become an indie-rock phenomenon, I’d love to receive letters from people from the weirdest places on the Earth – those countries you’d never guess even had computers, Internet or even any kind of civilization, and much less fans of you. How gorgeous would to be find out I had fans from Burkina Fasso, Hong Kong or Finland! (I haven’t got an atlas at hand, so please excuse if this locations weren’t excentric enough. =) It would to be so easy to excuse their lack of good English and civilized manners…
So I said to myself: why not try to give this pleasure to an artist I fondly admire and well, just let it be known there’s someone out there, in the middle of nowhere, who lended his years and is profoundly thankful for what he has heard? So here I come, dear Casey, not exactly from the weirdest or uncivilized place on the face of the planet, but as a rare lost soul from the South American jungle - and I come to declare myself, proudly and loudly (and I’m hoping to be the first to do so!) the BIGGEST BRAZILIAN FAN of Casey Dienel and her glorious and enchanting music and person.
Your record, extremely obscure and unkown here in Brazil, was recommended to me by a Fiona Apple fan, who perceived a lot of resemblance between your music and hers (and with Regina Spektor’s also). Me, being a huge Fiona (and Regina) fan, for years, went to check you out and was positely surprised by it. More than that. I fell in love. I’m not sure if you’re pleased with the comparison with Apple and Spektor, but I think you should – there are, at least to my eyes, both so god damn great! Even tough I’ve been wondering, lately, if you are not, or at least destined to be, far greater…
I found out about “Wind-Up Canary” early this year, some weeks after publishing in my blog my listing for favorite albums of the year (Belle & Sebastian’s lovely “Life Pursuit” had won the gold medal) - and suddenly I had to regret not having included yours in my list, and surely in the podium. All throughout this year of 2007, there’s no other record I’ve heard so much and with such delight than yours – the new ones from Arcade Fire, Wilco and Black Rebel Motorcycle Club, bands I truly love, have all been left behind.
I’m sure you don’t make music to get rich (or do you?), but I feel obliged to say I’m sorry – cause I haven’t bought your CD and, thus, haven’t helped in any way to increase your income by a single penny. What a crying, crying shame. Of course it was all stolen from the Internet, and your little precious record came together with the avalanche of MP3s I daily stuff my PC with – most of the time not having the patience to go through half of the things I’ve downloaded. But, oh gosh, “Wind-Up Canary” really did make an impression. From amidst all this material, your little gem shone like a pearl. From the first time I’ve heard it, it got me in a hook and just won’t let me go. I can’t shake it off, no matter how hard I try – and I keep coming back to it as a junkie to his dope. Yeah, I’m addicted.
I use it, sometimes, as crying music for my recently broken heart, finding it absolutely soothing to let my eyes rain down my pillow to the sound of “Cabin Fever”, “Old Man” or “The La La Song”. Sometimes I find it hard not to agree when you sing: “It’s funny I like me best with a broken heart…”. I use it, too, as a sort of collection of lullabies, your being one of the female voices that make me become peaceful as an angel, in a way not even my mom could do, nowadays. I use it, too, to make me happy when times are blue and to make me happier when things are already juicy. “Everything” and “All Or Nothing” never fail to cheer me up.
“I’m going to be just fine, walking down my crooked line…” – that’s what people can hear me singing in the streets, in the shower and the college corridors. I’m glad they don’t know whose song is that. I wanna keep you like a secret, all for myself. I’m just kidding. I recommend your charms to everyone I know that digs good music. And I’ve been even saying all around you have one of the TOP 5 female lah-lah-lah of all time. And I mean it.
It’s not all good news, tough. I wish to apologize to you, frankly, for having used your “image” inside me quite disrespectfully. Yeah, I’ve made you my imaginary girlfriend in some lonely nights and lonely days. But, while we’re a continent apart and this love affair has so little chance of getting real (my crushs seldom do!), I’d be happy just to mail this letter to say, well, how much your record made me dream about how gorgeous it would be to have by my side someone so goddam perfect. Your image was not involved in any wild sexual phantasies, rest assured, cause that’s a pretty nasty thing to do. You’ve been used, kindly used, but never mis-used. It was all about sweet gifts, like chocolate boxes and little kities, and caste kisses, and cool chats by the porch, with a sweet kiss good-night afterwards….
“As soon as I’m used to one season, it moves – and that’s all we can count on…” I guess it’s Casey Dienel season in my headphones, and I hope this season lasts a while, like it has been for so long, now. If it passes, well, I’ll remember fondly how great it was. And I’ll always have the chance to get back to it just pushing play. Ain’t that great?
Thanks for existing, Casey! Thanks for having recording this freaking masterpiece I’ll never cease to love – I’m sure I’ll hear it still in the insane asylum or the nursing home for the abandoned grandaddys of the world. Thanks so very much for making music so lovely - lovelier than lovely...
And thanks for your patience in reading this huge love letter from the little boy who fell desperately in love with your music, and now is striving for the honor of being recognized as your number one Brazilian fan. =)
Kisses and hugs.
(etc.)
* * * * * *

[ ENTREVISTA EXCLUSIVA - junho de 2007 ]
A Casey tem a honra de ser minha primeira namorada imaginária americana (e eu já confessei a ela sobre os abusos que estou ousando aqui na minha imaginação com relação à ela...), minha primeira platonice internacional! (Uau, sou tão bom em amores platônicos que agora sou todo cosmopolita e tenho um crush pesadíssimo por essa talentosíssima estadunidense... O próximo passo é arranjar uma platonice com uma francesa - só não pode ser a Carla Bruni porque aí a concorrência é muito alta). Nem queria voltar a me derreter em elogios à Casey, porque isso já está se tornando monótono e enjoativo, mas as coisas que andaram acontecendo no nosso tórrido love affair só me deixam dizer que ela é uma das meninas mais doces, meigas, inteligentes e encantadoras desse mundo. Oh gosh, what a girl!
Cheguei do Rio e estava lá, me esperando na caixa de e-mails feito um presente debaixo da árvore de Natal, uma das coisas que eu mais curti receber em toda a história do meu relacionamento de anos com essa maravilha moderna que é o correio eletrônico. Desde que eu mandei pra Casey uma cartinha de amor, tempos atrás, nós começamos meio que a nos corresponder - e um tempo atrás eu tive a idéia brilhante de que ia ser bastante massa se ela me concedesse uma entrevista exclusiva. Surgiu como uma daquelas idéias que depois eu viro pra mim mesmo e me zôo: "larga de ser ridículo, Eduardo! Isso nunca vai acontecer!" Mas botei fé e, como anda acontecendo até com certa frequência na minha vida, ou pelo menos em certos setores dela, o ato de botar fé deu boa paga.
CASEY: Se eu fui uma “criança” especial, eu nunca fiquei sabendo! Mas eu de fato penso que eu fui uma espécie de “sabe-tudo”, apesar de meus pais terem criado a mim e à minha irmã para sermos bastante auto-depreciativas e humildes em relação a assuntos como arte. Mas eu definitivamente não era uma criança-prodígio, e, pior, sempre fui bastante tímida... Então eu não costumava falar muito sobre os meus interesses – eu achava que escrever canções era como qualquer outro tipo de ofício que a pessoa cultiva privativamente... Eu sempre fui um tanto reservada, misteriosa. Fui às aulas por minha própria vontade quando eu tinha 4 anos – e eu me sentia realmente atraída pelo piano e pelo violão, mas o violão era grande demais para uma menina de 4 anos! E desde então eu acho que eu sempre fui bastante auto-motivada sobre música, em parte porque eu estou fazendo música para mim mesma, e não tanto para o público... A parte do público é uma das últimas coisas que eu penso quando me ponho a fazer música.
E: Li sua confissão de que você cresceu com “o nariz enterrado nos livros” – e adivinho que foi daí que você retirou seu grande talento com as palavras... Acho que uma das grandes qualidades da sua música é o fato de ela possuir um “sabor literário” - eu posso considerá-la quase como “declamação de poesia”... Você diria que sente mais carinho pela literatura do que pela música? E quais dos grandes letristas você diria que admira mais? Você lê bastante poesia e tem alguns poetas favoritos que descreveria como inspiradores?
CASEY: Estas são questões bastante extensas! Eu acho que a literatura é a mais elevada das formas das belas artes, e, na minha opinião, a mais desafiadora de ganhar domínio sobre. Eu desde muito nutro uma profunda admiração pelo modo como as palavras são encadeadas. Na escrita, você não pode apelar para os sentidos para criar imagens ou personagens ou histórias - você tem apenas a sua esperteza para evocar emoções e visuais. É como alquimia, o verdadeiro sentido de "criar alguma coisa do nada".
Eu não diria que minhas canções são particularmente "literárias", mas eu realmente dedico um bom bocado do meu tempo para as letras, tentando criar imagens que são imediatamente visuais para o ouvinte, ainda que seja algo ou alguém que eles não estejam familiarizados com. Outros letristas que conseguem me transportar para outro tempo e espaço são provavelmente Leonard Cohen e Bob Dylan, mas eu também penso, em termos mais simples, nos Beatles.
Cohen e Dylan usam detalhes sem serem arbitrários, para aprofundar a pintura do retrato - ao mesmo tempo que criam incríveis melodias e estruturas de canção. Lennon & McCartney podiam pegar linguagem simples e revivê-la com uma idéia de sentido completamente nova. Eu acho que as canções dos Beatles são tão clássicas porque as letras são tão honestas e permitem que as melodias carreguem as músicas. Algumas vezes músicas só precisam ser músicas! E é importante ser cauteloso quanto ao que a música significa pra você, ao invés de tentar empanturrá-la com frases ou versos exóticos.
E: É fácil de notar, ao ouvir as suas letras, que você freqüentemente utiliza um monte de personagens fictícios, de um modo que me lembra um pouco o método de composição do Bob Dylan ou do Bruce Springsteen, diferenças postas de lado... Frankie e Anette, o Doutor Monroe, Baby James: de onde saíram todos esses personagens? Eles são puros produtos da sua imaginação ou são construídos com partes de pessoas que você conhece? Talvez alguns deles sejam pessoas de verdade? O que eles são: alter-egos, amigos imaginários, talvez fantasmas...? Fale um pouquinho dessas tuas “crianças”! :)
Casey: Eu acho que os personagens
se originam de uma base de dados de observações pessoais cotidianas -
coisas que eu noto em pessoas que amo ou pessoas que não conheço. Eles
também têm a tendência de derivar de eventos ou lugares - acho que muitas
vezes quando estou escrevendo sobre uma pessoa estou na realidade
escrevendo sobre muitas pessoas ao mesmo tempo. Mas eu não tenho muita
certeza sobre de onde eles vêm - algumas vezes certos personagens são
imediatamente visualisados, outros precisam de tempo para serem filtrados
e se materializarem fora da névoa da minha memória. Eu procuro não
analisar demais isto, pelo medo de que um dia estas visões possam
desaparecer! Eu não sei se você está se referindo a eles como crianças
porque eu os tive nos passado - mas essa seria uma comparação adequada. Eu
acabo vinculada e conectada a eles de um modo tal que é difícil pra mim
separá-los de mim mesma. Eu unicamente tento "criá-los" de um modo que
eles possam ficar de pé por si mesmos, e dar a eles o máximo que posso
antes que eles sejam lançados para o mundo.E: Falemos um pouco sobre os teus planos para o futuro. Eu li que você está preparando um novo EP chamado Vessels e está fazendo alguns shows por aí (nos EUA), mas há previsão para novos álbuns? A música é realmente um projeto de longo-prazo pra você, ou seja, você tem a intenção de criar dúzias de álbuns e ter uma carreira que se estenda por décadas?
CASEY: Putz! Quantas questões grandes! Bom, o EP Vessels, por hora, é algo que eu botei na minha seção de coisas adiadas , mas estive trabalhando em alguns projetos maiores – mas eu não posso falar sobre eles ainda. Eu dediquei praticamente o ano todo para fazer outras coisas que adoro – pintar, cozinhar, fazer bolos e melhorar na bicicleta e na yôga. A música eu acho algo tão intrínseco ao modo como eu me viro na vida do dia a dia, que neste momento eu não vejo qualquer razão que me impeça de estar fazendo canções até a terceira idade. Mas o tempo algumas vezes tem outros planos em mente, e eu não tenho a menor vontade de arranjar briga com o tempo. Minha esperança é que eu possa continuar fazendo isso e que possa continuar a me perguntar as Questões Duras e Assustadoras. Eu realmente não tenho expectativas concretas – ideais de sucesso e coisas assim. Eu só me certifico de perguntar a mim mesma enquanto vivo: “você está feliz?” Se eu acabar sendo uma velhinha trabalhando numa livraria no Maine com um pequeno jardim de vegetais, não me sentirei decepcionada!
E: Li uma crítica (na Pitchfork) chamando suas letras de “nonsense espertinho” – se me lembro bem, você foi comparada com o Stephen Malkmus, o cara do Pavement. Isso te incomoda? Suas letras e versos são “repletos de sentido”, mesmo que alguns deles sejam claros somente para você, ou você acredita que há muito jogo de palavras e que você usa as palavras como “brinquedos”? Há realmente um pouco de “clever nonsense” aqui e ali?
Então será que é mesmo “nonsense espertinho”? No passado, eu acho que tinha sim muito mais linguagem arbitrária [nas minhas letras], palavras e expressões se concatenando simplesmente porque eu curtia o jeito como elas soavam ou como eu as sentia na minha boca. Atualmente eu tento conciliar esse prazer com algo mais coeso. Na minha experiência, uma canção pode ser sobre muitas e muitas coisas diferentes. Eu escrevo baseada em tópicos, mas também de um modo meio caleidoscópico. Então eu sempre sei sobre o que fala a música, e isso é tudo o que me importa, mesmo que seja a respeito de três eventos, pessoas ou lugares díspares que, quando listados numa página, conectam-se na minha mente para formar um quadro mais vasto. Seria uma extrema perda de tempo, energia e paz mental me deixar aborrecer e sair do sério por causa das interpretações que as pessoas fazem das minhas canções – eu aprendi a não levar a coisa tão pessoalmente. Enquanto eu sei das minhas intenções, me sinto ok.
E: Agora uma pergunta mais filosófica, talvez um tanto difícil de responder! Em algumas das suas letras, eu posso sentir uma espécie de “angústia”, talvez, em relação à passagem do tempo e ao fato de que a alegria sempre parece ser efêmera – a alegria e tudo o mais que existe, na verdade. Como quando você canta: “assim que nos acostumamos com uma estação ela se vai, e é somente com isso que podemos contar...” (em “Cabin Fever”), ou no lindo verso de “Better in Manhattan” que diz que “o paraíso é um lugar que se visita, mas não um lugar pra se morar”, ou mesmo no triste finalzinho de “Fat Old Man” em que você diz: “nada muda quando você se vai, tudo prossegue...”). Você realmente percebe o mundo como um “oceano de impermanência”, por assim dizer?
CASEY: Hmmmm... Bom, eu não diria que eu sinto qualquer sensação de “angústia” em relação à mortalidade. A mortalidade é a nossa verdade como humanos, e acho que a verdade nos libera de sermos só ‘alegres’ ou só ‘tristes’. Nós somos máquinas complexas, e frequentemente sentimos ambas essas emoções, tudo ao mesmo tempo, às vezes uma mais que a outra, mas eu considero quase impossível realmente separá-las. Não gosto de dissecar e esclarecer os sentidos das canções para os ouvintes – em parte porque eu fico realmente super curiosa para ver como os outros as interpretam! Eu coloco elas pra fora com esperanças de que elas se tornem mais do que somente canções minhas. Mas eu acho que apesar do tempo nos lembrar freqüentemente de que é ele quem está no comando, há uma boa razão que explica porque nós o marcamos com aniversários, feriados, festivais, estações etc. A transformação do mundo é bonita, mesmo que ele não seja permanente.
E: Apesar de não dar pra dizer que você escreve “canções autobiográficas” (do jeito que a Fiona Apple escreve, por exemplo), eu realmente sinto como se eu pudesse te conhecer muito bem depois de ouvir seu disco muitas vezes. Será isso uma ilusão ou será que essas músicas realmente podem servir como uma espécie de “portal para a sua alma”, um pequeno buraco na fechadura através do qual nós podemos desvendar ao menos um pouco de quem você realmente é?
E: Estou curioso para saber um pouco sobre a repercussão da sua música fora dos Estados Unidos. Em quais países você diria que a resposta do público foi mais intensa e gratificante? E você já chegou a tocar ao vivo no exterior?
CASEY: Eu estou bastante alheia e ignorante a toda a resposta internacional. Ainda não toquei no exterior ainda, exceto no Canadá, embora eu esteja ansiosa para fazer isso no futuro. Eu realmente ainda não procurei como fazer tudo isso ainda, mas acho que a partir do próximo álbum eu gostaria de começar a viajar através dos oceanos. Eu recebo e-mails muito simpáticos da Escandinávia, e, é óbvio, do Brasil! Isso me faz divagar sobre como as pessoas descobrem sobre todos esses diferentes artistas! Eu sinto como se minha coleção de discos estacionou em 1979, e eu nunca sei quem é ninguém desses artistas novos, embora eu provavelmente deveria. Eu sequer ouço CDs! Tudo é em vinil pra mim. Eu vivo na Idade Média!
E: Você deseja se tornar uma cantora-compositora de alta vendagem ou está satisfeita sendo um tanto obscura, como um pequeno segredo que poucas pessoas compartilham?
CASEY: Eu não tenho a mínima idéia sobre como me sinto sobre o futuro – mas enquanto as coisas acontecerem de modo orgânico, vou estar contente. Não estou com pressa para chegar ao “próximo estágio” ou qualquer coisa que seja... Nem sei o que é isso. Eu nunca realmente me senti muito “romantizada” pela indústria da música. Eu respeito a necessidade que ela tem de transformar minha arte numa carreira – mas além disso eu acho que a indústria é um pouco superestimada, e isso é parte do porquê eu me rodeio com pessoas que estão fora dela. Talvez eu poderia ser mais ambiciosa, mas eu acho que estou muito mais preocupada com as músicas em si mesmas e em ser uma pessoa serena e feliz. Eu não me oponho a ter um público mais vasto ou poder me sustentar através da música, ao invés de trampar em [barista jobs] etc. Eu acho que eu tento não me concentrar muito nessas coisas – se acontecer, aconteceu. É que eu realmente não quero gastar meus 20 anos correndo por aí a ponto de não poder curtir meus amigos, família e vida cotidiana. Não vejo o sentido. A celebridade não chega nem perto de ser tão preciosa pra mim quanto estes três itens que citei. Pode soar sentimentalóide, mas é verdade!
E: Não posso resistir: vou fazer a famosa pergunta da Ilha! Quais são os 5 discos, 5 filmes e 5 livros que você levaria para uma ilha deserta para passar na companhia deles o resto da tua vida?
DISCOS:
1. Beatles—Revolver
2. Bob Dylan—Live at Albert Hall ’65
3. Joni Mitchell—Blue
4. Debussy String Quartet
5. Thelonious Monk- Monk’s Time
FILMES
1. Five Easy Pieces (Vi pela primeira vez outro dia, e acho que nunca vou conseguir me cansar dele! Parece simples no começo, mas é repleto de complexidade na essência!)
2. Harold and Maude, de Hal Ashby
3. qualquer dos curtas-metragens mudos do Buster Keaton (para serem assistidos ouvindo o disco do Thelonious Monk!)
4. Annie Hall – Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen
5. My Fair Lady, de George Cukor
LIVROS
1. Beneath the Wheel do Herman Hesse
2. A Insustentável Leveza do Ser do Milan Kundera
3. I Capture the Castle do Dodie Smith
4. O Tambor do Gunther Grass
5. Chez Panisse Cooking da Alice Walters (Eu sei que parece doidice, mas eu adoro ler sobre comida quase tanto quanto curto comê-la! Esse livro de receitas é clássico.)
E: Algumas vezes eu suspeito que vocês artistas possam ficar bravos com os entrevistadores quando eles não perguntam aquilo que vocês gostariam de responder... Então vou propor um pequeno jogo bobo: faça uma questão a si mesma e a responda!
questão: Quando você se sente mais inspirada e feliz por estar viva?
resposta: Nos primeiros momentos da manhã ao nascer do Sol – a luz me faz desejar estar de pé e cantando. É luminosidade inadulterada – nova e um tanto insegura de si mesma, mas que se espalha sobre tudo até você sinta como se estivesse vendo o mundo pela primeira vez. Isso me faz cair apaixonada mais uma vez [It makes me fall in love all over again].
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