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Antes de ter ouvido esse álbum, eu não tinha o Beulah em grande conta. A banda era somente mais uma dentre tantas que fez fama por ressuscitar a clássica música pop dos anos 60 através de canções adocicadas e semi-sinfônicas, apenas um coletivo retrô de reconstrução de um mundo sônico feito à imagem e semelhança dos Beach Boys, dos Beatles e dos Kinks. Tudo era demasiado ensolarado, bonitinho, cheio de melodias infantilmente contagiantes, mas faltava uma certa dose de originalidade. O Beulah era como um grupelho de crianças brincando no parque de diversões da psicodelia sessentista, com um certo sabor lo-fi roubado do Pavement nas primeiras gravações, mas faltava algo de distintivo que separasse a banda da multidão. Haviam, é claro, os títulos das músicas, onde sobrava a criatividade que faltava na música ("Um Bom Homem É Fácil De Matar", "Se o Homem Pode Pousar um Homem Na Lua, Eu Certamente Posso Ganhar Seu Coração", "Eu amo John, ela ama Paul" e "Mecânica Popular Para Amantes" entre elas) Mas no fim o veredicto era: o Beulah certamente era uma das bandas menores dentre a galera da “nova psicodelia” da Elephant 6, não tão boa quanto o Neutral Milk Hotel ou o Olivia Tremor Control, mas que ainda assim conseguia ser simpática e acariciadora dos ouvidos. Banda passável, mas que deixava lá no fundo da boca, após a degustação de The Coast Is Never Clear ou When Your Heartstrings Back, aquele gostinho de comida requentada... ![]() “Yoko”, o quarto (e provável derradeiro) full-lenght da banda, é um imenso passo à frente para o Beulah. Este disco é um épico indie-rock monstruoso, apaixonadamente eclético, que exala uma musicalidade líquida e fácil. É aqui que o Beulah cria uma mosaica viagem pop que lembra o Summerteeth do Wilco ou o Grand Prix do Teenage Fanclub e se coloca no panteão de ouro do rock alternativo americano atual. Uma grata surpresa vinda de uma banda que nunca me pareceu capaz de parir tremenda obra-prima. “My
love is a lot like yours: it’s been crippled by the wars we wage. We’re
hopeless. We’re on the losing side”,
canta o vocalista Miles Kurowsky na primeira faixa deste “Yoko”,
deixando claro que o antigo climão ensolarado foi momentaneamente
afastado do céu beuliano. Em contraste com o material anteriormente
lançado pela banda, o disco é realmente mais sombrio e melancólico
do que seria de se esperar de banda outrora tão alegrinha. Mas
ainda assim o Beulah continua sendo banda jovial e adequadíssima
para curar melancolias suaves e depressões leves: uma
vitalidade contagiante sempre se sobressai contra as sombras e a
banda nunca escorrega para a morbidez joy-divisioniana.
A
Dusted, revista
eletrônica muito apreciável, disse o essencial: “[não há]
nenhum traço de auto-piedade ou lambimento de feridas em ‘Yoko’,
apenas uma nova gravidade lírica e um aproach um tanto mais maduro
sobre o que já era uma quase-perfeita abordagem da canção pop. Se
Heartstrings e Coast pintaram a banda como crianças
em brincandeira na estética do pop anos 60, então eles cresceram
um tanto nos últimos dois anos, refinando seus gostos de
extendidos-demais para simplesmente versáteis”. Nos
meses de composição deste álbum, conta-se que quatro dos seis
membros da banda passaram por divórcios ou relacionamentos de longa
data finalizados, o que ajudaria a explicar as nuvens negras que
deixam o ambiente nublado em “Yoko”. O nome do disco, aliás,
provavelmente vai trazer à mente de quase todos a imagem de uma
certa artista de olhinhos puxados famosa por ter capturado as atenções
amorosas de John Lennon e por ter sido acusada de acabar com uma
certa bandeca dos anos 60, servindo como um símbolo para o fantasma
da Separação que assombra o álbum. Mas o título também pode ser
simplesmente um acrônimo para “You’re Only King Once”, a
faixa 3, lamentosa balada wilconiana que nos implora por um sorriso.
“Yoko”
viaja num amplo espectro pop: passa pelo punk-pop garageiro
barulhento e quase bubblegum (“Landslide Baby”, “Your Mother
Loves You Son”, “My Side Of The City”), pela balada folk
introspectiva (“You’re Only King Once”), pela balada épica e
grandiosa (“Fooled With The Wrong Guy”), recheia os interlúdios
entre as faixas com barulhinhos atmosféricos que parecem saídos do
Yankee Hotel Foxtrot do Wilco, soterra refrões debaixo duma
parede de som spectoriana (“A Man Like Me”), e por aí vai.
Nenhum
outro disco do Beulah é tão competente em visitar ambientes tão
diversos mantendo a homogeneidade e a fluência. É aqui que a banda
deixa de ser apenas um grupo que reverencia de joelhos os anos 60 e
se transforma numa banda original, poderosa, apaixonante, e que anda
por seu próprio caminho. E não chega a ser má idéia acabar o
percurso por aqui. Pois como diabos eles conseguiriam compor um
sucessor à altura? |
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--- YOKO, AS FAIXAS -- |
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1 A Man Like Me 4:29 |
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--- DISCOGRAFIA BEULAH -- |
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--- CAMINHOS ALTERNATIVOS --- |
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