B E U L A H
"
Yoko"

(
Velocette Records, 2003, importado ou MP3.)

 

       Antes de ter ouvido esse álbum, eu não tinha o Beulah em grande conta. A banda era somente mais uma dentre tantas que fez fama por ressuscitar a clássica música pop dos anos 60 através de canções adocicadas e semi-sinfônicas, apenas um coletivo retrô de reconstrução de um mundo sônico feito à imagem e semelhança dos Beach Boys, dos Beatles e dos Kinks. Tudo era demasiado ensolarado, bonitinho, cheio de melodias infantilmente contagiantes, mas faltava uma certa dose de originalidade. O Beulah era como um grupelho de crianças brincando no parque de diversões da psicodelia sessentista, com um certo sabor lo-fi roubado do Pavement nas primeiras gravações, mas faltava algo de distintivo que separasse a banda da multidão. Haviam, é claro, os títulos das músicas, onde sobrava a criatividade que faltava na música ("Um Bom Homem É Fácil De Matar", "Se o Homem Pode Pousar um Homem Na Lua, Eu Certamente Posso Ganhar Seu Coração", "Eu amo John, ela ama Paul" e "Mecânica Popular Para Amantes" entre elas) Mas no fim o veredicto era: o Beulah certamente era uma das bandas menores dentre a galera da “nova psicodelia” da Elephant 6, não tão boa quanto o Neutral Milk Hotel ou o Olivia Tremor Control, mas que ainda assim conseguia ser simpática e acariciadora dos ouvidos. Banda passável, mas que deixava lá no fundo da boca, após a degustação de The Coast Is Never Clear ou When Your Heartstrings Back, aquele gostinho de comida requentada...     
 

        “Yoko”, o quarto (e provável derradeiro) full-lenght da banda, é um imenso passo à frente para o Beulah. Este disco é um épico indie-rock monstruoso, apaixonadamente eclético, que exala uma musicalidade líquida e fácil. É aqui que o Beulah cria uma mosaica viagem pop que lembra o Summerteeth do Wilco ou o Grand Prix do Teenage Fanclub e se coloca no panteão de ouro do rock alternativo americano atual. Uma grata surpresa vinda de uma banda que nunca me pareceu capaz de parir tremenda obra-prima.

        My love is a lot like yours: it’s been crippled by the wars we wage. We’re hopeless. We’re on the losing side”, canta o vocalista Miles Kurowsky na primeira faixa deste “Yoko”, deixando claro que o antigo climão ensolarado foi momentaneamente afastado do céu beuliano. Em contraste com o material anteriormente lançado pela banda, o disco é realmente mais sombrio e melancólico do que seria de se esperar de banda outrora tão alegrinha. Mas ainda assim o Beulah continua sendo banda jovial e adequadíssima para curar melancolias suaves  e depressões leves: uma vitalidade contagiante sempre se sobressai contra as sombras e a banda nunca escorrega para a morbidez joy-divisioniana. 

        A Dusted, revista eletrônica muito apreciável, disse o essencial: “[não há] nenhum traço de auto-piedade ou lambimento de feridas em ‘Yoko’, apenas uma nova gravidade lírica e um aproach um tanto mais maduro sobre o que já era uma quase-perfeita abordagem da canção pop. Se Heartstrings e Coast pintaram a banda como crianças em brincandeira na estética do pop anos 60, então eles cresceram um tanto nos últimos dois anos, refinando seus gostos de extendidos-demais para simplesmente versáteis”.

        Nos meses de composição deste álbum, conta-se que quatro dos seis membros da banda passaram por divórcios ou relacionamentos de longa data finalizados, o que ajudaria a explicar as nuvens negras que deixam o ambiente nublado em “Yoko”. O nome do disco, aliás, provavelmente vai trazer à mente de quase todos a imagem de uma certa artista de olhinhos puxados famosa por ter capturado as atenções amorosas de John Lennon e por ter sido acusada de acabar com uma certa bandeca dos anos 60, servindo como um símbolo para o fantasma da Separação que assombra o álbum. Mas o título também pode ser simplesmente um acrônimo para “You’re Only King Once”, a faixa 3, lamentosa balada wilconiana que nos implora por um sorriso. 

       “Yoko” viaja num amplo espectro pop: passa pelo punk-pop garageiro barulhento e quase bubblegum (“Landslide Baby”, “Your Mother Loves You Son”, “My Side Of The City”), pela balada folk introspectiva (“You’re Only King Once”), pela balada épica e grandiosa (“Fooled With The Wrong Guy”), recheia os interlúdios entre as faixas com barulhinhos atmosféricos que parecem saídos do Yankee Hotel Foxtrot do Wilco, soterra refrões debaixo duma parede de som spectoriana (“A Man Like Me”), e por aí vai.  

       O destaque supremo do disco, segundo as opiniões dos meus ouvidos, é certamente “Me and Jesus Don’t Talk Anymore”, uma canção pop que beira a perfeição. Pianos distantes se misturam às barulheiras foxtrotianas na longa introdução de um minuto, após a qual tudo se silencia. Kurowsky começa a cantar quase sem acompanhamento, a bateria começa a marcar o ritmo sem fazer estardalhaço e se encorpa na estrofe seguinte. No lindo pré-refrão, as guitarras entram rasgando acordes distorcidos enquanto ouvimos: “Though we are falling stars, we feel just fine”. A música vai num crescendo que culmina com o melhor momento do vocal de Kurowsky em todo o disco. Ele canta seu “your body's cold and you're going nowhere” com uma agudeza e uma emotividade não de se esperar de verso tão deprê, e tudo explode em “uh uh rúúúú! ahhhhhh ahhhhhs!” deliciosos, que preparam o caminho para solos de guitarra de derreter manteiga e metais de dar calafrios de delícia. É uma obra prima que traz à mente os melhores momentos do Wilco fase Summerteeth e uma das canções que certamente entraria num best of do indie-rock na década 00.

 Nenhum outro disco do Beulah é tão competente em visitar ambientes tão diversos mantendo a homogeneidade e a fluência. É aqui que a banda deixa de ser apenas um grupo que reverencia de joelhos os anos 60 e se transforma numa banda original, poderosa, apaixonante, e que anda por seu próprio caminho. E não chega a ser má idéia acabar o percurso por aqui. Pois como diabos eles conseguiriam compor um sucessor à altura?


Eduardo Carli de Moraes
Dez 2004
educmoraes@hotmail.com

--- YOKO, AS FAIXAS --

1  A Man Like Me   4:29
           
2  Landslide Baby   4:58  
           
3  You're Only King Once   3:10  
           
4  My Side of the City   3:27  
           
5  Hovering   5:01  
           
6  Me and Jesus Don't Talk Anymore   4:51  
           
7  Fooled With the Wrong Guy  4:23  
           
8  Your Mother Loves You Son  3:05  
           
9  Don't Forget to Breathe   3:56  
           10 Wipe Those Prints and Run  7:35
 

--- DISCOGRAFIA BEULAH --



            * Handsome Western States – 1997
            * When Your Heartstrings Break – 1999
            * The Coast Is Never Clear – 2001

            * Yoko – 2003

--- CAMINHOS ALTERNATIVOS ---