Acho que tô um
tanto cansado ficar ouvindo fofurezas indie e bandas hypadas da era
moderna. Tô achando muito mais proveitoso investigar o passado, procurando
pelos fósseis de antigos dinossauros, do que procurar algo que preste
nestas espécies que nasceram mais recentemente... Eu costumava ter toda
uma preocupação de estar muito bem antenado, ouvindo grande parte dos
lançamentos que as boas gravadoras iam pondo nas lojas, para ser um indie
muito bem-informado e digno de estar na primeira divisão da nação
indiegena, mas ando cada vez mais sem vontade de ficar baixando cada uma
das Novas Salvações do Rock que a mídia musical inventa a cada semana - e
só para estampar com letras garrafais nas manchetes sensacionalistas que
mais e mais se parecem com anúncios...
Sem falar que, sinceramente,
tem me decepcionado um pouco a produção das novas bandas por aí: ouço os
novos do Arctic Monkeys, do Bloc Party, do Kaiser Chiefs, mesmo do Black
Rebel, e acho tudo "legalzinho", até, mas de uma mediocridade desanimadora
- é só botar um velho clássico do Led ou do AC/DC pra que tudo dessas
bandinhas novas pareça meio pálido e sem cor perto dos discões fodões dos
anos 60 e 70. Acho que eu vou ser um daqueles tiozões saudosistas que só
curte bandas jurássicas e que quer ensinar a juventude a descobrir como
era tão melhor nos tempos idos... :D "Ah, no tempo de Woodstock é que o
lance era bom de verdade! Essa meninada dôjendia num sabe nada de
róquenrou!" Tô meio naquelas de ficar me perguntando: por que vou ouvir o
Wolfmother quando posso me deliciar com o Led Zeppelin e os Faces? Ou
ouvir Darkness tendo em mãos o Highway to Hell e o Back In
Black? Pra que ficar com os xerox em preto-e-branco quando posso ter
os originais coloridos?
Acho, aliás, que as melhores bandas da
atualidade, todas elas, só se tornaram tão boas porque estudaram com
afinco a história do rock e se inseriram numa certa tradição: toda grande
banda é também o resultado de um processo arqueológico de descoberta de
uma linhagem. Senta que lá vem teoria de um pobre wannabe se fingindo de
crítico musical... Acho que o White Stripes não seria tão legal se o Jack
não tivesse devorado tanto folk e blues antigo, tanto Led Zeppelin, tanto
Cream; os Strokes só se tornaram o que são de tanto ouvir Television,
Undertones, Velvet e Modern Lovers; o Wilco, por mais original que seja,
não deixa de chupinhar um monte de Replacements, de Neil Young, de Bob
Dylan, até de Lynyrd Skynyrd, ultimamente... Bandas que têm raízes e
cultura musical costumam ser muito melhores do que essas bandinhas que não
ouviram muita coisa e já pensam que podem sair por aí fazendo música.
Árvores crescem firmes e fortes só quando têm raízes vigorosas se
aprofundando no solo... Com o perdão da má metáfora.
Segue aí
embaixo uma seleção de um punhado de discos excelentes do rock and roll
nos anos 70 - mas que não costumam ser devidamente valorizados. É uma
espécie de "pérolas escondidas" ou "álbuns subestimados" de uma década que
teve material de primeira pra dar e vender. A gente costuma só ouvir falar
que os anos 70 viram nascer as primeiras bandas de rock pesado, que dariam
em novos gêneros como o hard rock e o heavy metal (através do triunvirato
sagrado: Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple), e que viu nascer o
levante punk e suas bifurcações (a new wave, o pós-punk, o hardcore um
pouco depois..), mas esquecemos de tantas outras bandas geniais (ou
simplesmente empolgantes pra caraca) que passearam lindamente pelos
gloriosos seventies... Eis aí, pois, 5 classicões do rock nos
anos 70 que eu recomendo a
todos:
T Rex – The
Slider (1972). O rótulo glam rock engana e afasta
os leigos: faz pensar em brilhantina, lantejoulas, exibicionismo
espalhafatoso e comportamento repleto de viadagens - como se fosse o Ramo
Gay dentro do rock and roll... Tenta dizer pra algum metaleiro que os
discos do glam eram legais e ele vai te olhar com aquela cara de quem
suspeita da tua masculinidade. Mas é bobagem e puro preconceito fazer do
hoje mitológico Marc Bolan apenas um dos rock star mais bichosos
que já houve, o primeiro de uma longa lista de moços com jeito de
menina, a má-influência que serviu de inspiração para a androginia de
gente como o Brian Molko do Placebo, o Brett Anderson do Suede, o Jarvis
Cocker do Pulp... Em vida e depois de sua morte (em 1977), Marc Bolan foi
muito mais: um compositor competente, um performer criativo, um cantor
interessante, uma persona provocativa - um grande cara, se me perguntarem.
E, reduzido ao essencial, o tal do glam rock era nada mais que o bom e
velho rock and roll, puro e simples, não muito diferente do que era nos
anos 50 e 60, mas sem a obsessão com a virilidade e com a atitude
ai-como-sou-machão!. É o rock and roll excitante como sempre, mas
liberto da obsessão com a macheza – e, por isso mesmo, transpirando
liberdade. The Slider é talvez o grande clássico do Tyranossaurus
Rex e um sucessor que chega a ultrapassar o poder do album anterior, o
igualmente clássico Electric Warrior (que contêm o grande hit da
banda, a irresistível “Bang A Gong (Get It On)”, que o menininho do filme
Billy Elliott tanto adora). Na época de seu lançamento, o The
Slider foi um hit certeiro na Inglaterra e conseguiu um sucesso
considerável também do outro lado do Atlântico, fazendo de 1972 o ano mais
formidável na história do glam rock: foi neste ano abençoado que foram
lançados o Ziggy Stardust de David Bowie, o Transformer
do Lou Reed e o All The Young Dudes do Mott the Hoople. The
Slider, apesar das semelhanças claras que detêm com os discos
citados, tem todo um charme próprio. A atitude do Rex e do Bolan, junto
com os New York Dolls e com as bichices do Bowie, deve ser algo como o
equivalente à Revolução Sexual dentro do rock and roll. Marc Bolan foi um
dos primeiros a soltar a mulher que tinha dentro de si e mostrar que isso,
ao invés de ser constrangedor, podia ser cool – e mais:
libertador. Por isso gosto até de pensar nele (aguenta a viááágem...) como
um precursor do riot girrrrl e um dos que abriu caminho para que
as mulheres entrassem no rock and roll. Teriam existido Patti Smtih e
Debbie Harrie se antes Marc Bolan não tivesse soltado a franga e
"feminilizado" o rock, junto com o Bowie e os outros glams? Dali em
diante, as bichas, as mulheres, os andróginos e todas as criaturas
esquisitas estavam convidadas a pegar em guitarras e fazer bandas. Ainda
bem! Tirando todo esse papo, The Slider é simplesmente um discaço
de rock and roll, bom do começo ao fim, que tem ainda a vantagem de ter
sido importante como algo que ajudou a modificar para sempre uns
"paradigmas comportamentais".
GRAHAM PARKER – Howlin
Wind (1976). O cara tem a voz do Van Morrison, a empolgação
maníaca do Mick Jagger, a auto-confiança inabalável do Bruce Springsteen e
o groove fácil de algum negão cantor de soul. Precisa dizer mais como
recomnedação? E, como se não bastasse, o Graham Parker começou sua
carreira quando o punk estava prestes a nascer e seu rock and roll já
nascia impregnado com o espírito dos tempos: ou seja, já tinha um pé
fincado no punk e outro na new wave. Howlin' Wind, seu primeiro
disco, é um dos grandes debuts da história do rock, como a própria AMG All
Music Guide sugere. É como um Elvis Costello mais encorpado, com uma banda
de apoio mais vigorosa do que os Attractions e com sangue mais negro
correndo nas veias. É como a versão rock and roll e turbinada do
Moondance, um dos grandes clássicos do grande Van. É como o New
York Dolls soaria se tivesse vivido para compor seu terceiro disco. Como é
que pode ninguém conhecer uma maravilha dessas? Refrões memoráveis,
músicas grudentas e um dos vocalistas mais potentes dos anos 70 fazem
deste um dos mais divertidos, alegres e irresistíveis discos do rock and
roll nos anos 70. Eis um disco que sempre sugiro pra tocar de cabo a rabo
quando me deixam pôr som em festa.
MC5 – High Time
(1971). Na história do rock, o MC5 entrou para o time das bandas chamadas
de “proto-punk”, ao lado dos New York Dolls, dos Stooges e do Velvet
Underground, como se fosse justo relegar bandas tão cruciais ao papel de
serem os meros precursores de algo mais importante que viria depois... Por
isso não curto muito do rótulo proto-punk: porque o MC5 era, antes de mais
nada, uma baita duma bandaça de hard rock, talvez a mais
violenta, brutal e pesada de sua era. Quando Kick Out The Jams!
saiu, em 1969, impregnado de revolta política e discursos inflamados,
“orquestrada” por John Sinclair para gerar um caos danado, aquilo foi
provavelmente o petardo mais estupidamente barulhento e agressivo que o
mundo já havia ouvido. E lembrem-se de que muitos anos ainda teriam que
passar até que existissem coisas como o metal, o punk e o hardcore. O MC5
já foi a banda mais estupidamente agressiva do mundo. E que colhões lançar
um disco daqueles em pleno Verão do Amor! O disco de estréia dos caras
pode até ser o grande clássico da carreira deles, e de longe um dos
melhores álbuns ao vivo da história do rock and roll, mas os dois discos
seguintes não fazem feio – Back In The USA é um belo tributo às
raízes do rock and roll e o High Time, terceiro e último álbum da
banda, serve para inscrever o Motor City Five na história do rock pesado
que nascia dos anos 70 com o surgimento do Led, do Black Sabbath e do Deep
Purple. A banda perde alguns miligraminhas de sua energia estando num
estúdio, mas a vantagem é que o vocal do Tyner se torna mais nítido e a
guitarrinha estupenda do mestre Wayne Kramer se ouve com mais clareza. Um
discaço.
STATUS QUO – On The Level
(1975). Tudo bem: o Led Zeppelin IV é um puta dum disco
formidável, clássico supremo da história do rock and roll, objeto de culto
de todos os tiozões roqueiros que conhecemos... Mas quantos de nós, mais
moderninhos, não desejamos que aquela avalanche sônica de “Black Dog” e
“Rock and Roll”, que inicia o álbum nos deixando com a adrenalina lá no
teto, continuasse pelo disco inteiro, sem que entrassem as bonitezas folk
de “Going To California” ou a longa viagem de “Stairway To Heaven”? Quem
já não quis que o Led Zeppelin tivesse feito um disco com o carro sempre
na quinta-marcha, com o pé pisando sempre até o fim no acelerador? Pois o
On The Level, do Status Quo, é mais ou menos como seria um disco
inteiro repleto de rock and roll como só o Led sabia fazer na época do
IV. Fiquei completamente embascado quando descobri esse disco –
como pode ser tão subestimado e obscuro, quando tinha tudo para ser um dos
álbuns mais adorados da história do hard rock? Antes de baixar essa
pérola, minha única informação sobre o Status Quo era uma citação, pra lá
de irônica, numa música do Teenage Fanclub, no disco deles (o adorável
Bandwagonesque) que mais sacaneia alegremente o mundo do metal (e
as meninas metaleiras): “She wears denim wherever she goes, she says she's
gonna buy some records by the Status Quo...” (em “The Concept”). Este
On The Level tem uma única musiquinha de bonitezas folk,
inclusive com ú-ú-ús singelos de backing vocal (“Where I Am”), mas o resto
do álbum é estupidamente rockandroller – contendo clássicos como
“Down Down” e “Over and Done”. Rockão empolgante, despretensioso e
cavalgante, que passa por cima do ouvinte como um rolo compressor e que
não decepcionará ninguém que curta AC/DC e Led - mesmo que fique a
sensação nítida de que o Status Quo é uma espécie de banda de segundo
escalão, que fazia nada além de uma imitação classuda dos grandes mestres.
Mas vai imitar bem assim no inferno!
FACES – A Nod Is As Good As a
Wink... To a Blind (1973). Este é o mais clássico dos discos
da banda outrora conhecida como Small Faces - que encurtou o nome depois
da entrada do novo vocalista, Rod Stewart, e do novo guitarrista, o grande
Ron Wood (que depois entraria pros Rolling Stones). Um dos álbuns de rock
and roll puríssimo e destilado que mais me empolga, dentre todos que eu
conheço. É tudo o que o Black Crowes queria ser, e tentou ser por tantos e
tantos anos, conseguindo vez ou outra resultados admiráveis, mas nunca
chegando a realmente atingir o nível desse momento máximo de inspiração
dos Faces. Esse é do tempo em que os discos tinham só 35 minutos de
duração mas não havia um segundo que não valesse a pena. Do tempo em que
os discos eram feitos para que a juventude ficasse pulando em cima do
colchão, segurando a guitarra imaginária e arruinando permanentemente os
estrados da cama. O Rod Stewart, na carreira solo posterior, viraria um
coiso um tanto brega e constrangedor, principalmente nos clipes e nas
fotos, que são de uma cafonice sem igual, mas no Faces ele demonstra ser
um vocalista de rock cheio de energia, empolgação e potência vocal. O
jeito como Rod já entra com o vocal rasgado no começo de “Miss Judy” já dá
a suspeita de que estamos frente a um disco sublime. E a suspeita se
confirma com louvor. Os duelos entre um solo de guitarra e uma levadinha
deliciosa na gaita harmônica em “You're So Rude” é uma das coisas mais
docemente melodiosas que eu já ouvi num disco de rock pesado. Mesmo as
baladinhas, que já sugerem o que Rod Stewart iria se tornar depois de ter
“estragado”, são lindinhas: “Love Lives Here” e “Debris” não soam nada
cafonas, conseguem até emocionar e soam quase com o Bob Dylan soava quando
tocava com a The Band (e isso é uma grande elogio aos Faces, claro!). Sem
falar que esse disco, junto com os clássicos do Led e do Cream, é prova de
que o rock and roll nada mais é do que o bom e velho blues tocado com
guitarras distorcidas e com um ritmo acelerado – tanto que uma música tem
o nome-tributo perfeito à cidade-mãe do blues: “Memphis, Tenessesse”.
Altamente recomendado.
(Xiii, faltou falar de tanta coisa, tanto
disco clássico, tanta banda boa... eu não falei do Zuma do Neil
Young, nem de nenhum clássico do Creedence, nem do Grand Funk Railroad,
nem do Maggot Brain do Funkadelic, nem do Exile On Main
Street ou do London Calling, nem de alguns grandes discos do
Dylan... Mas fica pra próxima... Hoje a idéia era só ficar nos clássicos
"obscuros".)