Player's Piano (também publicado
com o título Utopia nº 14) é uma distopia:
uma sociedade hiper-tecnologizada e industrializada, onde máquinas
inteligentes realizam praticamente todo o trabalho produtivo, e a população
em geral foi reduzida a um artigo inútil. Após duas revoluções
industriais (a primeira tornando desnecessário o trabalho manual/muscular,
a segunda tornando prescindível o pensamento de rotina), os mega
computadores assumem as principais funções sociais e cuidam
de pensar (muito mais eficazmente, para alguns) pelos homens. Vonnegut
focaliza os acontecimentos do romance em Ilium, Nova York, futuro não
muito distante. A cidade está dividida em dois reinos quase incomunicáveis:
de um lado, a elite de dirigentes e engenheiros, de alto Q.I., reduzidos
a meros vigilantes e reparadores de máquinas; do outro lado fica
Homestead, onde vivem os homens comuns, agora condenados a escolher
como ocupação ou o Exército ou os Grupos de Saneamento
e Reparação.
A elite dirigente, satisfeitíssima
com o paraíso de eficiência e produtividade que o progresso
possibilitou, vê com olhos lisonjeiros o mundo maquinizado.
Os empregados humanos ficavam doentes, tiravam férias, não
trabalhavam nos fins-de-semana, armavam greves, tinham problemas familiares,
animosidades com colegas, ódios secretos contra a chefia. Já
as máquinas suportam sem um pio sua escravidão, trabalham
mais e melhor, desperdiçam menos, são mais eficazes
e seus produtos são muito melhores e mais baratos. Por tudo
isso, os dirigentes gabam-se de ter aumentado o padrão de vida
do homem médio imensamente.
No entanto, do outro lado do rio Iliquois,
em Homestead, o homem comum não está muito satisfeito
com a situação. As válvulas, as máquinas
e os computadores aumentaram em ritmo impressionante, mas proporcionalmente
aumentava também o consumo de drogas, o alcoolismo, os divórcios,
a delinquência juvenil, a taxa de suicídios. Devido à
invasão das máquinas, praticamente todos os homens haviam
perdido seus empregos anteriores. Médicos? Desnecessários:
as máquinas apalpam, analisam, diagnosticam e sugerem a melhor
opção possível de tratamento. Advogados? Totalmente
supérfluos: há os infalíveis detectores de mentiras,
e na memória dos computadores há o registro minucioso
de toda a vida de qualquer pessoa; a máquina analisa o passado
do suspeito, testa sua sinceridade e emite um juízo imparcial,
desinteressado e justo. Sociólogos e economistas? Pra quê
precisamos deles, se o mega-computador IPECAC é capaz de analisar
muito melhor o andamento da sociedade e sugerir a melhor diretriz
econômica? Comerciantes? Que tolice! Temos máquinas automáticas
onde você deposita o dinheiro e retira o produto que quiser,
e logo logo o progresso fará com que as máquinas sejam
agentes de marketing de persuasão inigualável...
As pessoas perdem seus empregos, e isso
acaba se refletindo numa perda da noção de seus próprios
valores como indivíduos. É através de seu trabalho
que um homem adquire a noção de estar contribuindo de
alguma maneira para um objetivo maior. Compra com seu suor a consciência
tranquila e o sentimento convicto de possuir uma função
(por minúscula que seja) no universo. Sem emprego, perde sua
auto-estima, e é confrontado dolorosamente pela certeza de
sua própria inutilidade. Um homem, antes empregado, torna-se
um empecilho social, um ônus público. Se fossem perguntar
para IPECAC pra que servem as pessoas, como sugere o turista de uma
cultura distante no romance, o computador certamente diria: "Não
servem pra nada". E é isso que o homem comum descobre
dentro de si como uma angústia bastante moderna.
Os dirigentes insistem em dizer que
a vida agora é melhor, que o homem comum tem agora aparelhos
de televisão, lava-roupas supersônica, fogão a
radar, automóvel moderno, entre outra série de eletrodomésticos
tornados populares. E, além disso, ganharam o ócio.
Sim, mas o que farão as pessoas com seu tempo livre? "Viver!",
grita apologeticamente um dos propagandistas do Sistema. Pelo contrário,
as pessoas gastam estupidamente seu tempo em frente da televisão,
machucando-se pelo tédio, e rezando para readiquirem um emprego
que lhes traria de volta a consciência de servirem para algo.
Quem disse que o que as massas desejam de um governo são férias
ininterruptas? É essa a sociedade ideal? Vonnegut parece dizer
que não: as pessoas precisam ter o sentimento de participação,
precisam achar lugar para desenvolverem seus heroísmos, precisam
conquistar a dignidade aos seus próprios olhos. O ócio
é um terror absoluto para a maioria dos homens, que só
pelo trabalho conquistam a consciência de terem algum valor.
Paul Proteus, o personagem principal,
é filho de um dos mais poderosos homens de Ilium e tem uma
posição bastante privilegiada no status quo. É
um empregado exemplar do sistema, mas que será influenciado
por sua amizade com Finnerty, um rebelde revolucionário, e
vai se transformar lentamente num adversário não-declarado
do poder. Procura só uma ocasião adequada para "mandar
tudo ao inferno" e voltar à vida campestre, longe das
máquinas e dos computadores, onde sonha encontrar os prazeres
simples do camponês em comunhão com a natureza.
Vonnegut, como ótimo escritor
e artista que é, não iria se render à fórmula
dos escritores medíocres, que fariam de Proteus um grande herói,
um rebelde que vence todas as barreiras e alcança a felicidade,
o profeta que salvará a humanidade de sua condição
difícil. Vonnegut não está interessado em consolos
fáceis e finais felizes: em última análise, Paul
Proteus é totalmente esmagado pelo poder contra o qual se volta,
e a Revolução é um completo fracasso. Seria medíocre
fazer a revolução se desenrolar no mundo imaginário
do romance, só para entregar ao público emoções
baratas e um otimismo ilusório. Vonnegut questiona a própria
possibilidade real de uma revolução como imaginada por
Proteus, isto é, uma revolução que fosse retroativa
no campo da tecnologia. É como se perguntasse: seria realmente
possível retornar o mundo ao estado "primitivo"
e desmaquinizado? E, além disso, será isso desejável?
A resposta que resplandece após
o fim do romance parece ser: não, não é possível
retornar uma sociedade ao estado tecnológico anterior. O motor
da História segue em frente, sempre em frente, sem volta. Seria
o mesmo que querer que os Estados Unidos da América retornasse
ao estado tecnológico do começo dos anos 80, quando
a World Wide Web como a conhecemos não existia. Agora, 25 anos
depois, com dezenas de milhões de norte-americanos com um contato
direto com essa tecnologia, não é possível esse
retorno na história. A Revolução fracassada no
livro de Vonnegut faz algumas máquinas em pedaços, pensando
estar fazendo um bem ao homem-comum. Mas logo vem a desilusão:
os homens comuns coletam as peças quebradas a fim de construir
novas máquinas. Estão culturalmente programados a agir
no mundo com as máquinas, e não conseguiriam (nem desejam)
voltar ao estado "campestre".
Vê-se já quão útil
pode ser essa obra de Vonnegut para os problemas de nosso tempo. Mas
certamente ele não está só na meditação
sobre isso. Alguns exemplos de outras pessoas pensando o problema:
Saramago, em A Caverna, enfocou tema similar: a tecnologização
tirando o emprego do homem comum, este homem comum tentando se adequar
aos modos de vida do Centro tecnológico, e finalmente recusando-o
e voltando para o idílio campestre. Kubrick em 2001
também focaliza dois astronautas tiranizados pela inteligência
artificial do mega-computador HAL, o qual realiza todas as funções
principais da aeronave, sendo que os humanos foram reduzidos a meros
funcionários de manutenção e vigilância.
O próprio Inteligência Artificial, de Spielberg,
baseado em Philip K. Dick, coloca os computadores inteligentes fazendo
o papel de filho perfeito: as máquinas como substitutos afetivos
dos humanos imperfeitos e frágeis. Por cima de tudo, no mundo
mainstream, é inevitável deixar de falar em Matrix,
onde a humanidade foi subjugada quase completamente pelas máquinas,
que mantêm a imensa maioria dos humanos com a mente presa a
uma simulação computacional...
Cada vez mais, a arte moderna tende
a enfocar o combate homem x máquina como um dos dilemas fundamentais
do nosso tempo. O Player's Piano de Vonnegut continua, além
de uma diversão formidável e uma obra de arte coesa,
uma leitura fundamental e bastante prolífica para pensar esses
dilemas.