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AS VINHAS DA
IRA de John
Steinbeck
"As Vinhas Da Ira" é mais que um livro: é quase um
Monumento Americano, daqueles que exige respeito e veneração idênticos ao
que alguns sentem frente à Estátua da Liberdade ou à Casa Branca...
Exagero? Talvez. Mas é quase unânime a opinião de que o clássico de John
Steinbeck merece, pelo menos, ser guardado num santuário como uma das
preciosidades mais valiosas na história da literatura made in USA no
século 20 - segundo Leo Gilson Ribeiro, é "um dos três ou quatro livros
americanos claramente discerníveis como obras-primas" (Caros Amigos # 59)
- o que não é dizer pouco.
Lançado em 1939, o livro causou impacto imediato,
conseguindo a proeza de se tornar rapidamente um clássico em várias
frentes: “As Vinhas da Ira” foi um marco na história do jornalismo
literário e da grande reportagem, um modelo inimitável de “literatura
engajada”, e claro, um clássico instantâneo da literatura americana como
um todo. Pra destacar a importância dessa obra, é só lembrar que a
obra-prima de John Steinbeck (1902-1968) recebeu o Prêmio Pulitzer, foi
diretamente responsável pela premiação de seu autor com o Nobel de
Literatura em 1962 e foi magistralmente adaptada para o cinema pelo grande
John Ford, talvez o maior dos mestres do western em todos os tempos, já em
1940.
"As Vinhas Da Ira" é um retrato detalhado de uma época
conturbada da história norte-americana, feito através de uma narração
literária impecável - mas isso não é tudo: o livro contêm ainda fragmentos
de um protesto político feroz e empolgante. Steinbeck não só se
pôs a contar uma bela história, e com um talento literário e jornalístico
inegável, mas também povoou essas páginas com seus gritos de indignação e
rebeldia, com vários chamados à misericórdia e à união... Dá até pra dizer
que esse é um dos melhores livros-reportagem já escritos, se nosso
conceito de livro-reportagem não for muito restrito e excludente, já que a
utilização de personagens fictícios não impede que a obra seja um retrato
fiel de uma situação histórica real. Arrisco até a dizer que “As Vinhas Da
Ira” foi na história da literatura americana algo parecido ao que “Os
Sertões”, de Euclides da Cunha, foi para a brasileira. Além disso, o
"manifesto político" de Steinbeck que ainda não perdeu nada de sua
relevância. Só pensar no fato incrível de que um livro de mais de 60 anos
de idade – e gringo, ainda por cima... - pode servir perfeitamente para
refletir sobre MST, concentração fundiária e reforma agrária no Brasil da
década 2000...
Com certeza Steinbeck nunca pretendeu fazer com "As
Vinhas da Ira" nada parecido com "jornalismo imparcial", nem muito menos
com uma literatura que fosse meramente descritiva e factual. Não estaria
errado chamar esse livro de um "romance de esquerda" ou um exemplo do que
é fazer "literatura engajada" - apesar do perigo de ficar colocando esses
rótulos redutores, que podem acabar por fazer de uma obra-prima literária
algo que parece ser mera “propaganda ideológica”.
Steinbeck
toma posição, explicitamente, a favor de um determinado estrato
social e se coloca como simpatizante e defensor da "causa camponesa". Não
vejo problema nisso - onde já se viu dizer que bom escritor tem que ser
apolítico e neutro? Pelo contrário: acho até bem empolgante e louvável ver
um autor que põe a literatura no campo de batalha e acredita nos
poderes dos livros para transformarem o mundo (ou ao menos transformarem
os homens - que depois mudarão o mundo...). Steinbeck é um autor lutando
ao lado do povo, que empunha suas palavras como se fossem armas e
utiliza as imagens literárias, e as vidas de suas criações fictícias, como
argumentos na luta política real...
Os eventos descritos no romance
ocorrem durante a Grande Depressão do começo dos anos 1930, época em que
os EUA passavam por maus bocados. Após a quebra da Bolsa de Nova York em
1929, fato simbólico do início de um período de dura recessão econômica,
que se estenderá até mais ou menos 1935, a situação está meio preta na
terra do Tio Sam. Em alguns estados do Leste americano, especialmente
Oklahoma, a crise econômica não é a única catástrofe com que os camponeses
precisam lidar: uma tempestade de poeira violentíssima, conhecida por lá
como Dust Bowl, faz com que os campos rurais sejam dizimados, o que obriga
a população camponesa a fugir em direção ao Oeste numa enorme diáspora -
alguns calculam em mais de 100 mil imigrantes...
Grande parte de
"As Vinhas da Ira" narra um período na vida de uma família de camponeses,
os Joad, pequenos arrendatários de terra trabalhando na agricultura em
Oklahoma. Tom Joad, o segundo filho, acaba de sair da prisão e retorna à
casa da família, encontrando o lugar absolutamente devastado e abandonado.
Algo de feroz e impiedoso arrasara aquelas terras, agora ermas e
silenciosas, cobertas de poeira e desertidão... Motivados por folhetos
publicitários que convocam trabalhadores às centenas a irem até a
Califórnia, e iludidos por doces sonhos de que encontrarão um paraíso em
seu destino, a família Joad pega a célebre rodovia 66, afastando-se à
força de seu lar e da terra que amam. Para trás ficam as casinhas
desertas, nos campos agora dominados pela poeira e pelas
máquinas.
Intercalando-se aos capítulos que contam a saga da
família Joad, aparecem alguns "ensaios político-econômico-sociais" que,
numa linguagem poética e arrebatada, são como pequenos manifestos de
Steinbeck. Neles o narrador toma a palavra para si, deixando seus
personagens temporariamente em segundo plano, como que adormecidos, para
logo fazê-los retornar ao centro palco a fim de provar com um exemplo
particular o que estava dizendo sobre a situação geral.
* * * *
*
Não foi somente a ira da natureza em descontrole a responsável
pela metamorfose. Aqueles campos foram invadidos por algo mais: o espírito
capitalista, o industrialismo, a mecanização rural. O campo havia sido
dominado pelas forças do mercado, que Steinbeck pinta com cores negras,
cheio de rebeldia. Os bancos e as companhias privadas - essas "criaturas
que não respiram ar, nem comem carne: elas respiram lucros e alimentam-se
de juros" - haviam avançando com seus tratores para perturbar a vida
pacata e tranquila de milhares de camponeses, entregues desde então ao
desemprego e à fome...
O narrador-manifestante, enquanto a família
Joad penetra na rota 66, vai se lamentando pelo ocorrido, praguejando e se
rebelando contra a desumanização do campo e contra o uso da terra como
instrumento industrial. Amedrontado pela invasão dos monstros de ferro, o
narrador parece temer que os campos se transformem em lugares desertos,
sem seres humanos, onde engrenagens e mecanismos industriais exploram a
terra, sem nenhum sentimento e nenhuma gratidão: "a satisfação que o
trabalho proporciona desaparece" e "com o sumir do encanto some-se também
a profunda compreensão e ligação do homem à terra" (pg. 154).
Os
Joad, apenas uma entre milhares de famílias na estrada, tem também suas
sérias dificuldades. Além da falta de dinheiro, dos problemas no veículo,
do cansaço e da doença, acabam enfrentando duas mortes na viagem. Porém,
algo de notável e revigorante surge nos acampamentos onde os camponeses se
juntam às beiras da rodovia: surge nesses "mundos móveis" um forte
espírito de misericórdia e de ajuda mútua.
Nesses lugares
"acontecia uma coisa estranha", diz o narrador:
"as vinte famílias tornavam-se uma só família, os filhos de
uma eram filhos das outras, e de todas. A perda de um lar tornava-se uma
perda coletiva, e o sonho dourado do oeste um sonho
coletivo" (pg. 262). A Mãe, mais à frente,
conversando com Rosa de Sharon, sua filha grávida, profetiza:
"Virá o tempo em que tudo isso vai mudar, quando a morte será
parte da morte geral, e o luto uma parte do luto geral, e morte e luto são
as duas partes de uma mesma coisa. E aí não vai ter mais coisas pessoais.
E aí uma dor não mais doerá tanto, porque não será mais apenas uma dor
pessoal..." (pg.
282).
Essa explosiva união de gente com muito pouco a perder começa
a preocupar os poderosos, que viam nos "mundos móveis" perigosos locais de
subversão d'onde poderiam eclodir revoltas e revoluções. "Os grandes proprietários
inquietavam-se, pressentindo a metamorfose sem atinar com a sua natureza.
(...) A causa escondia-se bem fundo e era simples - a causa era fome,
barriga vazia, multiplicada em milhões; fome na alma, fome de um pouco de
prazer e um pouco de tranquilidade, multiplicada em
milhões" (pg. 201).
Essas
multidões de americanos, provindo do Leste, que trabalham por merrecas nas
grandes propriedades do Oeste, "famintos e ferozes", que "tinham tido a
esperança de encontrar um lar e só encontravam ódio", eram chamados
pejorativamente de okies. Essa gíria é o equivalente a algum dos
inúmeros xingamentos que as pessoas do Sudeste brasileiro dirigem aos
migrantes nordestinos, por exemplo. As multidões de migrantes que chegam à
Califórnia, cheios de esperança, são tratados com ira e fúria e obrigados
a morar nas periferias miseráveis, as Hoovervilles.
Ao redor,
enormes campos vazios e improdutivos que poderiam estar sendo utilizados
para alimentar todas aquelas pessoas famintas, mas que estavam
inacessíveis: a lei legitimava a propriedade privada dos latifúndios, e o
crime contra a humanidade estava legalizado.. soa familiar? Quem ousasse
invadir a terra para plantar seria tratado com os devidos mecanismos de
repressão policial e estatal. O narrador-manifestante, profético, faz suas
premonições sobre os resultados a que levaria essa situação insustentável,
e continua sua crítica pesada contra seus
inimigos:
"...os grandes proprietários, que têm acesso à história, têm
olhos para ler histórias e saber do magno fato: a propriedade, quando
acumulada em muito poucas mãos, está destinada a ser espoliada. E do fato
complementar também: quando uma maioria passa fome e frio, ela tomará à
força aquilo de que necessita. E também o fato gritante, que ecoa por toda
a história: a repressão só conduz ao fortalecimento e à união dos
oprimidos. Os grandes proprietários ignoraram os três grandes gritos da
história. A terra acumulou-se em poucas mãos, o número dos despojados, dos
espoliados cresceu, e todos os esforços dos grandes proprietários
orientavam-se no sentido da repressão. O dinheiro era gasto em armas e
gases para proteção das grandes propriedades, e espiões eram enviados com
a missão de descobrir conspiratas latentes que precisavam ser abafadas. A
transformação econômica era ignorada, planos para a transformação não
tomados em consideração; e apenas os meios de destruir as revoltas eram
levados em conta, enquanto as causas das revoltas permaneciam
irremediadas" (pg.
322).
Há um limite na capacidade de um homem suportar a fome e a
desgraça, e após atingido um certo ponto de saturação este homem
se torna uma bomba relógio de dinamite pura. Como Knut Hamsun em
"Fome" e Joseph Conrad em alguns treços de "Coração das Trevas", Steinbeck
também destaca a força sobre-humana que se exige de um esfomeado ao qual
se pede que aja de acordo com os preceitos do direito e da moral da
civilização. "Como é que se pode incutir medo num homem que não sente
fome apenas em seu estômago, mas também na barriga torturada dos filhos?
Não se pode assustar um homem assim... ele já passou por todos os
transes" (pag 320).
Da
mesma maneira que Marx, nos momentos em que se deixava dominar pelo
espírito messiânico, acreditou que o movimento histórico iria
inevitavelmente acabar gerando o comunismo, Steinbeck faz seu narrador ser
o porta-voz da vitória final dos oprimidos: a inevitabilidade histórica da
vitória dos pequenos camponeses sobre os latifundiários é constantemente
prometida nos "manifestos".
Os grandes
proprietários
"sentiam-se diante de um pavor permanente: trezentos mil...
se um dia esses trezentos mil tiverem um chefe, será o fim. Trezentos mil
famintos e miseráveis; se algum dia eles descobrirem a sua própria força,
nesse dia as terras lhes pertencerão, e não haverá força alguma, não
haverá quantidade suficiente de armas para detê-los. E os grandes
proprietários, que através das suas empresas tornavam-se ao mesmo tempo
mais e menos que simples seres humanos, corriam para a sua própria
destruição, e usavam todas as armas que concorriam para a sua própria
destruição. Todos os pequenos meios, toda a violência, todos os ataques
policiais às Hoovervilles, todos os agentes de polícia que, peito
estufado, vagueavam por entre os acampamentos dos esfarrapados, adiavam um
pouco a chegada do dia da destruição e contribuíam para a infalibilidade
da chegada desse dia" (pág.
322-323).
* * * * *
Mas engana-se quem se põe a ler "As
Vinhas da Ira" esperando um livro ingenuamente "otimista", que deixaria
pra trás todo o realismo e sensatez pra se transformar em um ilusório
livro sobre uma revolução das classes oprimidas perfeitamente
bem-sucedida. A obra de Steinbeck, bastante realista, não se renderá a
finais felizes e soluções fáceis. O livro é sim um chamado à luta (um
sonoro "Pequenos camponeses de todo mundo, uni-vos!"), mas a vitória dos
oprimidos, caso se concretizasse no livro, o transformaria num sentimental
e falso júbilo por uma vitória que, no mundo real, não chegou a
ocorrer.
O problema persiste, e não foi somente um momentâneo
período de dificuldades econômicas durante a Grande Depressão - e nem é só
um fenômeno circunscrito aos EUA. O Brasil de 2007 ainda passa por uma
situação muito similar: imensa concentração de terra na mão de poucos (com
certas fazendas com territórios maiores que países europeus...),
mecanização agrícola causando alto desemprego estrutural no campo, queima
de safras para manter preços enquanto 50 milhões de brasileiros estão
perto de passar fome... Sem falar que as Hoovervilles não são muito
diferentes dos acampamentos do MST e que o governo e a polícia, muito mais
que atentar para as causas da situação, investem em opressão, em
guerra ideológica e midiática, em chacinas sanguinolentas como a de
Eldorado de Carajás...
As imagens finais do romance são poderosas
(e infelizmente não foram aproveitadas na adaptação cinematográfica de
John Ford, que termina de um modo bem menos marcante...). Tio John, que
recebe a incumbência de enterrar o filhinho recém-nascido de Rosa de
Sharon, resolve deitar o feto ensanguentado no leito de um rio, para que
este seja levado pelo fluxo e mostre aos inimigos o crime que eles
cometeram. A "mumiazinha", morta após ser tão chaqualada e sentir-se tão
esfomeada durante os nove meses de gestação, flutua morta rio abaixo, indo
mostrar o tamanho da brutalidade que os latifundiários e poderosos estavam
criando.
Após esse sepultamento fluvial, com o aperto da
tempestade, os Joad são obrigados a ir embora, e em certo momento de sua
viagem param em um galpão para se abrigar da chuva, onde se desenrolará o
ato final do romance. Um homem e seu filho também estão abrigados no
local, e o garoto avisa aos recém-chegados sobre a difícil condição de seu
pai, que não come nada há muitos dias. As mulheres da família Joad - Mãe e
Rosa de Sharon - entreolham-se e, sem palavras, compreendem-se
perfeitamente e sabem o que têm de fazer. Pedem aos homens que
deixem o local, e então Rosa, com os seios cheios do leite que deveria ser
dirigido ao seu filho, oferece o seu líquido à boca do estranho
esfomeado.
E então, mesmo que o mundo inteiro esteja contra eles,
mesmo que a Natureza os castigue com tempestades de poeira e dilúvios,
mesmo que a polícia lhes espanque como moscas, mesmo que os proprietários
os explorem e os tratem como burros de carga, eles sabem que ao menos
venceram em um aspecto – e num dos mais importantes. Sabem que são seres
humanos que não pisam na cara de outros entes humanos, sabem que não tem
nem ganância excessiva nem um egoísmo gigante que impeçam um ato de
caridade, sabem que, enfim, apesar de tudo, tem um coração onde ainda flui
um pouco de compaixão, e que, apesar de tudo, da miséria, da fome, da
humilhação, mantiveram dentro de si uma sensibilidade e uma dignidade
humana num mundo de pedra e dominado pela brutalidade. Num livro
totalmente dominado pelo chamado à união e à misericórdia, a moça que
oferece o seio cheio de leite à boca de um desconhecido esfomeado é o
fecho perfeito para um livro primoroso: não conheço símbolo mais bonito
que ilustre o que significa solidariedade e
caridade.
CAMINHOS
ALTERNATIVOS: CAROS
AMIGOS (Leo Gilson Ribeiro) BRAVO!
PLANO
A PLANO
ALBA
OLMI ROTTEN
TOMATOES MIL
FOLHAS CMI BRASIL: AS
VINHAS DA IRA E MST
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