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CREPÚSCULO DOS
ÍDOLOS
Reações Psicóticas chega ao Brasil
como um livro de interesse não só para quem se interessa por rock and roll
e crítica musical, mas para um público mais vasto que se liga em
literatura contracultural e jornalismo alternativo. Porque Lester Bangs,
para muitos, é mais que um cara que escrevia sobre rock: seu texto
impetuoso e caótico, inspirado principalmente pela prosa beat de Kerouac,
Burroughs e Ginsberg,
demonstra que estamos frente a um escritor talentoso: seu texto muitas
vezes chega a ser mais saboroso e interessante do que o próprio objeto de
que trata nele. Além disso, suas matérias, que caíam freqüentemente no
confessionismo e no subjetivismo mais deslavado, fazem também com que seja
possível classificá-lo como integrante da turma do Jornalismo Gonzo – algo
como o “Hunter Thompson da crítica de
rock”. Também é costume atribuir a Bangs o status de “resoluto
advogado do punk” (o termo é de Brian James), e talvez o primeiro deles.
Desde o fim dos anos 60, quando começou a popularizar o termo “punk”,
Lester foi um dos poucos críticos que ousou sugerir um outro paradigma
para julgar o que era ou não “boa música”, tendo a coragem e a
sem-vergonhice de elogiar muitas bandas e artistas que críticos mais
eruditos considerariam como puro lixo trash e tosco. Que outro crítico do
mundo faria um elogio apaixonado às Shaggs e chegaria a sugerir que a
melhor coisa que um músico tem a fazer é NÃO aprender a tocar seu
instrumento? Sim, Lesters Bangs julgava muito mais com o coração do que
com o cérebro – mas quem foi que disse que o rock and roll é uma questão
de razão e não muito mais uma questão de sentimento? Para ele, música boa
não é música “bem tocada”, nem música produzida por “músicos talentosos”,
nem música repleta de exibições de virtuosidade, mas simplesmente aquela
que nos acende os corações, nos enche de excitação e nos faz sentir vivos.
A mensagem, como a entendo, é basicamente essa: de nada adianta que
empilhemos o número de notas que tinham os solos do Emerson, Lake and
Palmer, o número de horas de estúdio que o King Crimson gastava tentando
polir os seus álbuns ou os 975 acordes estranhos e complexos que o Pink
Floyd utilizava em suas composições, porque nada disso é parâmetro para
julgar se uma música é boa ou não; nada disso garante que a música irá nos
dar tesão.
DEMOLINDO
ÍDOLOS Lester Bangs era o tipo de jornalista musical imune a
qualquer tipo de subserviência ao star-system: esse cara nunca seria
corrompido por um jabá a escrever um texto louvando o Emerson, Lake &
Palmer ou uma matéria toda-elogios para alguma nova sensação hypada. O exemplo que ele dá a
todos aqueles que desejam fazer crítica de rock e jornalismo musical é
seminal, demonstrando que a fidelidade a si mesmo e à sua própria paixão
não se pode deixar corromper por interesses do órgão de imprensa ou pelas
pressões feitas pelas gravadoras para que se fale bem daquilo que elas
querem que venda bem. Lester marcou época porque ousou falar mal de muita
gente que ele considerava indevidamente sacralizada e recusou o fanatismo
bobalhão e descerebrado que constantemente é marca dos fãs de bandas de
rock, acabando por “virar o açougueiro do maior número possível de vacas
sagradas”, como diz Brian
James. Nietzsche dizia filosofar com o martelo, mais para demolir
do que para construir, e Lester Bangs parece se apropriar da mesma técnica
e utilizá-la na crítica de rock. Sua importância está mais no que ele recusa do que naquilo que afirma.
E o que ele recusa, e com um não
estrondoso, é a idealização dos pop-stars, a pagação-de-pau otária aos
“deuses do rock”, a pomposidade e a pretensão dos progressivos, todo tipo
de música que deixa de ser expressão de paixão para virar exibicionismo e
punheta. Talvez por isso Bangs gaste tanta munição, através de muitas
das páginas de Reações
Psicóticas, somente demolindo
ídolos: ao que parece, ele não quer que continuemos eternos
adolescentes babando de admiração idiota frente a estrelas que no fundo,
como ele vai procurar mostrar, são todas humanas, demasiado humanas.
“Heróis são uma puta coisa estúpida de se ter” (pg. 81), diz em seu tom
cru, no clássico trecho de seu artigo sobre Lou Reed no qual ainda diz que
todos os heróis “estão aí pra tomar porrada”, que são todos “uns
miseráveis cães sarnentos, os párias da terra” e que “a única razão para
se construir um ídolo é jogá-lo por terra novamente” (pg.
81). Então dá-lhe porrada pra cima de mitos “sagrados” como John
Lennon, Elvis Presley, Iggy Pop e Lou Reed: todos eles são
sistematicamente dessacralizados. Elvis, por
exemplo, na ótica de Bangs, “obviamente nada mais era do que um pobre
garoto sulista burro com um empresário paizão” (pg. 115), “um porra dum
motorista de caminhão que idolatrava a mãe e jamais diria merda na frente
dela” (pg. 121) - e “nós todos faríamos melhor em dar-lhe adeus com o dedo
médio levantado” (pg. 117). E John Lennon, cuja morte não parece ter
causado muita comoção em Bangs, era “só um cara”. Essas opiniões, que
parecem cuidadosamente arquitetadas para levantar polêmica e arrancar
protestos inflamados dos fãs, fazem parte dessa técnica de demolição de
ídolos e da idolatria em si. E será que essas
palavras tem alguma outra intenção senão exatamente essa: provocar os fãs
e, de certo modo, tentar minar um pouco o “excesso de fanatismo”? É bem
provável. É claro que, no fundo, Lester Bangs está longe de odiar
esses artistas com desprezo total, como pode parecer à primeira vista - as
coisas são mais complicadas. Uma das características mais peculiares em
Bangs é mesmo sua relação de amor e ódio com seus “heróis”: ele é o tipo
de cara capaz de soltar os insultos mais nojentos e os elogios mais ternos
para um mesmo artista no decorrer do mesmo texto, demonstrando uma
ambivalência emocional gritante. É porque “todo crítico de rock é um
músico frustrado”? Talvez. Talvez Lester Bangs nunca tenha podido perdoar
seus heróis por serem heróis enquanto ele, Lester, nunca pôde se tornar um
rock-star... Lou Reed, a quem é dedicado o mais extenso, o mais clássico
e o mais hilário dos artigos presentes em Reações Psicóticas, é o símbolo
perfeito dessa ambivalência emocional. O mesmo Bangs que se derretia em
elogios ao White Light / White Heat
do Velvet Underground e que considerava Reed um baita dum herói (“Lou
Reed é meu herói principalmente porque ele representa as coisas mais
fodidas que eu jamais conseguiria sequer conceber” – pg. 78), se põe a
xingá-lo de um jeito exagerado e raivoso. Só pra ter uma idéia, Lester diz
que Lou Reed é “uma nulidade
para consumo das massas”, “um pervertido depravado completo”, “um duende
patético da morte”, “um talento desperdiçado”, “um mascate vendendo quilos
de sua própria carne”, “um gigolô vivendo do niilismo bronco de uma
geração anos 70 que carece da energia para cometer suicídio”, “uma
monumental piada sem graça de si mesmo” (pg. 76) e alguém que no palco
“conseguiria adicionar um capítulo inteiro aos anais do mau gosto” (75).
Estranho modo de se referir a um “herói”! E, vejam a ironia, Bangs
certamente foi menos brutal
quando se tratava de falar mal do Emerson, Lake & Palmer, que ele
dizia odiar mais que
tudo... Bangs compreende a fascinação que os mitos do rock geram em
muitos de nós com seus comportamentos auto-destrutivos e suas vidas
intensas e insanas. Olhando para a história do rock, não é difícil notar
que acabamos por sacralizar toda uma série de garotos perdidos que
seguiram à risca o evangelho do live fast, die young e do sex, drugs and rock and roll e que
acabaram passando pela Terra como estrelas cadentes, de brilho efêmero mas
marcante. A mitologia do rock and roll está repleta de apologias à morte
na juventude e a uma vida que se consume e se destrói rapidamente devido à
intensidade maníaca com que é vivida. “Espero morrer antes de ficar
velho!”, cantava o The Who num dos maiores clássicos da história do
rock and roll, “My Generation”. E Kurt Cobain, como se sabe, disse algo
parecido ao estampar o verso de Neil Young em sua carta de suicídio: “It`s better to burn out than to fade
away...”
Qualquer um que tenha se aventurado a ler Mate-me Por Favor!, livro de Legs
McNeil que conta a história sem censura do punk americano, sabe o tamanho
do fascínio que havia por tudo o que era trash, nojento e esquisito
naquela Nova York que viu surgir o Velvet, os Stooges, os New York Dolls,
a Patti Smith, os Ramones, o Richard Hell e toda a cena que margeava o
CBGBs – e Lester Bangs estava lá pra ver tudo de camarote. Iggy Pop, por
exemplo, se tornou um deus do rock rolando sobre cacos de vidro, vomitando
sobre as primeiras fileiras do público e arrumando brigas sérias com
motoqueiros encrenqueiros, e todos o adoravam justamente por isso: porque
ele era completamente insano e porque era um performer que parecia
possuído pelo demo e porque parecia estar cagando e andando para o fato de
viver ou morrer. “O mito heróico central dos anos 60 era o detonado. Viva
rapidamente, seja mau, encrenque-se, morra jovem”, resume Bangs (pg. 78).
Isso não ficou restrito aos anos 60, claro, uma década que também ficou
marcada pelo hippismo e suas mensagem de paz-e-amor e flower power - e
talvez tenha se exacerbado muito mais nos anos 70, com o levante punk e a
divinização de tudo o que é trash, tosco e imundo, e nos anos 90, com a
idealização das sombras e do niilismo via Seattle.
Lester Bangs conheceu essa fascinação, e certamente tentou
imitar todos esses “anjos caídos” que se transformaram em “heróis
culturais”. “Eu mesmo sempre quis imitar o filho-da-puta mais
autodestrutivo que eu visse, caso ele se comportasse com algum senso de
estilo”, confessa (79). Houve um tempo em que ser fodido, decadente,
junkie e niilista era a coisa mais cool do mundo, e havia jovens que
dariam tudo pra viver uma vida igualzinha à de Sid Vicious, mesmo que isso
significasse deixar esse mundo aos 21 anos de idade.
É interessante notar que a resenha que dedica ao Astral Weeks de Van Morrison,
publicada em 1979, apesar de aparecer como o primeiro texto em Reações Piscóticas, é posterior
aos escritos que dedicou ao Iggy Pop e ao Lou Reed, o que demonstra bem o
quanto Bangs, ao fim dos anos 70, estava mudando seus ídolos e valores e
cada vez condenando mais o niilismo, a auto-destruição e a estilização da
decadência. É um baita dum sinal de mudança que Lester Bangs, o
mega-defensor do punk, possa ter conseguido admirar tanto o clássico debut
de Van Morrison, uma obra-de-arte que de punk não tinha absolutamente
nada: era muito mais um documento místico de uma busca espiritual. Astral Weeks, comenta Lester,
“assumiu na época a importância de um farol, uma luz nas praias longínquas
das trevas; e mais, era uma prova de que havia ainda algo a ser expressado
artisticamente além de niilismo e destruição” (pg. 22). Prova de que Bangs
não era uma pessoa tão simplista, nem seus gostos musicais tão “fechados”,
nem suas idéias sobre as funções da arte tão bobocas quanto às vezes seus
caricaturistas fazem
parecer.
RESSALVAS Brian James, em excelente artigo na revista eletrônica Pop Matters, foi um dos que ousou fazer uma crítica mais séria à escrita bangsiana. “Lester Bangs foi inquestionalvelmente um escritor talentoso, que demonstrou seu dom em uma idade precoce, mas que do mesmo modo que muitas crianças precoce, continuou seus esforços para impressionar com um exibicionismo que ultrapassava bastante o ponto que o bom gosto recomendaria”, critica Jones, que em seguida aponta uma certa contradição entre as convicções “anti-prog” que Bangs tão explicitamente adotava e os seus procedimentos de escrita:
Além disso, Reações
Psicóticas, um pocket-book fininho, está longe de fazer a devida
justiça ao trabalho de Lester Bangs: serve, no máximo, como uma
introdução, um ponto de partida. Algumas omissões graves fazem com que
essa coletânea não seja o retrato mais completo e adequado das idéias do
cara: faltou algum artigo que deixasse mais claro o vínculo estreito de
Bangs com o punk rock (que ele amava e que cujo “charme” ele ajudou a
explicar), além de textos que demonstrassem que os interesses do crítico
iam muito além do rock and roll (Bangs também era um grande curtidor e
conhecedor de jazz). Alguns de seus artigos mais seminais, como o hilário
How To Be A Rock Critic (um
irônico manual de instruções para críticos iniciantes), o excelente artigo
Free Jazz Punk Rock (que
estabelece as conexões entre o free jazz e o punk rock, chamando atenção
para o fato de que ambos colocaram fogo no Livro de Regas e libertaram o
artista de correntes e estereótipos), sem falar de outros fundamentais
textos dedicados a artistas como Captain Beefheart, Brian Eno e Patti
Smith, poderiam ter entrado em Reações Psicóticas no lugar de
textos um tanto supérfluos, como os dedicados ao Kraftwerk e Jethro
Tull. De qualquer modo, o livro dá um bom panorama da escrita
caótica, estilosa e inspiradora de Bangs. Mais que tudo, Lester Bangs não
se resignou a ser um crítico de rock passivo que observa de fora o desenrolar de
seu objeto de estudo – viveu e morreu (muito cedo, aliás, aos 33, como
todo bom mito) com os dois pés, todos os ossos e a alma inteira afundanda
na lama do rock and roll. “Expression of passion was basically
why music was invented in the first place”, dizia ele, e em sua
escrita ele pôs em prática o mesmo princípio. As idéias que ele abraça
podem ser duvidosas, o estilo pode ser um tanto confuso e tempestuoso, o
exibicionismo chega por vezes a ser um tanto excessivo, mas há um fato que
não se pode negar: Lester Bangs, o crítico de rock que mais marcou a
história do rock, punha uma paixão maníaca em tudo o que escrevia. E nos
convidava a abordar o rock and roll com o mesmo espírito, com a mesma
excitação e com a mesma energia.
(Maio de 2006) |