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A Editora L&PM acaba de colocar no mercado nacional 4 livros do
romancista americano David Goodis (1917-1967), um dos maiores expoentes da
chamada Literatura Noir no século 20. Apesar de ser colocado no mesmo
balaio que caras como Raymond Chandler e Dashiell Hammett, a obra de David
Goodis também detêm certas semelhanças com a dum Jack Kerouac, dum Henry
Miller ou dum Charles Bukowski - principalmente com este último. À
maneira do velho Buk, as páginas de Goodis estão repletas de histórias
envolvendo mulheres, bebedeiras e tragédias da vida cotidiana, se bem que
de um modo mais sombrio e um humor mais negro. Com a publicação de A Lua Na Sarjeta, A Garota de Cassidy, Sexta-Feira Negra e Atire No Pianista! (que
virou clássico da nouvelle vague francesa nas mãos de
François Truffaut em 1960), o público brasileiro tem agora a oportunidade
de mergulhar nos escritos de Goodis e descobrir um autor de grande
talento, dotado de um lirismo cru, de uma concisão sem firulas
e capaz de descrições tão vívidas que chegam a ser “cinematográficas” – dá
pra “assistir” a um romance do cara (que trampou como roteirista em
Hollywood nos anos 50) como se fosse um filme - e dos bons.
David Goodis é mestre em descrever ambientes suburbanos tenebrosos
onde perambulam sem rumo alguns personagens outsiders, alcoólatras,
noctívagos e sempre às beiras de cometerem atos de violência - contra
os outros e contra eles mesmos. Alguns aproveitaram para apelidá-lo como
O Poeta dos Losers - definição nada má. No
mundo em que habitam os personagens de Goodis, as ruas são todas imundas e
com o calçamento ferrado; as casas sempre miseráveis e arruinadas; lá
fora quase sempre impera uma melancólica noite enluarada; e os
personagens, na maior parte do tempo, passam o tempo no bar enchendo a
cara de uísque barato, arrumando brigas por qualquer ninharia e
conversando, rabugentos, sobre como a vida é uma desgraça. Ou
seja: algo como o equivalente literário das canções do Tom Waits
ou do filme Farrapo Humano, de
Billy Wilder.
Em A Lua Na Sarjeta
(The Moon In The Gutter), de 1953, só aparentemente estamos
frente a uma história de detetive em que o protagonista Kerrigan tentaria
descobrir quem estuprou sua irmã. Na verdade o who-done-it? não
importa muito e a "investigação" é algo de secundário. O
verdadeiro personagem principal aqui, de fato, é a Vernon Street, uma "rua
de marginais, mendigos, bêbados e malucos" (pg. 7) onde o American Dream
nunca chegou perto de acontecer. Tudo o que Kerrigan mais quer na vida é
conseguir abandonar essa maldita cidade perdida, dar adeus aos "cortiços e barracos, às calçadas cobertas de poeira, os
terrenos baldios cheios de lixo, o berreiro dos gatos nos becos escuros, o
calçamento esburacado, a luz do luar e o incansável brilho de uma lâmpada
que iluminava marcas secas de sangue" (128). E também Cassidy
passa quase toda a extensão de A
Garota de Cassidy tentando fugir de seu passado, sua cidade, seu
casamento e sua infelicidade, sonhando se casar com a alcóolatra incurável
Doris e levá-la para longe. A fuga de um passado desastroso também é o que
move o pianista que protagoniza Atire No Pianista!, que muda de
identidade e tenta se refugiar no
anonimato.
Talvez por isso o alcoolismo também seja um dos
personagens de destaque em todo o canto da obra de Goodis. Quase todos os
romances de Goodis tem um boteco onde os personagens se encontram pra
afogar as mágoas no uísque e onde grande parte dos episódios se passam. A Garota de Cassidy, por exemplo,
narra em minúcias a desesperada tentativa de Cassidy de salvar do
alcoolismo a garota por quem está apaixonado, e é com maestria que
Goodis descreve os sentimentos piedosos de Cassidy em relação a Doris, uma
pobre garota perdida que se abandona à uma frenética bebedeira
auto-destrutiva: "Podia ver a garrafa subindo até
seus lábios, depois seus lábios encontrando os lábios da garrafa, como se
esta fosse alguma coisa viva, fazendo amor com ela. Um estremecimento
percorreu Cassidy e, nos profundos veios de sua mente, viu a garrafa como
uma criatura repugnante e grotesca que tinha atraído Doris, a capturara e
deliciava-se com ela, drenando a doce vida do seu corpo enquanto destilava
sua podridão para dentro dela. Viu a garrafa como algo venenoso e
inteiramente odioso, e Doris completamente desamparada sob seu
jugo" (A Garota de
Cassidy, pg. 55). O encontro e a transa de Cassidy e Doris é um dos
momentos mais brilhantes de Goodis, onde aquilo que poderia se tornar uma
cena pornô vulgar se transforma numa cena de uma beleza poucas vezes vista
na descrição erótica literária (talvez só em Anais Nin...) - Henry
Miller nunca seria capaz de descrever uma cena de sexo com tanta ternura e
tanta humanidade...
Sob a
glória encarnada do sol do entardecer e a vasta magnificência de um céu de
opala, os cidadãos da Vernon Street não tinham idéia do que acontecia lá
em cima. Não se davam ao trabalho de olhar para cima e ver. (...) Era como
se a rua tivesse pulmões e os únicos sons que pudesse fazer fossem o
gemido e o suspiro, a aceitação abatida de seu lugar de quarta categoria
no mundo. Lá em cima havia um céu maravilhoso, as cores fabulosas na
órbita do sol, mas simplesmente não fazia sentido olhar para cima e ter
belos pensamentos, esperanças e sonhos." |