É comum que nós, privilegiados filhos da tecnologia avançada do século 21, acabemos frequentemente por nos esquecer do tamanho das vantagens técnicas de que gozamos em comparação com todas as gerações anteriores. Pensemos, como um mísero exemplo (haveriam centenas de outros!), no desagrado que qualquer um de de nós sente se, chegando ao local onde vai passar suas férias, nota que esqueceu em casa sua máquina fotográfica ou filmadora... Que melancolia não toma conta! Que desastre isso não acaba sendo considerado! Parece que algo do prazer da viagem acaba de ser prejudicado irremediavelmente com esse impedimento de registrar os momentos que iremos viver...
Tão acostumados estamos às tecnologias de registro visual e sonoro da realidade que já não sabemos prescindir dessas nossas máquinas - e pensar que por milênios e milênios a humanidade viveu assim, sem nenhum meio além da palavra escrita e das artes plásticas para registrar para a posteridade tudo aquilo que via, ouvia, presenciava e testemunhava... Vejam o tamanho imenso do nosso privilégio: nós podemos tirar fotos e fazer vídeos, levando conosco, na bagagem, pedaços eternizados de nossas vidas, fragmentos sedimentados de nossos destinos, enquanto que por milhares e milhares de anos o homem viveu sobre a Terra sem poder fotografar os momentos cruciais de sua existência... Reclamamos de boca cheia.
Talvez por isso se possa dizer o seguinte: que os avanços tecnológicos que culminaram na invenção da fotografia e do cinema são muito mais do que meras etapas no processo evolutivo dos meios de registro do real: representam também, se nós abrirmos nosso olhar numa perspectiva mais vasta, uma vitória da humanidade inteira contra o esquecimento e contra a morte. Antes, o tempo era um inimigo mais forte e feroz: passava por cima dos momentos vividos sem que pudéssemos retê-los (nenhuma fotografia da Grécia em seu auge, nenhuma do Império Romano, nenhuma de toda a Idade Média... nada, nada, nada!); escrevia-se, pintava-se, esculpia-se, sem dúvida – mas imaginemos que o tamanho de tudo aquilo que foi sedimentado nem se comparada à imensidão daquilo que foi perdido...
Hoje, parece que o Tempo passou a ser uma força menos temível, um inimigo menos poderoso, como se Cronos tivesse diminuído sua ferocidade - já que com nossas fotos e nossos filmes conseguimos registrar os momentos fugazes e sedimentá-los numa forma perene de um modo que a humanidade de todos os séculos anteriores ao 20 não conheceram...
André Bazin
conhecia muito bem a necessidade humana de se defender contra o
tempo – aquele tempo que passa e arrasta consigo, rumo ao
esquecimento, o nosso sempre fugaz presente... Retornando até os
primórdios da história humana, Bazin irá perceber no fenômeno egípcio do
embalsamento e da criação de múmias algo que nos explica o porquê da
necessidade do surgimento das artes plásticas. Não
seriam as duas coisas, a mumificação e as artes plásticas, de certo modo,
análogas, paralelas, semelhantes em suas inteções secretas? Essa
parece ser a hipótese de Bazin, que destaca que os egípcios, preocupados
em encontrar modos para vencer a morte e a passagem destruidora
do tempo, crendo ainda que a conservação material do cadáver serviria como
uma espécie de barreira contra a “nadificação” da pessoa causada pelo
falecimento, pôs-se então a tentar “fixar artificialmente as aparências
carnais do ser a fim de salva-lo da correnteza da duração”.
“Uma psicanálise das artes
plásticas consideraria talvez a prática do embalsamamento como um fato
fundamental de sua gênese. Na origem da pintura e da escultura,
descobriria o ‘complexo’ da múmia. A religião egípcia, toda ela orientada
contra a morte, subordinava a sobrevivência à perenidade material do
corpo. Com isso, satisfazia uma necessidade fundamental da psicologia
humana: a defesa contra o tempo. A morte não é senão a vitória do tempo.
Fixar artificialmente as aparências carnais do ser é salva-lo da
correnteza da duração: aprumá-lo para a vida.”
Bazin
admite que, com o desenvolvimento paralelo da arte e da civilização, e com
a decadência dos povos supersticiosos e das formas primitivas da religião,
parou-se de dar tamanha relevância ao embalsamento ou mumificação de seres
humanos, como bem sabemos. Mas isso de modo algum significaria que a
humanidade teria deixado de estar atormentada pela necessidade de fazer
frente ao tempo. Ao invés de se fazer mumificar, um rei ou um imperador,
dali em diante, irá solicitar que algum pintor lhe fixe a aparência num
quadro, imortalizando-se a partir desta imagem sua. A diferença entre
fazer-se pintar e fazer-se mumificar é clara, óbvia, gritante; mas talvez
possamos enxergar, nos dois processos, um mesmo anseio humano: o de
subtrair-se à temporalidade. Os pintores, naturalmente
impossibilitados de “mumificar” paisagens, cenários e pessoas, põe-se a
pintar tendo como intenção, talvez até mesmo inconsciente, para alguns, de
captar essas aparências efêmeras num canvas que teria vocação para a
eternidade.
Portanto, permanece o anseio humano fundamental de
procurar vencer a corrente do esquecimento que nos arrasta a partir dessa
“fixação” das aparências, função para a qual as artes plásticas foram, em
sua gênese, concebidas. É o que comenta Bazin:
“É ponto pacífico que a evolução paralela da arte e da
civilização destituiu as artes plásticas de suas funções mágicas (Luís XIV
não se fez embalsamar: contenta-se com seu retrato, pintado por Lebrun).
Mas esta evolução, tudo o que conseguiu foi sublimar, pela via de um
pensamento lógico, esta necessidade incoercível de exorcizar o
tempo. Não se acredita mais na identidade ontológica de modelo e
retrato, porém se admite que este nos ajuda a recordar aquele e, portanto,
a salva-lo de uma segunda morte
espiritual.”
* * *
* *
A FOTOGRAFIA E O CINEMA
Uma espécie de
revolução ocorre com os desenvolvimentos técnicos e as descobertas
científicas que tornam possível a fotografia (e posteriormente o
cinema), um advento que indubitavelmente causa irreversíveis modificações
nas artes plásticas. Se a pintura e a escultura haviam sempre procurado se
basear na verossimilhança, numa certa imitação o mais próxima
possível dos objetos retratados, a partir do surgimento da fotografia
percebem-se frente a um concorrente imbatível no quesito objetividade e
verossimilhança. Nenhum pintor, por mais brilhante que fosse, não importa
com que perfeccionismo e dedicação trabalhasse, jamais chegaria a pintar o
retrato de uma pessoa de modo a fazer com que a pintura parecesse mais
real do que a fotografia desta mesma pessoa. Vendo-se
irremediavelmente vencida por um concorrente mais forte, as artes
plásticas, por assim dizer, abandonam o ringue na competição pela
verossimilhança e passam a intentar outros saltos, outras viagens, outras
estéticas para além do realismo estrito...
“A fotografia, ao redimir o
barroco, liberou as artes plásticas de sua obsessão de semelhança. Pois a
pintura se esforçava, no fundo, em vão, por nos iludir, e esta ilusão
bastava à arte, enquanto o cinema e a fotografia são descobertas que
satisfazem definitivamente, por sua própria essência, a obsessão de
realismo. Por mais hábil que fosse o pintor, a sua obra era sempre
hipotecada por uma inevitável subjetividade. Diante da imagem uma dúvida
persistia, por causa da presença do homem. Assim, o fenômeno essencial na
passagem da pintura barroca à fotografia não reside no mero
aperfeiçoamento material (a fotografia permaneceria por muito tempo
inferior à pintura na imitação das cores), mas num fato psicológico: a
satisfação completa do nosso afã de ilusão por uma reprodução mecânica da
qual o homem se achava excluído.”
Antes da
fotografia, seria inimaginável que as artes plásticas enviezassem pelas
veredas do abstracionismo (quem imaginaria que o surrealismo ou o dadaísmo
seriam possíveis antes do advento da fotografia?), já que a elas cabia a
função de reproduzir a realidade tal como ela nos aparecia. Com o
surgimento da fotografia, é esta nova invenção que vai assumir o papel de
guardiã da verossimilhança, libertando assim as artes plásticas
para que procurassem outros caminhos, distanciados do “realismo”. É por
essa razão que Bazin comenta que “a fotografia vem a ser, pois, o
acontecimento mais importante da história das artes plásticas. Ao mesmo
tempo sua libertação e manifestação plena, a fotografia permitiu à pintura
ocidental desembaraçar-se definitivamente da obsessão realista e
reencontrar a sua autonomia estética.” Enquanto a pintura acabava sempre
tendo impressa em si a marca subjetiva do artista, a fotografia parecia,
ao menos à primeira vista, capaz de uma “objetividade pura”. É o que Bazin
destaca quando diz que
“A originalidade da fotografia em relação à pintura reside,
pois, na sua objetividade essencial. Tanto é que o conjunto de lentes que
constitui o olho fotográfico em substituição ao olho humano denomina-se
precisamente ‘objetiva’. Pela primeira vez, entre o objeto inicial e a sua
representação nada se interpõe, a não ser um outro objeto. Pela primeira
vez, uma imagem do mundo exterior se forma, automaticamente, sem a
intervenção criadora do homem, segundo um rigoroso determinismo. A
personalidade do fotógrafo entra em jogo somente pela escolha, pela
orientação, pela pedagogia do fenômeno; por mais visível que seja na obra
acabada, já não figura nela como a do pintor. Todas as artes se fundam
sobre a presença do homem; unicamente na fotografia é que fruímos da sua
ausência. Ela age sobre nós como um fenômeno ‘natural’, como uma flor ou
um cristal de neve cuja beleza é inseparável de sua origem vegetal ou
telúrica.”
Portanto, a
tese de Bazin, bastante plausível e compreensível, é a de que toda
pintura, por mais que se esforçasse no sentido da verossimilhança mais
pura, da cópia mais exata da realidade e das aparências sensíveis, sempre
acabava, inevitavelmente, sendo marcada pela subjetividade e
pelas particularidades do pintor. A fotografia surge e obviamente ocorre
um “salto” qualitativo imenso em direção a um grau impensavelmente
superior de objetividade. Mas podemos questionar se, de fato, a fotografia
é uma arte assim tão “objetiva”, quando sabemos muito bem o quanto há de
escolhas possíveis para um artista da fotografia, que pode selecionar
entre diversos ângulos, enquadramentos, efeitos ópticos, colorações, tipos
de iluminação, filme fotográfico etc. - de modo que a subjetividade humana
desempenha sim um papel importante também na fotografia. Não há dúvida,
porém, de que todo ser humano, ao olhar para uma fotografia, se torna
imediatamente crente de estar sendo um fragmento estático da própria
realidade, e não somente de uma reprodução dela, como era
numa pintura. Por isso Bazin insiste que a fotografia “nos arrebata a
credulidade” - poucos de nós ousam, olhando para uma fotografia, dizer
“isso é mentira!” A tendência a crer nos nossos próprios olhos é mais
forte do que qualquer ceticismo. Uma imagem nos deixa mais crédulos do que
mil palavras.
“Esta gênese automática subverteu radicalmente a psicologia
da imagem. A objetividade da fotografia confere-lhe um poder de
credibilidade ausente de qualquer obra pictórica. Sejam quais foram as
objeções do nosso espírito crítico, somos obrigados a crer na existência
do objeto representado, literalmente re-presentado, quer dizer, tornado
presente no tempo e no espaço. A fotografia se beneficia de uma
transferência de realidade da coisa para a sua reprodução. O desenho o
mais fiel pode nos fornecer mais indícios acerca do modelo; jamais ele
possuirá, a despeito do nosso espírito crítico, o poder irracional da
fotografia, que nos arrebata a credulidade.”
De certo
modo, a fotografia seria, como foram as artes plásticas antes dela, uma
espécie de substituto da múmia: desempenharia para nós, modernos,
a mesma função que a mumificação representava para os antigos egípcios, ou
seja, também ela, a fotografia, serve para que nós exorcizemos o
tempo, para que tentemos substrair-nos ao esquecimento, para que algo
das aparências sensíveis possa ser eternizado. Na linguagem de Bazin, o
que a fotografia faz é suprir um anseio do nosso inconsciente: liberar os
objetos das “contingências temporais”.
“Por isso mesmo, a pintura já
não passa de uma técnica inferior da semelhança, um sucedâneo dos
procedimentos de reprodução. Só a objetiva nos dá, do objeto, uma imagem
capaz de ‘desrecalcar’, no fundo do nosso inconsciente, esta necessidade
de substituir o objeto por algo melhor do que um decalque aproximado: o
próprio objeto, porém liberado das contingências temporais. A imagem pode
ser nebulosa, descolorida, sem valor documental, mas ela provêm por sua
gênese da ontologia do modelo; ela é o modelo. Daí o fascínio das
fotografias dos álbuns. Essas sombras cinzentas ou sépias,
fantasmagóricas, quase ilegíveis, já deixaram de ser tradicionais retratos
de família para se tornarem inquietante presença de vidas paralisadas em
suas durações, libertas de seus destinos, não pelo sortilégio da arte, mas
em virtude de uma mecânica impassível; pois a fotografia não cria, como a
arte, a eternidade, ela embalsama o tempo, simplesmente o subtrai à sua
própria corrupção.”
* * * * *
O CINEMA: FILHO
GLORIOSO DA FOTOGRAFIA
Não é difícil perceber, porém, que a
fotografia não consegue de fato captar a realidade como ela é,
incapaz que é de reter algo que não sejam momentos estáticos, não
podendo nos oferecer uma imagem da dinâmica própria à realidade e
a todas as vivências humanas. A fotografia, sendo uma mera
petrificação de instantes, não consegue nos fornecer algo que se
assemelhe à sucessão ininterrupta de instantes que constitui
nossa experiência da realidade. É aí que entra o cinema. Através da
projeção sucessiva de várias fotografias, o cinema conseguiu nos libertar
da petrificação fotográfica e deu mais um passo importantíssimo no
sentido da verossimilhança absoluta. A dinâmica da realidade
passou a poder ser embalsamada.
“Nesta perspectiva, o cinema vem a ser a consecução no tempo
da objetividade fotográfica. O filme não se contenta mais em conservar
para nós o objeto lacrado no instante, como no âmbar o corpo intacto dos
insetos de uma era extinta, ele livra a arte barroca de sua catalepsia
convulsiva. Pela primeira vez, a imagem das coisas é também uma imagem da
duração delas, como que uma múmia da
duração.”
Segundo Bazin, o cinema se desenvolveu
inicialmente como uma espécie de prolongamento da fotografia (o cinema,
bem sabemos, nada mais é do que a projeção sucessiva de quadros estáticos
nos dando a ilusão de movimento...). Mas foi também, desde o
princípio, a arte que carregou sobre si a tarefa imensa de atingir o ideal
da verossimilhança absoluta. Segundo Bazin, não se pode dizer que o cinema
foi progressivamente percebendo cada vez maiores potenciais de
imitação da realidade, à medida que os desenvolvimentos técnicos foram
possibilitando um grau superior de registro – desde o seu início,
o cinema já tinha como intenção-guia, ou até mesmo como um
ideal, então inalcançável, a imitação perfeita da
realidade.
“O mito
guia da invenção do cinema (...) é o mito do realismo integral, de uma
recriação do mundo à sua imagem, uma imagem sobre a qual não pesaria a
hipoteca da liberdade de interpretação do artista, nem a irreversibilidade
do tempo. Se em sua origem o cinema não teve todos os atributos do cinema
total de amanhã, foi, portanto, a contragosto e, unicamente, porque suas
fadas madrinhas eram tecnicamente impotentes para dota-lo de tais
atributos, embora fosse o que desejassem. (...) Os verdadeiros precursores
do cinema, de um cinema que só existiu na imaginação de uns dez homens do
século 19, pensam na imitação integral da natureza. Logo, todos os
aperfeiçoamentos acrescentados pelo cinema só podem, paradoxalmente,
aproxima-lo de suas origens. O cinema ainda não foi
inventado.”
O realismo
integral que os idealizadores do cinema visavam não podia de modo
algum ser alcançado nos primórdios do desenvolvimento dessa arte. Todos
nós percebemos, ao ver alguns dos primeiros “clássicos” do cinema (os de
Meliès, D.W. Griffith, Eisenstein...), o quanto ainda estávamos distantes
duma representação perfeita da dinâmica do real. O cinema já nasce como um
ideal, portanto – de modo que se pode dizer, como Bazin, que o
cinema foi se desenvolvendo tecnicamente para “chegar a si mesmo”, o que
significa, em termos mais compreensíveis: nasceu já com o intento de
chegar à concretização do ideal que lhe deu gênese. Exemplifiquemos isso
dizendo que, apesar de ter levado décadas para que o cinema se
transformasse de mudo em falado, e mais um longo tempo até que o preto e
branco fosse revolucionado pelo Tecnicolor, isso não quer dizer que o
cinema foi descobrindo seu potencial aos poucos – desde o princípio, ele
já fixava o seu olhar no ideal de “perfeição imitativa” que só muito
depois iria atingir!
“O cinema é um fenômeno
idealista. A idéia que os homens fizeram dele já estava armada em seu
cérebro, como no céu platônico, e o que nos admira é mais a resistência
tenaz da matéria à idéia, do que as sugestões da técnica à imaginação do
pesquisador. (...) Explicaríamos bem mal a descoberta do cinema partindo
das descobertas técnicas que o permitiram.”
O cinema
nasce um tanto desacreditado, recoberto pelo ceticismo daqueles mesmos que
o criaram e que descobriram os apetrechos técnicos que o tornaram
possível. Bazin comenta com uma certa ironia a atitude de Lumière, que não
acreditou que a invenção do cinemascópio poderia gerar uma nova arte e que
pretendia usar esse aparelho mais como um curioso brinquedo que
surpreenderia as massas pela sua novidade, mas que posteriormente seria
rapidamente esquecido:
“Os que menos tiveram confiança no futuro do cinema como
arte e mesmo como indústria foram, precisamente, os dois industriais,
Edison e Lumiére. Edison contentou-se com seu kinetoscópio individual e,
se Lumiére recusou judiciosamente a Méliés a venda de sua patente, foi
porque provavelmente pensava ter mais lucro ele mesmo se a explorasse, mas
efetivamente como um brinquedo, do qual mais dia menos dia o público se
cansaria.”
Sabemos hoje o quanto estavam errados em
diagnosticar que o cinema não tinha futuro nem como arte nem como
indústria! Não demoraria muito para que começassem a surgir os primeiros
grandes artistas de cinema, os primeiros grandes mestres e autores desta
arte nascente, dentre os quais Bazin destaca com ênfase três momentos
fundamentais no desenvolvimento dessa que viria a ser chamada a Sétima
Arte:
1- Einseinstein e seu Encouraçado
Potemkin:
“Se o Potemkin pôde subverter o
cinema, não foi apenas por causa de sua mensagem política, tampouco por
ter substituído o staff dos estúdios pelos cenários reais e a estrela pela
multidão anônima, mas porque Eisenstein era o maior teórico da montagem de
seu tempo, porque ele trabalhava com Tissé, o melhor operador do mundo,
porque a Rússia era o centro do pensamento cinematográfico, em uma
palavra, porque os filmes ‘realistas’ que ela produzia continham mais
ciência estética que os cenários, as iluminações e a interpretação das
obras mais artificiais do expressionismo alemão.”
2 –
Orson Welles e seu Cidadão Kane:
“Toda revolução
introduzida por Orson Welles parte da utilização sistemática de uma
profundidade de campo inusitada. Enquanto a objetiva da câmera clássica
focaliza sucessivamente diferentes lugares da cena, a de Orson Welles
abrange com a mesma clareza todo o campo visual que se acha ao mesmo tempo
no campo dramático. Não é mais a decupagem que escolhe para nós a coisa
que deve ser vista, lhe conferindo com isso uma significação a priori, é a
mente do espectador que se vê obrigada a discernir, no espaço do
paralelepípedo de realidade contínua que tem a tela como seção, o espectro
dramático particular da cena. É, portanto, à utilização inteligente de um
progresso preciso que Cidadão Kane deve seu realismo. Graças à
profundidade do campo da objetiva, Orson Welles restituiu à realidade sua
continuidade sensível.”
3 – O neo-realismo italiano, simbolizado otimamente pelo
Ladrões de Bicicleta de Vittorio de Sica:
“Ladrões de Bicicleta é um dos
primeiros exemplos do cinema puro. Nada de atores, de história, de
mise-en-scene, vale dizer, enfim, na ilusão estética perfeita da
realidade: nada de cinema.”
Bazin
destaca ainda que o cinema, como uma arte jovem, nascida no começo dos
século 20, contrapunha-se a outras artes que tinham uma existência
milenar, que se afastava séculos e séculos no passado humano, de modo que
foi somente aos poucos ganhando o direito pleno de ser uma arte
respeitada. Sem dizer que, a princípio, imitou e pegou emprestado muito
das outras formas de arte: do teatro e da literatura,
principalmente.
“O cinema é jovem, mas a
literatura, o teatro, a música, a pintura são tão velhos quanto a
história. Do mesmo modo que a educação de uma criança se faz por imitação
dos adultos que a rodeiam, a evolução do cinema foi necessariamente
inflectida pelo exemplo das artes consagradas. Sua história, desde o
início do século, seria portanto a resultante dos determinismos
específicos da evolução de qualquer arte e das influências exercidas sobre
ela pelas artes já evoluídas. E mais, o imbróglio desse complexo estético
é agravado pelos incidentes sociológicos. O cinema impõe-se, com efeito,
como a única arte popular numa época em que o próprio teatro, arte social
por excelência, não toca senão uma minoria privilegiada da cultura ou do
dinheiro.”
Torna-se claro, portanto, que o
cinema, apesar de ter se desenvolvido em seus primórdios se utilizando um
pouco do exemplo das artes consagradas, teve um crescimento tão espantoso,
e disseminou-se como indústria de um modo tão marcante, a ponto de marcar
o século 20 (e certamente também o século 21...) como a maior das artes
populares. Hoje, acostumados que estamos à estética hollywoodiana, aos
grandes blockbusters americanos, ao cinema transformado numa imensa
fábrica de entretenimento de massa, talvez nos esqueçamos de como nasceu e
cresceu esta “criança” hoje transformada em gigante. O grande trunfo de
Bazin é remontar aos primórdios do cinema e da fotografia, e mais atrás
ainda, em direção às artes plásticas e às práticas egípcias, percebendo
aquilo que há em comum a tudo isso: a angústia humana em relação à
passagem do tempo (o que não passa de um modo sutil de se referir à
angústia humana em relação à mortalidade). Desde o princípio, o ser humano
viu-se frente à necessidade de reter algo do mundo fugaz e efêmero que
via passar frente a seus olhos, especialmente aqueles momentos,
paisagens e pessoas que agradavam à sua sensibilidade e foram
classificados como “belos”, evitando assim que isso fosse arrastado em
direção ao esquecimento. Por trás de tudo, das múmias egípcias, das
pinturas e esculturas, da invenção da fotografia e do cinema, Bazin
reconhece que estaria ali uma força motriz secreta: o velho anseio humano
de salvar-se da efemeridade através da perenização dos
instantes.
