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ANTERO DE
QUENTAL.
Talvez vocês se lembrem
vagamente de terem ouvido esse nome nas velhas aulas de literatura no
colegial. Aquelas que, é claro, vocês gastavam fazendo qualquer coisa a
não ser prestar atenção. Como por exemplo: trocando bilhetinhos, fazendo
aviões de papel, jogando Stop, desenhando diabinhos no caderno,
conversando sobre a novela, atirando bolotas molhadas no cabelo alheio
(com uma caneta Bic sem a tinta – lembram?) ou dormindo sobre o
confortável travesseiros dos braços... enfim, todas aquelas coisas nobres
e edificantes que nosso tédio inventava para passar pelas
horas.
Talvez se lembrem do asco instintivo que sentiam quando o
professor começava a enumerar as escolas literárias, em meio à sinfonia de
bocejos e de caras entediadas, tentando convencer os inconvencíveis de que
todos aqueles portugas com nomes estranhos tinham feito coisas grandes e
bonitas. E talvez se lembrem que o tal do Antero de Quental (e lembram dos
risinhos ao ouvir nome tão esquisito?) era um desses sujeitinhos aí que
eles nos obrigavam a estudar pra passar no vestibular e pra que
soubéssemos mais sobre a boa arte de nossa adorada nação colonizadora. Mas
a gente não confiava: tanta piada tinha sedimentado a idéia de que
português era tudo burro.
Eu, como todo mundo, tinha meus
preconceitos e não gostava de nenhum desses caras que a gente era obrigado
a estudar - mesmo sem ter lido uma só linha deles. E eu não estava
sozinho. Quase todo mundo, fora as aberrações nérdicas e cê-dê-éficas,
achava que a aula de literatura era um porre, que poesia era coisa de
viadinho e que legal mesmo era ler gibi. A gente via as fotos dos
escritores e achava que o caras tinham cara de malas e tirava logo a
conclusão de que os livros não mereciam ser lidos... Ver uma foto de
Graciliano Ramos ou de Guimarães Rosa não dava a mínima vontade de lê-los.
Já Rimbaud, sim! Só peguei pra ler Uma Temporada No Inferno
porque achei a fotinha da capa muito legal – o Rimbaud parecia um carinha
da minha idade, enfezado com a vida, doido por escrever com raiva e com
sangue. Me instigou mais ainda saber que ele tinha escrito tudo na
adolescência, marcando a história da literatura francesa antes de
completar 18 anos, e que tinha se desencantado completamente depois,
abandonando a poesia como quem joga fora um tênis que parou de
servir.
Além desse preconceito estúpido e inevitável de julgar
escritor pela foto, também tinha outro não menos estúpido e um pouco mais
evitável: julgar pelo nome. Uns caras tinham nomes tão ridículos que a
conclusão brilhante de nossas mentes adolescentes tão sábias era: “pô, um
cara que chama Eça, um cara que chama Antero, um que chama Camões... esses
caras simplesmente não podem prestar! Um nome desses! Eça é o quê? Nem pro
meu cachorro eu daria um nome desses!” Todo mundo achava que devia ser
terrível. E quando a gente lia “O Primo Basílio” ou “Os Lusíadas” ou
“Vidas Secas”, comprovava que tínhamos razão – a coisa era mesmo um porre.
E a gente lia sempre com raiva, com ódio, com o balde do lado, pra ir
vomitando...
Só comecei a curtir as aulas de literatura no colégio
quando, no terceiro colegial, quem assumiu o comando foi o Mário, talvez o
professor que mais me fez rir nessa vida. Não sei mais por onde anda o
Mário, aquela figuraça, mas ele é um dos poucos professores do meu passado
que eu guardo na memória com o maior carinho - e uma das pessoas que
melhor me fez adquirir gosto pela leitura. Ele era muito melhor narrador
do que qualquer dos autores que ele ensinava – pelo menos eu achava isso.
Nessas escolas que estão mais interessadas em nos preparar pro vestibular
do que instigar o amor pela literatura, vocês sabem, o esquema é aquele: o
professor de literatura fica contando a historinha dos livros pra meio que
dispensar o alunado do tormento diabólico de efetivamente lê-los.
E o Mário ficava lá, microfoninho em mãos, curtindo-se pacas ao fingir-se
narrador de romance, really enjoying himself, enquanto nos
contava a história do "Memórias de Um Sargento de Milícias", do "Memórias
Póstumas de Brás Cubas", do "A Hora Da Estrela" (desse ele era super fã...
falava da Clarice como um fã de banda de rock fala de seu ídolo, e tratava
a Macabéia com uma compaixão que um pai tem por uma filha). Tinha também
teorias muito divertidas (que nem lembro mais – só que me faziam sorrir)
sobre o velho dilema: a Capitu traiu ou não traiu o pobre do
Bentinho?
Só sei que depois, quando eu fui ler os livros que o
Mário já tinha me descrito, quase sempre me entediei: preferia a versão
resumida, e entremeada com piadinhas, que o Mário contava a nós, fazendo o
milagre de tirar risadas e interesse de uma classe de adolescentes numa
aula de literatura. Por culpa dele, provavelmente, caí apaixonado pela
Clarice Lispector (e comprovei minha teoria de que só autores com nomes
legais prestavam: com um nome biito desses a mulher num podia ser ruim!) e
pelo Machado (que achei divertido e cheio de humor negro! “Ao primeiro
verme que roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico essas memórias
póstumas...” Achava o máximo!).
Por que tô dizendo tudo isso? Só
pra dizer que estou me desfazendo de alguns dos meus preconceitos
literários adquiridos nas salas de tortura desse troço infernal chamado
Colegial e já começo a achar que é até bem possível que aqueles caras que
a gente estudava na escola, e que a gente achava que eram uns babacas aí
que não sabiam escrever nada de legal, podem até prestar. E isso por causa
do Antero. O Antero, o cara de nome estranho. O Antero, que estudamos na
escola com tédio mortal. O Antero, cujo nome a gente ouvia vagamente antes
de cair no sono nas aulas de literatura portuguesa. Aquele cara que muitos
de nós chegaram a odiar quando ele caiu na prova e a gente não soube
interpretar aquela joça daquele poema complicado.
Li o Antero hoje,
uns bons 5 anos depois de findo o colegial, e realmente fiquei admirado
por gostar tanto. Os Sonetos Completos de Antero de Quental já
estão entre os meus livros prediletos dentre todos os que já li. Ando até
ficando com vontades estranhas de ler um poeminha do cara todo dia, logo
depois de acordar, pra fazer meu dia mais feliz e mais poético, para
despertar em mim a capacidade de ver a beleza do mundo, a doçura das
coisas e a poesia do cotidiano - essas viadices todas. Até re-experimentei
aquele prazer de declamar poesias, em voz alta, só curtindo a lindeza da
coisa – e só assustando as pessoas lá fora, que me acham lunático por
ficar assim, falando sozinho, e de um jeito esquisito.
Num tenho
nenhum cacife pra brincar de crítico literário, muito menos quando se
trata de poesia portuguesa, que conheço muitíssimo mal, mas vou dizer, com
toda essa minha ignorância e estupidez, algumas coisas sobre Antero de
Quental e porque eu gostei tanto desse troço. (De verdade, eu sempre curti
mais ler romances e filosofia (e revistas de rock!) do que poesia; só
recentemente fui encontrar uns poetas que realmente me empolgam:
principalmente Walt Whitman, John Donne, Rilke, e ele, Antero.)
Uma
coisa que me enoja na poesia, que meio que me afastou dela por muito
tempo, é aquele lance do beletrismo, que eu encontro mesmo nos
poetas que não são oficialmente etiquetados como beletristas ou
parnasianos. É aquele lance de querer usar palavras ultra-estranhas,
arcaicas e antiquadas, que nenhum ser normal jamais usa no cotidiano, como
se fosse um mérito imenso ir até o dicionário para arrancar o termo mais
bizarro que se conseguir encontrar. Gosto de despejar meu sarcasmo pra
cima de muito poeta: pra mim um monte deles só quer se exibir como
conhecedor das entranhas dos dicionários, como um humano com um
vocabulário ultra vasto e original, como um depósito ambulante de termos
mofados... São uns gabarolas que pensam que saber uma palavra que ninguém
conhece é ser um ser humano superior (aliás, vocês sabem o que é um
“gabarola”? usei só pra me exibir! Só pra me achar um ser humano
superior!)...
Eu acho o óbvio: não acho que ter um vocabulário
vasto e ter a capacidade de usar palavras bizonhas seja o bastante para
constituir um bom escritor – e muito “bom escritor” por aí, pra mim, é só
isso. Não vejo, como muitos vêem, nenhuma “beleza” nesse processo de
juntar palavras esquisitonas, raramente utilizadas pelos mortais comuns, e
ligá-las de modo “original”, só pelo bem da originalidade, em textos que
só meia dúzia de entendidos conseguem decifrar...
O Antero é
diferente. Os sonetos dele podem até parecer meio “virtuosísticos”, meio
rock progressivo, meio complexos demais, meio
vou-exibir-meu-talento-com-as-palavras, mas eu sinto que por trás de tudo,
no fundo, o que fez aquele poema surgir é um sentimento puro, genuíno,
verdadeiro, que se impunha com toda força. O poema nasceu por
necessidade. E, como o próprio Rilke já dizia nas suas Cartas a
Um Jovem Poeta, as grandes obras de arte sempre nascem por
necessidade vital. Cria bem quem não pode viver sem
criar.
Grande parte dos poemas do Antero de Quental, me parece, não
são nada além de uma descrição de um sentimento. E de um
sentimento que, na maior parte das vezes, eu reconheço inteiramente. Rola
aquele sentimento de identificação: o que ele descreve são sentimentos que
já senti, que sei que surgem em uma multidão de corações, que sei que ele
sentiu de verdade... E o que ele faz é agarrar esse sentimento e
palavrear em cima dele, descrevê-lo o mais completamente possível, sendo
que o sentimento é muito mais importante do que o palavreamento - e as
metáforas, mais do que “ornamento”, são o único meio para comunicar algo
que, sem metáfora, seria incomunicável.
Pois a gente sabe: nossos
sentimentos são complexos demais, vagos demais, misturados e fluentes
demais, para que seja possível descrevê-los com uma só palavra, uma mísera
palavra, uma minúscula palavra, como costumamos fazer. Podemos rotular o
quanto quisermos nossos “estados de alma” com as palavrinhas usuais –
raiva, angústia, alegria, medo, paixão... – mas sabemos bem que uma
palavrinha é pequena demais para descrever algo tão grande e complicado
quanto um sentimento – ou, como eu prefiro dizer, um “estado de alma”. E
pra mim o Antero é um mestre, um grande mestre, na descrição de
sentimentos com beleza e sinceridade.
Gosto também da DOR que está
infiltrada em cada fresta dessas páginas. Isso aqui é poesia dum cara que
realmente sentiu na pele todos os padecimentos que relata, e que conseguiu
espremer suas feridas e fazer jorrar delas a bela fonte da poesia... Há o
momento do Antero que se dói por achar que não vive uma vida cheia de
aventuras e emoções; a do Antero que sonha, sozinho no quarto, com uma
garota qualquer que ele idealiza (que poeta sem esse louco sonho de
amor?); a do Antero que se revolta contra os ideais, ao perceber que eles
só lhe dão o que todos os ideais sempre nos dão: melancolia e
insatisfação; a do Antero que se irrita com seus próprios sonhos vagos e
suplica por um amor de verdade, um amor dos que têm vida!; o
Antero que vê o espetáculo ridículo dos homens rezando a deuses que nunca
respondem; o Antero que vê na Morte, mais que uma desgraça, uma libertação
da dor, quase que uma aliada...
Antero também costuma ser
considerado como um poeta-filósofo – e realmente dá pra notar que a obra
dele não está interessada somente em criar um “efeito estético”, mas que
há por baixo de tudo um anseio de compreensão – como diz o
Oliveira Martins no prefácio, Antero de Quental pensa seu sentimento e
sente seu pensamento, e não vê nenhuma contradição nisso. Gosto
disso: de alguém que não se racha em duas metades e taca uma no lixo. Não
quer ser nem totalmente racional, nem totalmente sentimental. Concilia o
que deveria viver em guerra perpétua.
Claro que não dá pra ficar
descrevendo em termos precisos qual é a “Filosofia de Antero de Quental” –
que seria, sei lá, uma mistureba indigesta de budismo, cristianismo,
ceticismo, niilismo e romantismo... enfim, uma mistura de tudo um pouco.
Mas é tolice exigir de um poeta que tenha uma “visão de mundo coerente”,
um conjunto de idéias sistemático... Pra mim, Antero é muito mais um
observador de si mesmo, um cara que, ao invés de ficar observando
paisagens pra pintar com palavras as colinas, os bosques e os riachos,
ficou olhando a paisagem que ele mesmo é e se esforçando por
descrever-se.
E já que tudo flui, o poeta também flui. Cada dia
acorda sentindo algo diferente, um pouco ou muito, do que já sentiu ou vai
sentir. Arrisco uma metáfora: o poeta é aquele que tira fotos do céu
de sua própria alma, sem se preocupar muito se haverá conexão e
coerência entre as fotos que tirar, nem muito menos querendo acabar com um
álbum só de fotos ensolaradas ou só de fotos nubladas. Da mesma maneira
que no firmamento vão passando nuvens negras e nuvens brancas, nuvens de
chuva e nuvens de calmaria, relâmpagos e trovões agora, gaivotas e céu
azul daqui a pouco, sobre a alma do poeta também vão passando os estados
climáticos da alma – os catastróficos, os suaves, os sombrios, os
luminosos, e assim por diante... Antero se limita a descrever o céu que vê
dentro de si, esteja ele com cara de chuva ou luminoso de Sol, esteja ele
firmado ou duvidoso, esteja ele como estiver... Por isso, ter em mãos um
livro de Antero de Quental é muito mais do que ter em mãos um mero
livrinho de poesias: é ter em mãos um conjunto de instantâneos da alma
de um homem. E de um grande homem!
* * *
*
Sempre o futuro, sempre! e o
presente Nunca! Que seja esta hora em que se existe De incerteza e
de dor sempre a mais triste, E só farte o desejo um bem
ausente!
Ai! que importa o futuro, se inclemente Essa hora, em
que a esperança nos consiste, Chega... é presente... e só à dor
assiste?... Assim, qual é a esperança que não mente?
Desventura
ou delírio?... O que procuro, Se me foge, é miragem enganosa, Se me
espera, pior, espectro impuro...
Assim a vida passa vagarosa: O
presente, a aspirar sempre ao futuro: O futuro, uma sombra
misteriosa.
* * * * *
Em vão lutamos. Como névoa baça, A
incerteza das cousas nos envolve. Nossa alma, em quanto cria, em quanto
volve, Nas suas próprias redes se embaraça.
O pensamento que mil
planos traça, É vapor que se esvai e se dissolve; E a vontade
ambiciosa, que resolve, Como onda entre rochedos se
espedaça.
Filhos do Amor, nossa alma é como um hino À luz, à
liberdade, ao bem fecundo, Prece e clamor dum pressentir
divino;
Mas num deserto só, árido e fundo, Ecoam nossas vozes,
que o Destino Paira mudo e impassível sobre o mundo.
** * * *
*
DESESPERANÇA
Vai-te na asa negra da
desgraça, Pensamento de amor, sombra duma hora, Que abracei com
delírio, vai-te, embora, Como nuvem que o vento impele... e
passa.
Que arrojemos de nós quem mais se abraça, Com mais ânsia,
à nossa alma! E quem devora Dessa alma o sangue, com que mais
vigora, Como amigo comungue à mesma taça!
Que seja sonho apenas
a esperança, Enquanto a dor eternamente assiste, E só engane nunca a
desventura!
Se em silêncio sofrer fora vingança!... Envolve-te
em ti mesma, ó alma triste, Talvez sem esperança haja ventura!
*
* * *
AMOR VIVO
Amar! Mas dum amor que tenha vida... Não
sejam sempre tímidos harpejos, Não sejam só delírios e desejos Duma
douda cabeça escandecida...
Amor que viva e brilhe! Luz
fundida Que penetre o meu ser – e não só beijos Dados no ar –
delírios e desejos – Mas amor... dos amores que têm vida...
Sim,
vivo e quente! E já a luz do dia Não virá dissipá-lo nos meus
braços Como névoa da vaga fantasia...
Nem murchará do sol à
chama erguida... Pois que podem os astros dos espaços Contra uns
débeis amores... se têm vida?
* * * *
MÃE...
Mãe –
que adormente este viver dorido, E me vele esta noite de tal frio, E
com as mãos piedosas ate o fio Do meu pobre existir, meio
partido...
Que me leve consigo, adormecido, Ao passar pelo sítio
mais sombrio... Me banhe e lave a alma lá no rio Da clara luz do seu
olhar querido...
Eu dava o meu orgulho de homem – dava Minha
estéril ciência, sem receio, E em débil criancinha me
tornava,
Descuidada, feliz, dócil também, Se eu pudesse dormir
sobre o teu seio, Se tu fosses, querida, a minha mãe!
* * *
*
DIVINA COMÉDIA
Erguendo os braços para o céu distante E
apostrofando os deuses invisíveis, Os homens clamam: - “Deuses
impassíveis, A quem serve o destino triunfante,
Porque é que nos
criastes?! Incessante Corre o tempo e só gera, inextinguíveis, Dor,
pecado, ilusão, lutas horríveis, Num turbilhão cruel e
delirante...
Pois não era melhor na paz clemente Do nada e do
que ainda não existe, Ter ficado a dormir eternamente?
Porque é
que para a dor nos evocastes?” Mas os deuses, com voz inda mais
triste, Dizem: - “Homens! Porque é que nos criastes?”
* * *
*
O QUE DIZ A MORTE
”Deixai-os vir a mim, os que
lidaram; Deixai-os vir a mim, os que padecem; E os que cheios de
mágoa e tédio encaram As próprias obras vãs, de que
escarnecem...
Em mim, os Sofrimentos que não saram, Paixão,
Dúvida e Mal, se desvanecem. As torrentes da Dor, que nunca
param, Como num mar, em mim desaparecem.”
Assim a Morte diz.
Verbo velado, Silencioso intérprete sagrado Das cousas invisíveis,
muda e fria,
É, na sua mudez, mais retumbante Que o clamoroso
mar; mais rutilante, Na sua noite, do que a luz do
dia. |