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VÔO
93 de Paul
Greengrass
Só vai se
decepcionar quem for ao cinema esperando encontrar algo que Vôo
93 não se propõe a ser. Então é bom começar destacando tudo o que
esse filme NÃO é: não é um hollywoodiano blockbuster que usaria um evento
histórico só como pretexto para um filme catástrofe arrasa-quarteirão; não
é um "filme político" que tem qualquer coisa a dizer sobre a questão do
Oriente Médio, do Taleban, do islamismo no século 21 ou do "choque de
civilizações"; não é um filme que "coloque em questão" as ações americanas
no terceiro mundo, o combate pelo petróleo e a política externa da
administração Bush (que não é citado uma única vez em todo o filme); não é
uma "peça ideológica" falando em favor ou contra nada...
"Vôo 93" é
o primeiro dos muitos e muitos filmes que certamente virão para retratar,
mutilar e explorar os atentados mais famosos da recente história da
humanidade (Oliver Stone já está chegando com o seu World Trade
Center)... Nele o diretor inglês Paul Greengrass, em seu quarto longa
(assistam também o The Theory Of Flight, é um filmaço!), segue na
mesma linha que adotou no ótimo Domingo Sangrento e faz um
retrato semi-documental e ultra-realista de um evento histórico marcante,
com uma "pureza" de julgamentos exemplar. Esse filme não está aí nem pra
ficar pintando retratos demoníacos dos terroristas ("ai, como são
malvados! matando gente inocente!"), nem pra condenar as autoridades
americanas, nem para fabricar heróis patrióticos, nem mesmo para somente
"entreter" a audiência com um bom filme de "suspense" (tarefa não muito
fácil, já que a imensa maioria dos espectadores já sabe muito bem o
desfecho da história quando entra no cinema).
É um filme sobre o 11
de Setembro em geral, muito mais do que somente sobre um dos vôos
sequestrados naquele dia: sobre o imenso pasmo das autoridades frente a um
acontecimento absolutamente imprevisto numa terça-feira que tinha tudo
para ser absolutamente "normal"; sobre as reações emocionais de pessoas
subitamente postas em perigo de morte (mas sem exageros melodramáticos,
sem choradeiras, sem apelação para "cenas de pânico"); sobre a frenética e
infrutífera Torre de Babel que se instalou em terras americanas na
tentativa frustrada de impedir os desastres...
A câmera de
Greengrass passa muito mais tempo em terra, retratando o trabalho nos
aeroportos, centros de comando e nas bases militares, do que dentro do
avião que dá nome a seu filme. E a decisão de utilizar como "atores"
muitas da pessoas reais que participaram dos eventos contribui para o
clima de verdade. "Vôo 93" acaba sendo um retrato fílmico competente,
direto e acreditável de uma das manhãs mais caóticas que as autoridades
americanas já tiveram que enfrentar, dando conta de mostrar bem a
simultaneirade de acontecimentos, a corrida contra o tempo e o
(compreensível) despreparo de todos frente a um ataque tão inusitado,
original e bem-orquestrado. Todos nós já sabíamos dos "fatos" e já
tínhamos ouvido todas as histórias; mas o filme faz desfilar frente aos
nossos olhos, em seus rápidos 93 minutos, um espetáculo que deixa marcado
ainda mais forte na memória a maneira como, naquele dia maldito, a mais
poderosa nação do planeta ficou completamente paralisada, pasma e chocada
enquanto assistia o WTC e o Pentágono sendo atacados, assim "do nada", por
um inimigo então desconhecido...
"Vôo 93", com seu andamento veloz
e tenso, consegue ser homogêneo e sem grandes "rupturas" narrativas - o
filme só se torna realmente frenético e caótico nos (ótimos) 15 minutos
finais, que são daqueles que o público assiste eletrizado e quase sem
parar pra respirar. Com certeza críticos mais cricos vão dizer que a
edição muito entrecortada, as câmeras excessivamente móveis (seguradas
sempre na mão) e o ritmo muito acelerado impedem um "julgamento mais
crítico". Mas a verdade é que não há muito pra pensar e pra
julgar, aqui. "Vôo 93" não é um filme que exija muito esforço
intelectual do espectador: se contenta em contar uma boa história, e do
jeito mais atraente e verossímil possível. Um filme com ambições modestas,
na verdade, e que exige que o espectador vá ao cinema sem expectativas
exageradas.
De qualquer modo, fica comprovado mais uma vez o imenso
talento de Greengrass e de sua equipe de câmeras e de editores na criação
de um ambiente completamente tomável pela realidade. Mesmo em meio ao
imenso caos fílmico que vemos nos minutos finais, com aquelas câmeras
frenéticas e alucinadas tentando capturar o levante dos passageiros, em
momento algum a gente sente a presença do câmera, o que
estragaria o "efeito de realidade". Me explico: Vejam em
Irreversível, por exemplo, como o câmera parece um menininho
exibido que quer toda atenção só pra si e fica ali meio que gritando: "ei,
eu estou aqui! estou girando de ponta cabeça! estou tremendo! estou
fazendo maluquices!"... Em "Vôo 93" acontece o raro: mesmo nos momentos em
que a câmera está alucinadamente em movimento, ela continua "esquecida" e
você não se diz: "olha, há uma câmera ali filmando...". Esquece. E o
cinema-verdade precisa disso mais que tudo: que o espectador esqueça que
exista uma câmera e acredite estar olhando direto na cara da
"verdade"...
Felizmente, também, o filme de Greengrass não é um
altar para a consagração de um "herói" americano na luta contra o Eixo do
Mal... os atos dos passageiros do United 93 nada têm de "altruísmo" ou
"patriotismo". "Especialmente recomendável é a forma como o filme não
aceita a interpretação ufanista muito popularmente defendida nos EUA de
que o avião teria caído pelo fervor patriótico das vítimas que, como
Rambos da classe turística, teriam decidido impedir que o vôo 93 chegasse
ao seu alvo", escreveu bem o Kleber Mendonça Filho em sua
resenha no Cinemascópio. De fato, ninguém ali
dentro fala uma frase ridícula como "Ai coitada da Casa Branca e do
Capitólio! Vamos salvar esses símbolos da América, amigos!", o que, eu
suspeito, transformaria "Vôo 93" numa das melhores comédias do
ano... É óbvio que cada um dos passageiros, naquele momento, não estava
nem aí para o "destino da nação". Aquilo é só uma louca anarquia onde cada
homem luta desesperadamente para arrumar um jeito de escapar da morte e o
filme faz bem ao não ficar fingindo que qualquer um dos passageiros estava
heroicamente "lutando por uma causa"...
Se há algo a criticar, é
justamente essa pretensão de estar contando a verdade... O
preocupante é que o filme, sendo assim tão realista, verossímil e
convincente, periga conseguir justamente o que parece ser seu objetivo:
nos convencer de que as coisas se passaram exatamente como nos
são mostradas. E não vão ser poucas as pessoas que vão sair por aí dizendo
"Você já viu aquele documentário, o "Vôo 93"?" E vale a pena
exercitar o ceticismo e dizer: nenhum de nós é capaz de saber exatamente o
que se passou dentro daquele avião! O filme de Greengrass, apesar de tão
convincente, é um exercício de imaginação, de preenchimento de
lacunas, de "fictização"...
Pode até ter sido "baseado em fatos
reais" (ligações feitas pelos passageiros para familiares e amigos,
informações de caixa preta, detalhes fornecidos pelas autoridades...), mas
não deixa de ser, nunca, uma construção fictícia querendo ser
tomada pela realidade. E conseguindo! Algum problema? Sim, porque não
existe unanimidade sobre o que aconteceu com o Vôo 93: a versão oficial
reza que os passageiros heroicamente se insurgiram contra os terroristas,
impedindo que o avião atingisse o seu alvo, mas há rumores circulando na
imprensa alternativa de que o avião foi de fato abatido - leiam,
por exemplo, esse
review xingando o filme de ser uma mentira
travestida de cinema verité...
De qualquer modo, posta de lado a
discussão "é verdade ou não é?", "Vôo 93" é sem dúvida um thriller
curtível: competente, envolvente e com um final digno do adjetivo
"ELETRIZANTE" (que os marketeiros adoram jogar em péssimos filmes de
ação... felizmente não é o caso aqui!). E vale a pena ser visto, mesmo que
for só pra instigar uma discussão sobre o realismo no cinema e sobre a
representação supostamente "fidedigna" de acontecimentos
históricos.
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