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O HOMEM QUE
COPIAVA de Jorge Furtado [Brasil,
2002, 118min.]
O que mais me
impressiona no cinema do Jorge Furtado é o modo como ele consegue fazer
filmes ultra pop, capazes de agradar às multidões (que, digamos a
verdade, costumam ter um mau-gosto terrível...), mas que têm
sempre muita consistência e interesse para quem procura algo mais que mera
diversão. É incrível como os filmes funcionam muito bem num nível
superficial, como mero entretenimento curtível e divertido (qualquer
pré-adolescente, adulto analfabeto ou tias-avós assistidoras de novelinhas
do SBT conseguem acompanhar o enredo, “entender” tudo o que vêem e se
divertir à beça), mas o fato de serem super acessíveis e populares não
impede que as obras tenham muita “substância” por trás, podendo ser
aprovadas com louvor num julgamento crítico mais severo. Jorge Furtado é
um dos raros casos de artista (os Beatles sendo o exemplo supremo) que
consegue atingir a aclamação popular e a aprovação crítica ao mesmo tempo
- sem precisar soar vulgar, boçal ou de mau-gosto para agradar às
multidões, nem tentando soar “cabeça”, "vanguardista" ou pretensioso para
agradar aos críticos e à intelectualidade... Baita
realização!
O Homem Que Copiava, o primeiro longa-metragem
clássico do gaúcho e um dos melhores e mais adoráveis filmes nacionais da
década, prova isso muito bem. O filme de Furtado dialoga um pouco com o
clássicão do Hitchcock, o Janela Indiscreta, mostrando (se bem
que com mais humor do que suspense...) o voyeurismo obsessivo que é o
efeito do amor platônico de André. Mas ele é também o mais próximo filmito
brazuca a merecer o título de nosso Amélie Poulain - a odisséia
de André na conquista de sua guria Sílvia não lembra todos os bonitinhos
esforços que a francesinha encarnada por Andrey Tatou fez no empenho para
conquistar o seu mocinho (o Mathieu Kassovitz) no filme do
Jeunet?
A princípio parece que O Homem Que Copiava é
apenas uma comédia romântica, levinha e deliciosa, injetada de citações
pop e “links”. Poucos filmes são
mais bacanas na descrição duma platonice urbana. Sempre achei super
bonitinho o jeito como ele vai lentamente descobrindo detalhes sobre o
quarto dela, de acordo com o jeito que o espelho do armário parava aberto
– vendo um ursinho de pelúcia em um dia, um abajur sobre o criado-mudo em
outro, uma joaninha vermelha mais pra frente... É engraçado (e tão real!)
o jeito como ele inventa qualquer pretexto para se aproximar dela (mesmo
que seja mentir sobre o aniversário da mãe e prometer comprar um chambre
com um dinheiro que não tem); o jeito como ele guarda como uma pérola as
coisinhas mais minúsculas que acontecem entre eles (um “Magina,
brigada você!” virando quase um fetiche...), a maneira como ele
parece super inocente ao dar um presente pra lá de interesseiro para ela
(uma cortina semi-transparente que vai permitir uma espionagem muito mais
completa!) - mais ou menos como fazia o Homer dando para a Marge bolas
de boliche como presente de aniversário... Os momentos mais doces do
filme se dão nos diálogos dos dois semi-desconhecidos que, constrangidos e
sem graça, acabam soando como duas criancinhas tímidas que ficam de
paquera no pátio do colégio, no primário, sem saber ao certo como consumar
o beijo que ambos tanto querem. As atuações de Lázaro Ramos e Leandra Leal
trazem uma vivacidade sensacional para os personagens. Mas o filme é bem
mais do quem uma comédia romântia - parece mais com uma vasta (e
divertida...) crônica de comentário social.
André, o
anti-herói tímido e simples que protagoniza O Homem Que Copiava,
é um garoto como milhões de outros nesse Brasil: menino humilde condenado
a trampar numa lida mecânica, que não exige dele muita inteligência e
criatividade (“quantos neurônios o cara precisa ter para fazer uma
merda dessas?”), que acaba todo mês com pouquíssima grana pra gastar
(“pra comprar meu binóculo tive que economizar um ano”), sempre
entrando em apuros ao chegar ao caixa do supermercado (“não, deixa a
carne, é que eu preciso levar os fósforos...”). Claro que, vivendo
assim na fossa, sempre alimentou certos sonhos de subir na vida – de
preferência de foguete e não de escada...
Estão espalhados em
vários personagens mil e um planos de veloz ascensão social. A Maria Inês
de Luana Piovani, que é uma romântica bobalhona misturada com uma
interesseira, espera casar-se com um ricão (“Pai pobre é destino...
marido pobre é burrice!”); o Cardoso procura enriquecer mentindo
sobre o valor de suas “antiguidades” (que muitas vezes não passam de
sucata velha); o Feitosa faz pequenas fortunas vendendo maconha com
orégano para os otários... Sempre o velho “jeitinho brasileiro” na
tentativa de se virar no circo dos leões
econômico...
André não é
diferente. Como tantos milhões de garotos, ele sonhava em se tornar um
craque do futebol enquanto empacotava no mercado, delirando com a
imaginação das platéias em comemoração enquanto ele corria para comemorar
os gols de placa (“mas sem o soquinho no ar do Pelé... só funcionava
com ele, quando outro tenta fazer fica parecendo uma bichice!”). Tem
também seus talentos artísticos (suas charges e histórias em quadrinho),
mas batalha em vão para conseguir fazer disso algo realmente profissional.
E aí, empacado num trampo meia-boca, não consegue evitar a tentação de
imaginar pegar um atalho fácil para a riqueza através do crime. Afinal, do
jeito que ia, depois de 10 anos só ia conseguir comprar uma caranga usada
tosca – e aí o Diabinho interior vai e sussura: “melhor comprar uma arma!”
e roubar um banco. Ou então, claro, pôr em prática uma idéia que muito
menino de máquina de xerox já deve ter planejado: fazer cópias de dinheiro
e subir na vida nas asas das cédulas falsas trocadas por grana verdadeira
em alguma lotérica ingênua – considerando que “dinheiro é só um pedaço
de papel que todo mundo acredita que vale alguma coisa (se ninguém
acreditar, não vale nada!)”.
Não há nem sinal dum discursinho
moralista que vá tentar nos convencer que o crime não compensa –
não estamos em Hollywood e Furtado sabe muito bem que, no Brasil, muitas
vezes, as maiores sacanagens acabam impunes e os corruptos, ao invés de
pararem na cadeira, vão morar em mansões e palácios comprados com o
dinheiro lavado em alguma conta da Suíça. Não deve ser por acaso que Jorge
Furtado põe um outdoor com o Crime e Castigo de Dostoievski como
pano de fundo para uma cena em que André espera um ônibus – O Homem
Que Copiava não deixa de ser a saga de uma Ralkolnikóv
tupiniquim.
Como fez Woody Allen
em Crimes e Pecados, Jorge Furtado parece dizer que nem todo crime acaba
tendo sua punição - caso dos crimes dos personagens de O Homem Que
Copiava, que acabam, a certo momento do filme, devido a uma ironia do
destino, detentores de uma imensa fortuna - da loteria e do assalto ao
carro-forte. O problema é que a principal das objeções que se pode fazer
ao happy end de Jorge Furtado é que ele quase nos leva a
perguntar: ora bolas, quer dizer então que o dinheiro traz a felicidade e
que o bem-estar material é algo pelo quê vale a pena roubar e matar? Ao
vermos os personagens se deliciando com uma Mercedes ou uma noite na suíte
de luxo do hotel cinco estrelas, pode ser essa a impressão que fica em
muitos espectadores – e parece estranho ver espalhado pelo filme cenas que
mostram uma orgia de alegria consumista... algo que não se
esperava do cineasta que fez Ilha das Flores! A minha sensação,
no entanto, é que André só complicou a sua própria vida ao
faturar toda aquela dinheirama, e que talvez era feliz e não sabia nos
tempos em que era um humilde operador de fotocopiadora, apaixonado pela
guria do prédio da frente, paquerando pelas ruas de Porto Alegre, numa
vidinha pacata e despretensiosa que, no fundo, não tinha nada de
má.
Logo que fica milionário, torna-se alvo da inveja, da
chantagem, dos aproveitadores profissionais que querem arrebatar dele um
tequinho, ao menos, de sua fortuna. Ele se torna milionário mas aí seu
ex-amigo vai lá e enfia um trabuco em sua cabeça pedindo uma parte da
grana. Ele se torna milionário e aí o pai de Sílvia apela para a chantagem
e exige alguns milhões para manter-se em silêncio. Ele se torna milionário
e se vê na necessidade de matar a testemunha ocular do assalto, fugir de
Porto Alegre, com a perspectiva de ter que viver meio que às escondidas
por um bom tempo, sempre paranóico e preocupado... Sem falar que, com
muita sutileza, o filme acaba mostrando o quanto o delírio consumista
deles acaba não trazendo nenhuma satisfação verdadeira, mas só alguns
prazeres efêmeros e frustrantes. Quando a Maria Inês de Luana Piovani vê
pela primeira vez a Mercedes 0km, não é um “Uau, que demais, esse carro é
o máximo!” o que ela solta – é um rabugento “Mas por que essa porra é
prata e não preta?!” Típico ataque neurótico de grã-fino que cai em
crises de depressão se não puder ter o carro do ano. E dizem que o
dinheiro traz a felicidade! Certo estava o Bukowski, que dizia que “dinheiro, como sexo, parece mais importante quando
a gente não tem”.
Mas também não há nada parecido com um
discurso trieriano que quisesse demonstrar o quanto as pessoas acabam
moralmente corrompidas pela ambição e pela ganância. Não é tão
simples assim. Jorge Furtado consegue fazer com que nós sintamos total
simpatia e alegre afeição por um grupo de personagens envolvidos
com falsificação de cédulas, assalto à banco, baleamento de policiais,
construção de bombas e homicidío por explosão... Afinal de contas, nenhum
dos personagens, muito menos André, é “condenado” - nem pela
justiça, nem pelo cineasta, nem pelos espectadores. Não conheço ninguém
que, depois de ter visto o filme, dissesse que André e Sílvia mereciam
se ferrar, ir pra cadeia e lá apodrecer... Eles são parecidos
demais com a gente para que não role empatia e simpatia. E as ambições
materiais deles, os sonhos de subir na vida, de se deleitar na lama do
consumismo, são algo que compartilham com centenas de milhões de pessoas
na Civilização Ocidental inteira. Condená-los seria condenar a nós
mesmos.
Os sonhos de consumo e de glória que eles têm são sonhos
comuns a milhões – e os personagens dos filmes, como 90% das pessoas desse
mundo, acreditam de verdade que ser rico seria a solução para todos os
problemas - ao contrário do dito, eles acreditam que o dinheiro compra
sim a felicidade. Mesmo criminosos, eles não são descritos como
“maus”, muito pelo contrário: André continua sendo um bom rapaz, simples,
humilde, afável e simpático, mesmo depois do assalto e da explosão – e
Jorge Furtado mostra que, no fundo, para André, o que mais importava,
desde o começo, nem era tanto se tornar um ricão para poder ostentar por
aí, para a inveja do mundo, seu novo “status” social. Desde o início, tudo
o que ele queria era ter meios para impressionar a guria por quem estava
apaixonado para que não ficasse parecendo um pé-rapado qualquer – o
amor dela era o que ele mais queria conquistar; a ascensão social
era um mero meio para um fim. Eis porque o verdadeiro happy
end não está na fortuna que os personagens fazem, mas no amor
correspondido que se consuma.
Eis porque me parece que, se há algum
culpado por aí, só pode ser mesmo a velha Vovó Doutrina (sobrenome:
Capitalismo), que à custa de tanto tagarelar nas orelhas dos Zés Caolhos
(que somos todos nós...), acabou por nos convencer que a perseguição aos
bens materiais é a nossa finalidade na Terra. É essa Vó Doutrina que
transforma André, garoto simples e singelo, num criminoso – e é essa Vó
Doutrina, posta em prática, que acaba parindo inferninhos terrenos como a
Ilha das Flores (onde os seres humanos comem aquilo rejeitado pelos
porcos...) e transformar “garotos do Bem” como ele em criminosos.
Guilhotina, pois, para essa Vó Doutrina! Ou então, para quem não curte
tais extremismos, óculos melhores para os Zés Caolhos que
somos!
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