O ano era 1969 e os Estados Unidos da América, em nome do deus protestante e dos chamados valores ocidentais, com sua arrogância costumeira, despejava bombas sobre um pequeno país asiático que tivera a ousadia de tentar o comunismo. Crime imperdoável. Com a Guerra do Vietnã a todo vapor, os protestos iam gradativamente aumentando. Os hippies, dançando ao som do rock and roll e se sujando na lama de Woodstock, pronunciavam em altos brados: make love, not war. As manifestações anti-guerra ganhavam voz também entre importantes artistas (John Lennon e Yoko Ono, por exemplo), gerando todo uma série de happenings pacifistas. Nesse contexto, Altman soltou uma obra recheada de humor negro e obscenidades, destilando um desrespeito generalizado contra todo tipo de autoridade, ridicularizando toda a classe militar e pintando um retrato da insanidade doentia que se apossa das mentes em tempos de guerra. Sem olhar para os méritos artísticos do filme, M.A.S.H. já é um notável por causa do estrago que causou e pelas mudanças que trouxe: além de ter sido o primeiro filme a utilizar a famosa four-letter-word ("I'll blow your fucking head off") (eis uma informação de importância incalculável!), teve um faturamento de bilheteria grandioso, recebeu 5 indicações ao Oscar (vencendo o de roteiro), levou pra casa a Palme D'Or em Cannes, serviu de inspiração pr'uma série de TV homônima que durou 11 temporadas (e ganhou quase 100 Emmys), colocou Altman direto na história do cinema como um dos mais instigantes e irreverentes cineastas americanos e (por que não?) ajudou a parar a guerra. O enredo do filme, no entanto, não se desenrola no Vietnã. O roteiro de Ring Lardner Jr. foi inspirado num romance de Richard Hooker, um médico que serviu na Guerra da Coréia no início dos anos 50. Uma pequena contextualização histórica pode ser útil aqui, já que o filme não a faz de maneira alguma, praticamente eliminando (propositalmente) qualquer referência à Coréia. Em 1945, com o fim da Segunda Guerra, o derrotado Japão deixou de controlar a Coréia e os exércitos de ocupação invadiram o país quase simultaneamente, os americanos pelo Sul, os soviéticos pelo Norte, rasgando a nação em dois. Em 1948 os soviéticos abandonaram o país e no ano seguinte foi a vez dos americanos também puxarem o carro. Em junho de 1950, exércitos norte-coreanos invadiram os territórios do Sul, tomando posse de Seul e de grande parte da Coréia do Sul. Respondendo rapidamente a pedidos da ONU por assistência médica e militar na Coréia, o presidente Truman mobilizou o exército norte-americano pra território coreano, onde foram instalados uma série de hospitais improvisados pra atender os feridos em campo de batalha. Os M.A.S.H.s - Mobile Army Surgical Hospital - atendiam principalmente aos casos mais graves, de gente que não teria chance de sobreviver a uma dificultosa viagem a um hospital fixo através das precárias estradas do país. Os helicópteros, utilizados para driblar as dificuldades rodoviárias, eram carregados com os corpos sangrentos e mutilados dos moribundos no front e os despejavam aos borbotões nas unidades M.A.S.H. Com a escalada da violência e o consequente aumento de demanda por médicos, o exército americano passou a convocar jovens estudantes de medicina, muitos deles com somente um ou dois anos de treinamento cirúrgico, e os enviou para trabalhar em condições precárias e com péssimo equipamento nas terríveis mesas de operação dos M.A.S.H.s coreanos. Mesmo com o armistício de julho de 53, que conquistou uma tênue paz na Coréia, estima-se que mais de 35.000 soldados americanos permaneceram aquartelados na Coréia do Sul por mais de 45 anos após o cessar-fogo. O último M.A.S.H. foi desativado em 1997. O filme de Altman, transpirando um realismo bem verossímil, nos colocará ficticiamente dentro de um dos acampamentos do M.A.S.H. Porém, o diretor procurou propositalmente eliminar qualquer referência à história da Guerra da Coréia e evitou ao máximo até mesmo colocar personagens coreanos no filme, na tentativa de fazer com que o público tivesse a ilusão de que aquilo se desenrolava no Vietnã. Donald Sutherland disse que a Guerra da Coréia era somente "uma metáfora atrás da qual eles se escondiam", talvez um artifício para escapar da censura, mas que a intenção manifesta do filme era ser despejado nos EUA de 1970 como uma obra anti-Guerra do Vietnã.
No acampamento M.A.S.H. colocado em primeiro plano pelo filme, os feridos nos campos de batalha são trazidos às pressas, normalmente mutilados e empapados de sangue, com hematomas horrendos, fraturas expostas e feridas purulentas, para serem submetidos a operações de emergência. A dramaticidade da situação, ABSOLUTAMENTE TRÁGICA, é contraposta pela atitude dos médicos e cirurgiões, que simplesmente não levam nada à sério. A tragédia e a comédia dão as mãos. Hawkeye (Donald Sutherland) e Trapper John (Elliott Gould) são dois porras-loucas que se afogam em martinis, piadas sujas, humor negro e xavecos passados às enfermeiras. Enquanto abrem os corpos dos feridos e costuram seus corpos com as mãos banhadas em sangue e tripas, batem um papo como se estivessem no boteco, fazem gracinhas sobre os membros decepados dos feridos, comentam sobre as qualidades anatômicas das enfermeiras... A vida no acampamento é envolvida num ambiente de imoralidade, de vale-tudo, de fodam-se todas as regras e todas as autoridades. E viva o pôquer, as bebedeiras, o sexo casual e o futebol americano na lama.
Toda uma série
de alvos são sistematicamente ridicularizados e caçoados.
Qualquer pessoa que se leve a sério ou que acredite convictamente
em suas crenças (Burns rezando ajoelhado), que pretenda
fazer cenas (Hot Lips depois da travessura do chuveiro), que tenha
a ambição de estar fazendo algo de importante ou
dramático (o "suicídio" de Painless),
é sempre destroçada pelo sarcasmo cáustico
e destrutivo dos médicos. Não há para eles
nenhuma pessoa merecedora de respeito. "Costurando e cortando
no campo de batalha, operando enquanto bombas e balas explodem
à sua volta, revidando com risadas entre amputações
e penicilina", os médicos constroem um mecanismo para
suportar a realidade intolerável onde estão afogados.
E não só a futilidade dos médicos é descrita, como há também uma espécie de provocação latente do próprio filme aos espectadores. Afinal, M.A.S.H. se apresenta como uma comédia engraçadíssima, onde estão presentes alguns dos diálogos mais espertos e divertidos da história do cinema, mas ao mesmo tempo esboça uma espécie de crítica à trivialidade como uma espécie de covardia. É como se Altman, após fazer um de seus personagens dizer algo de comicidade irresistível, se virasse pra nós e perguntasse: mas por que é que você está rindo? Os cadáveres estão se amontoando e os corpos continuam sendo costurados e remendados, e vocês vão na mesma onda desses médicos babacas em sua perseguição incessante de uma sagrada cegueira? O público inevitavelmente ri do filme, mas ganha de presente uma certa culpa, uma certa acusação. Da mesma maneira que os personagens se entregam à futilidade para se esquecerem que estão num campo de batalha, também o público normalmente se entrega às gargalhadas e ao entretenimento escapista para evitar olhar uma realidade que não tem coragem de encarar de frente. M.A.S.H.
não faz críticas explícitas à
Hollywood como o outro clássico de Altman, O Jogador,
mas pode ser interpretado como um certo jogo dúbio onde
se entrega ao público algo que ele deseja (piadas fúteis)
e ao mesmo tempo se lança o horror da guerra. A maioria
dos espectadores, quando em contato com a obra, faz o recorte
com sua atenção e com seus desejos e prefere ficar
com as risadas e ignorar a guerra. E é justamente isso
que Altman está descrevendo: o entretenimento e a leviandade
como mecanismos de fuga da realidade (Becker explica...). M.A.S.H.
não está somente oferecendo piadas bestas, afinal:
"after all, you gotta pay for your laughs", disse Altman... Eduardo
Carli de Moraes |