MARCAS DA VIOLÊNCIA (A History Of Violence, de David Cronenberg, EUA, 2005. Com Viggo Mortensen, Maria Bello, Ed Harris e William Hurt.) |
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"We
may be through with the past,
but the past ain't through with us." de MAGNOLIA, de P.T. Anderson "People
you've been before |
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"Marcas da Violência", novo filme do cada-vez-melhor David Cronenberg (de "Spider", "A Mosca", "Crash - Estranhos Prazeres", "Gêmeos - Mórbida Semelhança", entre outros), não é um espécime do típico gênero americano de filmes sanguinolentos e brutais que glamourizam a violência e idealizam a brutalidade. As cenas fortes e sangrentas estão lá, mas nunca são diversão ou estilização (não estamos frente a um irmão de "Kill Bill" ou "Sin City"); a violência aqui é terror, não entretenimento. Algumas sinopses escritas para tentar atrair multidões para os cinemas vão dizer que se trata de um suspense a respeito de bandidões que passam a perseguir uma pobre família que, antes vivendo dentro do Sonho Americano, tem sua vida transtornada pela explosão da violência. Vão dizer que é um thriller sangrento sobre a vingança que os Caras do Mau vão tentar perpetrar contra o Cara do Bem pelos erros deste último no passado distante. Vão dizer que é uma reflexão sobre a violência na América. Vejo nele algo de diferente.
Prefiro
ver o filme de Cronenberg, adaptado de uma novela gráfica de John
Wagner e Vince Locke, como uma cuidadosa análise psicológica
de um personagem em conflito com os demônios interiores - que ele
pensou ter subjugado, mas que voltam a bater à sua porta. Mais
ou menos à maneira do "Clube da Luta" e do "Psicopata
Americano", "Marcas da Violência" faz um estudo cuidadoso
de uma personalidade rachada. Dentro do mesmo homem, nos três casos,
convivem duas personas: uma delas, reprimida e empurrada para o inconsciente,
representa o lado violento, brutal, sedento por destruição;
e a outra, que se exibe publicamente, pretende se adequar à normalidade
e à moral social estabelecida. É claro que a repressão
não funciona com perfeição e, vez ou outra, surge
das profundezas desses homens aparentemente pacatos, ordeiros e sociáveis
(Tom Stall, Patrick Bateman e o narrador do Clube...) um monstro de ódio
e violência. Eles não são assim tão diferentes
de todos nós, digamos a verdade. Quem de nós não
sente se erguer das profundezas de nossos corações, vez
ou outra, alguma fantasia sanguinária, algum desejo de destruição,
algum ódio mortal contra alguém? E quem não se esforça
por reprimir essas iras e manter-se sob controle? Confesso que eu, pessoalmente,
muitas vezes não consegui resistir à tentação
de decapitar, esfaquear e arrancar fora as tripas de muito professor -
mentalmente, é claro.
Num curto muito a raça... O personagem Tom Spall (interpretado por um ótimo Viggo Mortensen), atormentado por remorsos a respeito de seu obscuro passado, é um homem que, como tantos, veste uma máscara para fingir ser absolutamente pacífico e imune à crueldade. Quer dizer, talvez dizer "fingimento" ou "hipocrisia" seja exagerar: até daria para falar em uma "obstinada tentativa de auto-transformação". O fato é que ele se esforça para reprimir sua personalidade violenta por tantos anos seguidos, com um esforço tão constante, que a máscara da normalidade acaba por se colar ao rosto. Joey Cusack, sua versão particular de Tyler Durden ou do Psicopata Americano, parece estar definitivamente morto. E ninguém, nem sua esposa, nem seus filhos, nem seus colegas de trabalho, chega a suspeitar que, por trás da aparência amável e pacífica, pode haver nas profundezas daquele homem alguma besta adormecida. E é essa besta que será despertada na ocasião do assalto de que ele é vítima e que vai transtornar toda a vida de Tom, sua esposa e seus filhos. Por isso é que prefiro ver o filme não tanto como um "thriller" ou um "policial", mas muito mais como um drama familiar centrado num problema muito comum: o mútuo desconhecimento enfim tornado evidente. Penso assim: não importa que as pessoas compartilhem a mesma casa, a mesma mesa, a mesma cama, por anos e anos a fio; elas ainda assim parecem não conseguir ler umas às outras como livros abertos. A surpresa com que a esposa (Maria Bello) recebe a verdade sobre o passado de seu marido é um bom indicativo de quão superficialmente aqueles dois se conheciam. Atormentados pela morte de suas ilusões, a esposa e o filho modificam de modo radical o modo com que tratam o papai, antes considerado como "o melhor homem do mundo", agora enfiado na imagem de um serial killer. Cronenberg sublinha o contraste com força: no inicío do filme, o tom excessivamente adocicado e idealista da descrição feita da família nos indica que há algo de errado ali; as coisas funcionam tão bem que não dá pra evitar pensar: "é bom demais pra ser verdade". A gente sabe que algo vai vir pra fazer a terra tremer debaixo dos pés desse casal tão impossivelmente perfeitinho. Pouco a pouco Cronenberg vai nos conduzindo em direção aos mistérios de Tom Stall e cada vez se evidencia mais que seu passado está recheado de atos sanguinários que ele desejou esquecer e apagar. Os mafiosos chefiados por Fogarty (Ed Harris, sempre competente), e que vêm para atormentar a vida de Tom, aparentemente o confundindo com um certo Joey Cusack, são o fator que vai fazer com que a família, pela primeira vez, se choque com o dilema: será que nós realmente nos conhecemos? Estamos realmente conscientes de quem é o nosso papai em suas profundezas mais insondáveis?
O
mistério sobre a vida pregressa do personagem principal vai lentamente
começando a instigar o espectador, num processo que me lembrou
um pouco aquele de "Paris, Texas", de Win Wenders, que só
com muita lentidão nos explica as causas do silêncio pesado
e da tristeza desolada do protagonista. Tom Stall, em "Marcas da
Violência", é um mistério parecido. Tanto que
o principal suspense que Cronenberg cria por aqui nem é tanto um
"será que eles vão conseguir se safar?", mas um
"quem diabos é esse cara, na verdade?" A certo ponto,
todos ao redor de Tom - o policial, a esposa, o filho, seu irmão,
seus perseguidores - pedem que ele embarque numa "viagem no trilho
da memória" e retorne ao passado - para concertá-lo,
para revelá-lo, ou mesmo para redimi-lo, pagando por seus crimes.
Uma viagem na qual ele não deseja embarcar, é claro, já
que esteve, por tantos anos, engajado na tarefa de se auto-modificar.
Ele está querendo deixar o passado para trás, mas o passado
não vai deixar-se cair inerte na passividade. A pessoa que ele
foi no passado, e que não quer mais ser, será novamente
chamada a se erguer por esses espectros do passado. Na belíssima cena final, inteirinha silenciosa, o diretor não dá nenhuma pista mais explícita sobre qual será o futuro dessa família após ser chaqualhada por essa onda de derramamento de sangue. Mas eu fico com a impressão de que, afinal de contas, o que está em jogo ali é o reacolhimento do papai, uma espécie de reconciliação feita toda através de pequenos atos e olhares, um certo perdão terno e compreensivo. Admitido de volta, aceito no ninho mesmo com seu passado sombrio e seus abundantes erros cometidos, Tom, enfim desmascarado, é recebido de braços abertos. A família, após fazer o sepultamento das ilusões que tinha sobre aquele homem, novamente o aceita, o acolhe, o admite. As lágrimas são inevitáveis, como também o é o clima melancólico, que contrasta de forma radical com o ambiente American Dream do inicío da história. É que todos estão de luto após o funeral das ilusões. E agora poderão reiniciar a batalha de cara limpa: dessa vez, as máscaras estão todas largadas pelo chão.
(Eduardo Carli de Moraes, Santo André, Novembro de 2005) |