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O LABIRINTO DO
FAUNO Demorei pra ir ver, eu sei - nem
os 3 Óscares que o filme papou me animaram a correr ao cinema para ver
mais um “conto de fadas” super-produzido e metido a não-sei-quê – peguei
trauma disso depois daquele horrendo e pavoroso A Dama Na Água,
que o Shyamalan teve a falta-de-vergonha de cometer. Quem me convenceu a
ir, mais do que o Oscar, foi a Casey Dienel, de novo ela, que escreveu uma
adorável resenhola sobre o filme no blog dela.
Me mandei pr’aquela espaçosa e
adorável sala do CineBombril, domingão à noite, pra conferir em digital
dolby surround sound e o escambau esse mui elogiado filme do Guillermo Del
Toro, antes que saísse de cartaz e eu perdesse a oportunidade de ver no
cinemão. E saí do cinema maravilhado com o espetáculo que eu tinha acabado
de assistir, feito criança na saída do parque de diversões. Pode até ser
que o rótulo de “conto de fadas para adultos” se aplique aqui, até porque
o filme tem uns momentos de violência bem horrorshow que deixariam as
criancinhas bastante traumatizadas. Pode ser um conto de fadas, mas é um
conto de fadas que tem COLHÕES, feito por quem já viu muito Tarantino e
não economiza nos banhos de sangue e nas coisas
grotescas.
“O Labirinto do Fauno” é um conto de fadas todo sujo de lama e de
sangue, pra quem gosta de coisas nojentas como menininhas rastejando num
rio de cocô, com insetos peçonhentos caminhando pelo corpo, indo se
encontrar com sapos gigantes que se transformam em gosma, mandrágoras que
parecem fetos abortados e faunos chifrudos
assustadores.
Não só as criaturas que habitam
esse mundo são bizarras, como também o "mundo real" retratado está cheio
de violência, hostilidade e desumanidade: execuções sumárias que parecem
saídas de algum filme sobre o Holocausto, cenas de tortura que caberiam
num documentário sobre o DOPS e outras mutilações e rasgos na carne. As
frases espertinhas que pipocaram na minha mente para dizer nessa resenha
foram: “O Labirinto do Fauno” é o conto de fadas que Quentin Tarantino,
quando criança, adoraria ter assistido. “O Labirinto do Fauno” é como
Alice no País das Maravilhas depois de receber um tratamento com
bombas pra ficar mais musculoso e viril.
![]() Esse filme dá medo, também. Faz tempo que eu não me sentia tão criança dentro dum cinema, tendo calafrios frente aos monstrinhos, sobretudo aquele que tem os zóio na mão - manjam? Uma das minhas cenas prediletas é aquela em que a menina, usando o giz de cera mágico que abre portas nas paredes, desce naquele porãozão onde uma criatura bizonha está frente a um imenso jantar, com os globos oculares no prato. Muito medo daquele cara. Quando a menina ameaça desobedecer às ordens que tinha recebido de não beber ou comer nada durante sua estadia ali, eu quase gritava por dentro: “Não come essa uva, sua tonta! Não come! Nãão! NÃÃÃÂO!” E depois, naquela cena clichêzaça dela correndo em direção à portinha que se fecha, eu não resisti e me entreguei ao suspense. Sem a menor ironia. Eu tava realmente preocupado com ela. Juro. Como já foi dito e redito por
aí, tudo se passa na Espanha, perto do fim da Segunda Guerra Mundial,
quando o General Franco ainda chefiava fascistamente o país após ter
derrotado os comunistas na Guerra Civil de 1936 a 1939. O “panorama
histórico” do filme é esse: os rebeldes anti-Franco armando uma guerrilha
nos bosques, enquanto os militares tentam proteger sua posição.
Tecnicamente, o filme é perfeito, magistral, um dos eye-candys que meus
olhos mastigaram com mais delícia – não é à toa que o filme levou 3
Oscars, muitos mais do que o muito mais badalado
Babel.
Resta só a questão de saber se
o filme é “alienante” ou não; mas eu, que não sou sociólogo, deixo a
questão em aberto. A impressão é a de que, por um lado, o filme tenta
fazer o espectador se empolgar pela causa dos rebeldes, simpatizar com os
“espiões” e com os ajudantes, fazendo um retrato até excessivamente
“malvado” dos generais - acabando, é claro, por ser deslavadamente
maniqueísta. Ao mesmo tempo, o filme está tão cheio de fantasia,
que às vezes parece sugerir que somente através da ajuda das forças do
além e dos bichos folclóricos é que a solução para o problema poderia ser
encontrada, e não através da luta política efetiva. Mas isso tudo dá pano
pra manga...
Talvez não seja nada disso, e a
idéia tenha sido unicamente mostrar o mergulho profundo de uma criança no
reino da imaginação num tempo onde ficar na realidade era insuportável
demais. A menininha seria, como a Casey notou tão bem, uma espécie de
Amélie Poulain em tempos de guerra, e tudo não passaria de mais
uma saga de heroísmo em tempos difíceis, usando as muletas da
imaginação... A questão “tudo aquilo era imaginado ou real?” permanece
meio irrespondida, mas é óbvio que, na hora da morte, a heroína precisa
crer, para suportar esse momento, que tudo valeu a pena, que ela
conquistou o direito de retornar ao seio do pai e ser aprovada, numa cena
de gosto duvidoso, por uma espécie de Deus. Mas o mais interessante é o
que fica no ar: tudo pode ser uma ilusão que ela tem na hora da agonia.
Mas tudo pode ser, se o espectador quiser, interpretado também de um jeito
totalmente místico/religioso. De qualquer jeito, o filme fecha com uma
frase de efeito impactante, uma “moral da história” que eu,
particularmente, achei bem legal: “melhor derramar seu próprio sangue do
que derramar o sangue de um inocente...”.
Eis um filme de aventura e
fantasia tão bom quanto qualquer clássico do Spielberg (ou tô exagerando?)
– e que deixa o “conto de fadas” do coitado do Shyamalan comendo poeira. E
eu concordo plenamente com o disse a Casey, geniazinha, no blog dela: “É
um daqueles filmes no qual alguns dos humanos são infinitamente mais
apavorantes do que qualquer monstro imaginado escondendo-se no armário ou
debaixo da cama”. E talvez seja essa a grande sacada do filme: mostrar que
o ser humano consegue ser mais assustador do que uma longa procissão de
criaturas bizonhas e pavorosas.
* * * * * *
(CASEY:
The first movie I've seen that truly delves into a child's imagination
with such vigor and originality since Amelie, I think. But make no
mistake! This is no lighthearted reverie--it's intensely imaginative,
detailed, heartbreaking, and gory. Like, so gory that I actually, at one
point (when one character must cauterize his own fleshwounds), stood up
and ended up swooning briefly, to wake up on the floor outside the theater
a few seconds later. I can't really handle lifelike violence very well,
but in spite of this, I was so moved by this film. More than any in the
past year, save Little Miss Sunshine. One of those movies where some of
the humans in it are infinitely more terrifying than any imagined monster
lurking in a closet or under a bed. ::shivers:: Go see
it.)
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