O LABIRINTO DO FAUNO
de Guillermo Del Toro
[El Labirento del Fauno / Pan's Labyrinth, Espanha-México, 2006].


           
      Demorei pra ir ver, eu sei - nem os 3 Óscares que o filme papou me animaram a correr ao cinema para ver mais um “conto de fadas” super-produzido e metido a não-sei-quê – peguei trauma disso depois daquele horrendo e pavoroso A Dama Na Água, que o Shyamalan teve a falta-de-vergonha de cometer. Quem me convenceu a ir, mais do que o Oscar, foi a Casey Dienel, de novo ela, que escreveu uma adorável resenhola sobre o filme no blog dela.
      Me mandei pr’aquela espaçosa e adorável sala do CineBombril, domingão à noite, pra conferir em digital dolby surround sound e o escambau esse mui elogiado filme do Guillermo Del Toro, antes que saísse de cartaz e eu perdesse a oportunidade de ver no cinemão. E saí do cinema maravilhado com o espetáculo que eu tinha acabado de assistir, feito criança na saída do parque de diversões. Pode até ser que o rótulo de “conto de fadas para adultos” se aplique aqui, até porque o filme tem uns momentos de violência bem horrorshow que deixariam as criancinhas bastante traumatizadas. Pode ser um conto de fadas, mas é um conto de fadas que tem COLHÕES, feito por quem já viu muito Tarantino e não economiza nos banhos de sangue e nas coisas grotescas.
 
“O Labirinto do Fauno” é um conto de fadas todo sujo de lama e de sangue, pra quem gosta de coisas nojentas como menininhas rastejando num rio de cocô, com insetos peçonhentos caminhando pelo corpo, indo se encontrar com sapos gigantes que se transformam em gosma, mandrágoras que parecem fetos abortados e faunos chifrudos assustadores.
      Não só as criaturas que habitam esse mundo são bizarras, como também o "mundo real" retratado está cheio de violência, hostilidade e desumanidade: execuções sumárias que parecem saídas de algum filme sobre o Holocausto, cenas de tortura que caberiam num documentário sobre o DOPS e outras mutilações e rasgos na carne. As frases espertinhas que pipocaram na minha mente para dizer nessa resenha foram: “O Labirinto do Fauno” é o conto de fadas que Quentin Tarantino, quando criança, adoraria ter assistido. “O Labirinto do Fauno” é como Alice no País das Maravilhas depois de receber um tratamento com bombas pra ficar mais musculoso e viril.
      
Esse filme dá medo, também. Faz tempo que eu não me sentia tão criança dentro dum cinema, tendo calafrios frente aos monstrinhos, sobretudo aquele que tem os zóio na mão - manjam? Uma das minhas cenas prediletas é aquela em que a menina, usando o giz de cera mágico que abre portas nas paredes, desce naquele porãozão onde uma criatura bizonha está frente a um imenso jantar, com os globos oculares no prato. Muito medo daquele cara. Quando a menina ameaça desobedecer às ordens que tinha recebido de não beber ou comer nada durante sua estadia ali, eu quase gritava por dentro: “Não come essa uva, sua tonta! Não come! Nãão! NÃÃÃÂO!” E depois, naquela cena clichêzaça dela correndo em direção à portinha que se fecha, eu não resisti e me entreguei ao suspense. Sem a menor ironia. Eu tava realmente preocupado com ela. Juro.
      Como já foi dito e redito por aí, tudo se passa na Espanha, perto do fim da Segunda Guerra Mundial, quando o General Franco ainda chefiava fascistamente o país após ter derrotado os comunistas na Guerra Civil de 1936 a 1939. O “panorama histórico” do filme é esse: os rebeldes anti-Franco armando uma guerrilha nos bosques, enquanto os militares tentam proteger sua posição. Tecnicamente, o filme é perfeito, magistral, um dos eye-candys que meus olhos mastigaram com mais delícia – não é à toa que o filme levou 3 Oscars, muitos mais do que o muito mais badalado Babel.
      Resta só a questão de saber se o filme é “alienante” ou não; mas eu, que não sou sociólogo, deixo a questão em aberto. A impressão é a de que, por um lado, o filme tenta fazer o espectador se empolgar pela causa dos rebeldes, simpatizar com os “espiões” e com os ajudantes, fazendo um retrato até excessivamente “malvado” dos generais - acabando, é claro, por ser deslavadamente maniqueísta. Ao mesmo tempo, o filme está tão cheio de fantasia, que às vezes parece sugerir que somente através da ajuda das forças do além e dos bichos folclóricos é que a solução para o problema poderia ser encontrada, e não através da luta política efetiva. Mas isso tudo dá pano pra manga...


      Talvez não seja nada disso, e a idéia tenha sido unicamente mostrar o mergulho profundo de uma criança no reino da imaginação num tempo onde ficar na realidade era insuportável demais. A menininha seria, como a Casey notou tão bem, uma espécie de Amélie Poulain em tempos de guerra, e tudo não passaria de mais uma saga de heroísmo em tempos difíceis, usando as muletas da imaginação... A questão “tudo aquilo era imaginado ou real?” permanece meio irrespondida, mas é óbvio que, na hora da morte, a heroína precisa crer, para suportar esse momento, que tudo valeu a pena, que ela conquistou o direito de retornar ao seio do pai e ser aprovada, numa cena de gosto duvidoso, por uma espécie de Deus. Mas o mais interessante é o que fica no ar: tudo pode ser uma ilusão que ela tem na hora da agonia. Mas tudo pode ser, se o espectador quiser, interpretado também de um jeito totalmente místico/religioso. De qualquer jeito, o filme fecha com uma frase de efeito impactante, uma “moral da história” que eu, particularmente, achei bem legal: “melhor derramar seu próprio sangue do que derramar o sangue de um inocente...”.
      Eis um filme de aventura e fantasia tão bom quanto qualquer clássico do Spielberg (ou tô exagerando?) – e que deixa o “conto de fadas” do coitado do Shyamalan comendo poeira. E eu concordo plenamente com o disse a Casey, geniazinha, no blog dela: “É um daqueles filmes no qual alguns dos humanos são infinitamente mais apavorantes do que qualquer monstro imaginado escondendo-se no armário ou debaixo da cama”. E talvez seja essa a grande sacada do filme: mostrar que o ser humano consegue ser mais assustador do que uma longa procissão de criaturas bizonhas e pavorosas.
 
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      (CASEY: The first movie I've seen that truly delves into a child's imagination with such vigor and originality since Amelie, I think. But make no mistake! This is no lighthearted reverie--it's intensely imaginative, detailed, heartbreaking, and gory. Like, so gory that I actually, at one point (when one character must cauterize his own fleshwounds), stood up and ended up swooning briefly, to wake up on the floor outside the theater a few seconds later. I can't really handle lifelike violence very well, but in spite of this, I was so moved by this film. More than any in the past year, save Little Miss Sunshine. One of those movies where some of the humans in it are infinitely more terrifying than any imagined monster lurking in a closet or under a bed. ::shivers:: Go see it.)

                  
          
      eduardo carli de moraes, março de 2007
      
educmoraes@hotmail.com.