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É coisa rara ver um roteirista alçado ao
patamar de estrela da indústria cinematográfica, glória que costuma estar
reservada somente para atores e diretores. Charlie Kaufman chegou lá. Após
ter criado quatro roteiros originais muito criativos e pouco usuais, dois
deles dirigidos por Spike Jonze ("Quero ser John Malkovitch" e
"Adaptação"), dois pelo francês Michel Gondry ("Natureza (Quase) Humana" e
"Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças"), Kaufman é hoje, sem dúvida,
um dos mais renomados e cultuados dos roteiristas do cinema americano. Não
sem razão. A própria palavra "roteirista", normalmente dada aos
profissionais contratados pra adaptar obras literárias ou inventar
historinhas rentáveis para a máquina de fazer dinheiro hollywoodiana,
parece pequena demais pra Kaufman. Melhor seria dizer que ele é um
escritor que, ao invés de se ater à linguagem verbal, escreve já pensando
na linguagem cinematográfica. Um escritor de cinema. Uma mente inventiva
como a dele, que tem ainda a vantagem de nunca cair no intelectualismo
hermético demais, ficando na área do filme-pop a ser exibido nos cinemões
multiplex, é difícil de se encontrar. Para tentar transformar em pérolas visuais as idéias
borbulhantes de Kaufman, poucos são mais apropriados que Michel Gondry, o
célebre diretor de alguns dos video-clipes mais atordoantes e criativos
que a humanidade já viu. Além de meia-dúzia de excelentes vídeos feitos
pra Bjork (incluindo os clássicos "Army Of Me", "Hyperballad" e "Jóga"),
Gondry já trabalhou com muita gente boa e sempre com resultados
interessantes: fez Rolling Stones (o psicodélico "Like a Rolling Stone",
com a Patricia Arquette protagonizando), White Stripes (o genial
lego-clipe de "Fell In Love With a Girl" e o de "Dead Leaves on The Dirty
Ground"), Foo Fighters ("Everlong"), Daft Punk (o robótico "Around The
World"), Radiohead ("Knives Out"), Chemical Brothers ("Let Forever Be"),
Massive Attack ("Protection"), Vines ("Ride"), entre outros. Tão numerosos
triunfos o colocam seguramente como um dos nomes mais brilhantes da
história do video-clipe. Com Brilho Eterno..., seu segundo
longa-metragem, Gondry faz seu primeiro filme realmente embasbacante,
daqueles de deixar mandíbulas caídas de admiração, e desfaz o ceticismo
que alguns poderiam ter tido quanto a seus talentos após assistir a sua
estréia na telona em A Natureza (Quase)
Humana...Este último, primeiro projeto conjunto de Gondry (na direção) e Kaufman (no roteiro), é uma comédia pretensamente provocativa e sem muita graça que representou pra muitos uma decepção. O filme me pareceu muito artificial, cheio de personagens estereotipados e inverossímeis, além de ter atuações sem vida... A idéia não era exatamente ruim, mas a execução deixou a desejar. A intenção parece ter sido a de fazer uma provocação aos moralistas de plantão que são puros e comportados na aparência, mas que tem seus impulsos sujos repousando escondidos dentro de si. O personagem de Tim Robbins é aquele sujeito extremamente puritano, seguidor obsessivo dos bons modos, vítima de uma educação ferrenha, que adora os modos civilizados e vê com repugnância a natureza humana em seu estado original. Ele vai então recolher um selvagem das matas e irá ensiná-lo as boas maneiras da civilização. O filme tem lá seus momentos válidos de provocação, e chega a dar suas cutucadas e alfinetas contra a moralização feita por condicionamento pavloviano, mas o processo passa longe de ter a força persuasiva daquele, muito semelhante, que nos mostra o Laranja Mecânica de Kubrick, por exemplo. Mas se trata da mesma coisa: o "selvagem" de ambos os filmes, após ter passado por uma "lavagem cerebral", por uma educação rigorosa, é exposto ao mundo como um homem "curado", mas logo se vê que sua cura é só de fachada e que lá no obscuro da mente ainda permanece um animal no cio, incapaz de resistir aos seus impulsos assassinos e sexuais. Mas é inegável que a obra-prima de Kubrick era imensamente mais bem-sucedida nos seus intentos e que A Natureza (Quase) Humana é um filme um tanto medíocre que não será lembrado por muitos anos...
A nova contribuição Gondry/Kaufman, esse
Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças, me pareceu um filme bem
melhor realizado que o anterior e bom o bastante para estar destinado ao
status de clássico. Mesclando comédia romântica (sem exagero no açúcar) e
ficção científica leve, a obra parte da seguinte idéia tipicamente
kaufmaniana: e se alguém inventasse uma máquina de amnésia que nos
possibilitasse apagar da memória certas lembranças desagradáveis? Tudo bem
que a própria mente humana já possui recursos semelhantes, empurrando lá
pro inconsciente à base de repressão aquilo com o que não simpatizamos.
Mas esses conteúdos que nós tentamos expulsar da mente sempre voltam pra
nos atormentar nos sonhos e nas neuroses. Um dispositivo tecnológico que
possibilitasse um aniquilamento completo das memórias seria algo mais
desejável. No mundo imaginado por Kaufman, há uma empresa (a Lacuna) que
oferece esse serviço divino a todos os desgraçados que tanto aspiram ao
sagrado esquecimento. E lá se vai Joel Barish (Jim Carrey), coração partido após treta com a namorada Clementine (Kate Winslet), e contrata a empresa para que possa passar pela "lavagem cerebral" (pela qual já passou a mocinha antes) que o restituirá a tranquilidade e fechará as cicatrizes. Solução conveniente para os relacionamentos fracassados: a mútua amnésia. O espectador nunca tem certeza se o serviço oferecido pela Lacuna funciona de verdade ou se a empresa é uma perigosa enganação. Somam pontos à desconfiança que cresce no espectador o fato de que os três funcionários da Lacuna Corporation (interpretados por Elijah Wood, Kirsten Dunst e Mark Ruffalo) são insistentemente descritos como negligentes, irresponsáveis e doidões. A própria idéia de se submeter à operação é duvidosa, pois se sabe da natureza perigosa da mesma ("Há algum risco de dano cerebral?", pergunta Joel ao médico, só pra receber a pouco convidativa resposta: "Bem, tecnicamente falando, a operação É dano cerebral..."). Um suspensinho básico é criado e sempre ficamos a nos perguntar: "será que essa negada vai ferrar com a mente do pobre Joel?" Grande parte do filme se passará dentro da mente de Joel durante sua "cirurgia" de extração das memórias (Brilho Eterno é um dos filmes mais "intra-mentais" que eu conheço). A narração da história de amor e de ódio entre Joel e Clementine vai ser feita através das memórias que são revisitadas com o intuito de serem apagadas pela tecnologia da Lacuna. Kaufman imaginou o processo da seguinte maneira: não se trata de uma operação em que a pessoa esteja totalmente nocauteada, adormecida e inconsciente. Muito pelo contrário: Joel está consciente de todas as memórias no momento em que elas estão sendo destruídas, e vai sendo conduzido de lembrança em lembrança para assistir ao assassinato. É como se a mente de Joel fosse uma HD de computador, e a tecnologia da Lacuna fizesse um search em busca da palavra-chave "Clementine" nessa HD, para então ir entrando de diretório em diretório para apagar o "vírus". A extinção gradativa das memórias se desenvolve de trás pra frente, ou seja, as memórias mais recentes vão sendo apagadas antes das mais antigas, de modo que Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças acaba por possuir um mini-Amnésia ou um mini-Irreversível dentro de si. Começamos vendo as cenas mais sangrentas e melancólicas da ruptura entre os namoradinhos, e depois vamos penetrando no passado dos dois, em direção aos momentos mais doces, até o fim do processo, quando eles se conhecem numa praia de Montauk, última lembrança a ser dizimada. Esse movimento de ir da desgraceira das lutas em direção à doçura do início do amor lembra aquele de Irreversível, filme que também vai do Inferno ao Céu, só pra dizer, é bem verdade, que o Céu era apenas o começo da história e que tudo está, quando restituída a cronologia correta, basicamente indo à merda. Mas Brilho Eterno... não é integralmente in reverse como Irreversível: há o "tempo presente" da história que se desenrola em tempo linear, que inicia e termina o filme, e como interlúdio às "cenas da mente" há sempre as "cenas presentes" do pessoalzinho da Lacuna trabalhando.
Brilho Eterno..., nesse momentos, vira um filme surreal, bizarro, insano, meio lynchiano, meio fellinesco, mas sempre com um ritmão de video-clipe que nunca permite um só momento de chatice. Joel transita por um pesadelo dentro de sua própria mente, tentando inutilmente salvar memórias que as pessoas do mundo lá de fora estão engajadas em destruir. Vê literalmente o seu mundo ser deletado. Gondry usa técnicas que não necessitam de efeitos especiais grandiosos para mostrar esses deletamentos, e na maior parte do tempo esse mago das imagens faz tudo na própria câmera. Também não tem vergonha de usar soluções simplérrimas, como quando ele apaga a luz da Livraria para mostrar que o cenário acaba de ser "apagado" da mente de Joel. Mas Brilho Eterno...tem também seus momentos pé-no-chão, de realismo cru e de anti-idealismo amoroso. A relação entre Joel e Clementine, à primeira vista, parece desenvolvida como a enésima tentativa de comprovar o tal do dogma de que "os opostos se atraem". A saga "Eduardo e Mônica" revisitada. Clementine (Winslet), garota impulsiva, extrovertida, tagarela, um tantinho neurótica, que carrega um camaleão colado no seu couro cabeludo, sempre insatisfeita consigo mesma, sempre tingindo suas tranças com cores diversas, uma Marla Singer um pouco menos fodida, se descreve como "just a fucked up girl searching for peace of mind". Já Joel (Carrey), sujeito introvertido, calado, tímido, não muito corajoso nos ataques de sedução, sempre com uma baixa auto-estima, sempre a pensar que sua vida nada tem de interessante, mantem-se sempre contido, prudente, racional. Eles se atraem, é claro, mas depois o relacionamento vai despencando ladeira abaixo devido às incompatibilidades entre os dois.
Um aspecto que merece ser ressaltado e que os críticos em geral não parecem ter notado é o seguinte: a reincidência dos casos de amor entre os amnésicos. Joel e Clementine passam ambos pela lavagem mnemônica, e depois acabam novamente se encontrando e se conectando. Da mesma forma, a secretária da Lacuna (Dunst, a Mary Jane de Spider-Man 1 e 2), que havia se livrado da memória de seu caso com o médico, também volta a sentir a atração e a reincidir no "crime". De modo que uma moral da história pode ser retirada de Brilho Eterno...: não basta eliminar a memória da pessoa amada da mente para que esse amor seja completamente nadificado, já que a personalidade das pessoas continua propensa à atração. Pouco importa que não se lembrem mais um do outro: Joel continuará sendo um pólo sul e Clementine um pólo norte, por assim dizer. Aliás, pode-se até imaginar que a antiga relação tenha deixado marcas permanentes na personalidade q não podem ser apagadas junto com as memórias. Quando Joel, na primeira manhã após a lavagem, decide matar o dia no trabalho, sair correndo pela estação de trem e se mandar pra Montauk, achando tal atitude um tanto esquisita ("não sou uma pessoa impulsiva!"), a gente fica com a impressão de que, mesmo aniquiladas as memórias de Clementine, a personalidade de Joel não saiu ilesa do relacionamento e um pouco da impulsividade dela foi transmitida a ele por osmose. E muito me agradou o desfecho de "Brilho Eterno...": um realismo lúcido, incomum em comédias românticas, domina os dois. Nada de baboseiras sentimentalóides, nada de beijos melodramáticos, nada de promessas de amor eterno... não é nem mesmo um final feliz, exatamente. Ali estão duas pessoas problemáticas, dois outsiders, cada um a seu modo, que sabem que sua relação foi problemática e continuará sendo, que vão brigar, vão se odiar, vão oscilar e tudo mais, e que mesmo assim escolhem continuar. E começam melhor agora, já que acabam de ouvir as fitinhas onde cada um diz a verdade crua sobre o que pensa do outro, e o amor com a verdade tem muito mais chance de dar certo do que sem.
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