![]() O AGENTE DA ESTAÇÃO (The Station Agent, EUA, 2002, 88min) Escrito e dirigido por Tom McCarthy Dizer que esse é o
melhor “filme de anão” que já tive o prazer de assistir seria um tanto
ridículo. Eles não existem em quantidade tão numerosa, eles os filmes de
anão, para que valha a pena conceder a qualquer um deles a “glória” de ser
o melhor da categoria... seria o mesmo que eleger o “melhor filme sobre
crianças com poliomielite” ou “o melhor filme sobre viagens de barco à
Oceania”! Além do mais, o rótulo não é muito adequado: antes de mais nada,
esse é um filme sobre a amizade mais do que sobre uma deficiência
física, sobre relacionamentos humanos mais do que sobre calamidades
fisiológicas. Após a morte de um amigo seu, Fin, nosso anão protagonista, herda um pequeno imóvel em uma cidade distante, para onde se muda em busca de um recanto solitário. Uma vida inteira sendo tratado como um ser inferior, não exatamente humano, um tanto anormal e deformado, parecem ter criado dentro dele uma certa aversão à humanidade... Fin se mostra sempre muito arredio, anti-social, monossilábico. Anda pelo mundo cabisbaixo e triste, com a auto-estima em frangalhos, como se estivesse convencido de ninguém no mundo é capaz de amar um anão, esse palhaço involuntário, essa vítima de uma piada do destino, esse homem-feito encarcerado num corpo de criança para a diversão do mundo... Fin recusa o mais que pode o contato humano,
os bate-papos, as “baladas”, muito provavelmente pois em toda a sua vida
não retirou dos homens nada de muito agradável: nada além de desprezo,
risadinhas e estranhezas. Para quem sempre foi utilizado pelo mundo como
pretexto para a gargalhada, que bem haveria em continuar
freqüentando os homens? Pois Fin se enrola em seu casulo e se defende
contra o mundo: responde às perguntas que lhe fazem com uma pressa e uma
economia de palavras que deixam claro o quão penoso é pra ele o
relacionamento interpessoal; enxota para longe de si os homens como se
fossem pulgas ou pernilongos que ele desejaria ver distantes; procura a
vida de eremita... Mas ao mesmo tempo dá pra notar que a compacta solidão que ele traz
no peito o impele a desejar um contato... Não, “O Agente da Estação” não é nenhuma obra-prima, nenhuma obra-de-arte grandiosa, nenhum filme com uma mensagem moral original ou visionária... O diretor iniciante Tom McCarthy, aliás, faz tudo com economia e discrição, até com uma certa timidez, como se tivesse medo de que seu filme ficasse grande demais, barulhento demais. Como se sentisse que estaria traindo seu personagem principal se fizesse um filme maior e então tentasse realizar um cinema-anão para retratar a vida anã... Diferente de certos diretores mais "aparecidos", McCarthy parece querer se esconder o máximo possível: a câmera não faz em nenhum momento alguma peripécia mirabolante e o filme não tem nenhum efeito especial ou de lente. É como se tudo fosse feito para que esquecéssemos que há um cameraman e um diretor. O que importa, afinal, são os personagens, suas vidas, seus sentimentos; a forma de narrar e os exibicionismos de câmera parecem importar pouco. Eis um filme simplérrimo, sem firulas, sem ornamentos, completamente despojado, pequeno e humilde. Nada aqui é estrondoso ou espetacular. Nem mesmo o título parece atraente o bastante para que as pessoas se sintam impelidas a aluga-lo nas locadoras... No fundo, ele nos conquista por ter personagens tão simpáticos, interpretados com uma naturalidade tão real, muito mais do que por qualquer “virtuosidade” na filmagem, na edição ou na montagem. “Cinema de personagens”, se quiserem, que lembra o trabalho de certos diretores que sempre se ocuparam em registrar a vida cotidiana como ela é (Mike Leigh é o maior dos mestres que me vêem à mente nesse estilo de cinema). “O Agente da Estação” conquista sendo assim como é: simples em sua mensagem, mas não menos verdadeiro por isso (e porque a verdade precisaria ser complicada?); pontuado de silêncios, como são grande parte dos relacionamentos humanos (e por que não retratá-los como são, ao invés de como gostaríamos que fossem?); resignado à pequenez da vida cotidiana, não tentando nunca engrandecer e espetacularizar... Por detrás da aparente pequenez e minimalismo da técnica de “O Agente da Estação”, quem souber olhar direito vai achar uma abundância de grandeza humana... “Filme de anão” esse de TomMcCarthy? Que
nada: filme de gigante que se finge de
anão.
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